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938 Words
Grego Narrando Se tem uma coisa que eu odeio é ficar parado. Tem gente que acha que trabalhar na boca é passar o dia sentado dando ordem, quem pensa isso nunca pisou aqui. Acordo cedo, antes mesmo do sol esquentar as vielas da Rocinha. O movimento já começa e, quando chego, encontro metade dos problemas me esperando. Um vapor discutindo por causa de carga, morador querendo falar com o Cairo, rádio chamando sem parar, telefone tocando e eu m*l tive tempo de terminar o primeiro café do dia. A vida por aqui não espera ninguém, depois de resolver o que precisa ser resolvido, sigo para a associação de moradores. Todo mês ajudamos na entrega das cestas básicas para famílias que realmente precisam. Tem gente que acha que isso é propaganda. Nunca foi. A maioria nem sabe de onde vem a ajuda. Passo boa parte da manhã descarregando caminhão, organizando fila e brincando com as crianças que aparecem mais interessadas nas balas que a gente distribui do que nas cestas. Uma senhora segura minha mão. — Deus te abençoe, meu filho. Dou um sorriso. — Amém, dona Célia. Ela aperta minha bochecha como se eu ainda tivesse quinze anos. — Tu continua um folgado. Começo a rir. — A senhora fala isso desde que eu era moleque. — E continuo certa. Dou uma gargalhada e sigo ajudando. É disso que eu gosto. Ver que, pelo menos de vez em quando, a gente consegue facilitar a vida de alguém. No começo da tarde volto para a boca e encontro o Cairo do mesmo jeito que ele fica quando alguma coisa ocupa a cabeça dele. Calado, pensando. Nem preciso perguntar, já sei o motivo. A mulher, a bendita mulher. A conversa que tivemos confirma exatamente o que eu imaginava. Ela sabe coisas demais, coisas que não fazem sentido. E isso me deixa com uma pulga atrás da orelha, enquanto o Cairo tenta descobrir quem ela é, eu fico pensando em outra coisa. Por quê? Por que alguém passaria dois anos mandando mensagem para um homem sem receber resposta? Não faz sentido, ou faz. Só que eu ainda não descobri qual. O resto do dia passa voando. Resolver problema atrás de problema cansa qualquer um. Quando finalmente olho para o relógio, já está escurecendo. Respiro fundo. Chega. Hoje ninguém merece dormir pensando em trabalho. Pego o celular, mando mensagem no grupo. Grego: Churrasco lá em casa. Grego: Hoje. Menor: Quem vai fazer a carne? Grego: Eu. Menor: Então vou comer antes. Dou risada sozinho. Grego: Engraçadinho. Menor: Tô levando refrigerante. Grego: Traz cerveja também. Menor: Sou menor. Grego: Conveniente pra caramba. Pouco mais de uma hora depois, minha casa já está cheia. Música tocando, churrasqueira acesa, cerveja gelada e aquela bagunça que parece existir naturalmente quando a gente se reúne. O Cairo chega por último, como sempre. — Achei que não vinha. Ele pega uma cerveja. — Também achei. Dou um tapa de leve no ombro dele. — Para de ser velho. O Menor já está rindo de alguma besteira que ninguém sabe como começou. É bom ver o Cairo assim, mesmo quieto. Pelo menos hoje ele está entre pessoas que não esperam nada dele além da companhia. No meio da conversa, olho para a rua e vejo alguém passando. Helena. Não penso duas vezes. — Ô, Helena! Ela para e olha na direção da casa. — Oi. — Vai fingir que não viu a gente? Ela cruza os braços. — Eu vi. — Então entra. Ela olha para a churrasqueira. — Já acabou a carne? Faço cara de indignado. — Tá duvidando de mim? Ela sorri de canto. — Conhecendo você... O pessoal começa a rir. — Entra logo. Ela balança a cabeça. — Só cinco minutos. Cinco minutos, todo mundo sabe que isso nunca existe. Ela entra, cumprimenta o pessoal e aceita uma cadeira. Entrego uma latinha de cerveja. — Sabia que tu ia aceitar. Ela abre a lata. — Não se acostuma. O Menor olha para mim com aquele sorriso de quem vai aprontar. Pronto. Lá vem. — Grego... Olho para ele. — Fala. — Tu tá tentando conquistar a Helena faz quanto tempo? Fecho a cara. — Cala a boca. Ele continua rindo. — Acho que desde que eu era criança. Todo mundo começa a rir. Até o Cairo abaixa a cabeça escondendo um sorriso. Olho para a Helena. Ela está mordendo o lábio para não rir também. — Tá vendo? Aponto para o Menor. — Foi isso que eu ensinei? O Menor levanta as mãos. — Eu só falei a verdade. Olho para a Helena outra vez. — Não escuta esse moleque. Ela finalmente ri, uma risada leve, daquelas que quase nunca aparecem. — Relaxa, Grego. Ela toma mais um gole da cerveja. — Eu já sei que tu fala muito e faz pouco. A roda inteira explode na gargalhada. Levo a mão ao peito como se tivesse levado um tiro. — Aí foi s*******m. O Menor bate na minha perna de tanto rir. — Perdeu, chefe! Reviro os olhos. — Vocês combinaram contra mim. O Cairo finalmente resolve participar. — Não precisa combinar. Todo mundo volta a rir. Olho em volta da mesa, a música continua tocando. A fumaça da churrasqueira sobe devagar, as risadas ecoam pela casa. E, por algumas horas, ninguém lembra de problema, de trabalho ou de responsabilidade. Ali...A gente não é o dono do morro, não é o braço direito, não é o vapor, não é a dona da loja. É só um grupo de amigos tentando aproveitar uma noite comum. E, sinceramente...Às vezes é exatamente disso que a gente mais precisa.
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