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1016 Words
Helena Narrando Tem dias que parece que a loja suga toda a minha energia. Eu gosto do que faço. Gosto de escolher as peças, conversar com as clientes, ver uma mulher entrando insegura e saindo se sentindo bonita. Minha loja é mais do que roupa pendurada em cabide. É o meu espaço. O lugar que construí com muito esforço e onde conheço praticamente todo mundo que passa pela porta. Mas até aquilo que a gente ama cansa e hoje foi um desses dias. Fecho a última gaveta do caixa, confiro duas vezes se deixei tudo organizado e apago as luzes da loja. A rua já está mais tranquila, diferente da agitação de algumas horas atrás. Os comerciantes começam a fechar as portas, as crianças já não correm tanto pelas vielas e a comunidade vai mudando de ritmo. Tranco a porta e fico alguns segundos parada em frente à loja. Respiro fundo. Mais um dia terminado, normalmente eu iria direto para casa. Tomaria banho, comeria alguma coisa e tentaria descansar. Mas hoje eu não quero silêncio. Quero sentar em algum lugar onde eu não precise pensar em nada por alguns minutos. Por isso caminho até o Sacanas. O bar mais conhecido da comunidade, todo mundo conhece o Sacanas. Não importa a idade, o horário ou o problema do dia. Sempre tem alguém ali. O dono conhece todo mundo pelo nome, sabe quem gosta de cerveja gelada, quem pede refrigerante e até quem aparece só para conversar. É quase uma extensão da rua. Quando entro, algumas pessoas me cumprimentam. — Helena! Olho para o lado. — Oi, gente. Sorrio e aceno. Escolho uma mesa mais afastada, mas ainda consigo ver o movimento do bar inteiro. O dono coloca a cerveja na minha frente sem nem perguntar. — Hoje foi puxado? Olho para ele. — Dá pra perceber? Ele ri. — Tu tem uma cara diferente quando tá cansada. Dou uma risada baixa. — Obrigada pela sinceridade. Ele sai rindo enquanto eu abro a garrafa. Dou o primeiro gole e sinto meu corpo relaxar um pouco. Às vezes a gente não precisa de muita coisa, só de alguns minutos sem ninguém chamando pelo nosso nome e uma cerveja estupidamente gelada. Fico observando as pessoas ao redor, as conversas, as risadas, as histórias repetidas pela milésima vez. Esse lugar tem isso. Ele lembra que, apesar dos problemas, as pessoas continuam vivendo. Estou distraída quando escuto o barulho de uma moto parando na frente do bar. Nem preciso olhar. Já sei. Algumas pessoas têm uma presença que chega antes delas. Quando levanto os olhos, encontro o Grego tirando o capacete. Claro. Porque aparentemente eu não posso ter uma noite tranquila. Ele entra no bar, olha ao redor e, quando me vê, abre aquele sorriso convencido de sempre. Já sei que vem provocação. Ele se aproxima. — Olha só. Levanto uma sobrancelha. — O quê? Ele aponta para a minha mesa. — Tu sabe relaxar? Bebo mais um gole da cerveja antes de responder. — E eu achei que tu não sabe ficar cinco minutos sem aparecer onde não foi chamado. Ele coloca a mão no peito, fingindo estar ofendido. — Caramba. Boa noite pra você também. — Boa noite, Grego. Ele puxa a cadeira, nem pergunta se pode sentar. Esse é o problema dele. Ele acha que o mundo inteiro é convidativo. — Posso? Olho para a cadeira que ele já está ocupando. — Tu já sentou. Ele sorri. — Então posso. Reviro os olhos. — Tu não muda. — E tu continua brava comigo. — Eu não tô brava. — Tá sim. — Não tô. — Tá. Olho para ele. — Tu veio aqui só pra me irritar? Ele dá de ombros. — Talvez. — Sabia. Ele ri. Mas depois de alguns segundos, percebo que ele está me observando de outro jeito. Não como sempre, sem aquela brincadeira. — Tu tá cansada. Não é uma pergunta, é uma afirmação. Fico um pouco surpresa. — Trabalhei o dia inteiro. — Eu sei. Franzo a testa. — Sabe? Ele aponta com a cabeça para a direção da minha loja. — Eu passo ali quase toda hora. Dou um sorriso irônico. — Que estranho. — O quê? — Tu admitindo que passa na frente da minha loja. Ele ri. — Eu moro aqui, Helena. — Sei. Ficamos em silêncio por alguns segundos. O que é raro com ele. Normalmente o Grego fala por nós dois. — Tu comeu alguma coisa hoje? Olho para ele. — Como é? — Perguntei se tu comeu. Cruzo os braços. — Agora tu virou minha mãe? Ele ri. — Não. Dá um gole na cerveja. — Só parece que tu esquece de cuidar de ti quando tá ocupada. A resposta me pega um pouco desprevenida. Porque não parece uma cantada, parece preocupação. E eu não sei o que fazer quando ele faz isso. O Grego é fácil quando está brincando. Eu sei responder, eu sei provocar de volta. Mas quando ele deixa aparecer esse lado...Fica mais complicado. — Tu sempre foi assim? Ele franze a testa. — Assim como? — Fingindo que não se importa. Ele sorri de canto. — E tu sempre foi assim? — Assim como? — Fingindo que não percebe. Fico sem resposta por alguns segundos. O pior é que ele fala sorrindo, como se tivesse certeza de alguma coisa. E talvez tenha. Termino minha cerveja e olho para o relógio. — Já tá tarde. Ele olha para a garrafa vazia. — Só uma? — Sim. — Milagre. Levanto. — Não começa. Ele também levanta. — Eu não falei nada. — Mas pensou. Ele coloca o capacete. — Boa noite, Helena. Paro por um segundo, porque dessa vez ele não faz nenhuma piada, nenhuma provocação. Só uma despedida simples. — Boa noite, Grego. Ele sobe na moto e vai embora. Fico olhando até ele desaparecer na rua. E odeio admitir uma coisa, o problema do Grego nunca foi falta de charme. Ele tem isso de sobra. O problema é que, às vezes, por alguns segundos...Ele me faz esquecer exatamente por que eu deveria manter distância.
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