Cairo Narrando
Tem dias que a Rocinha parece uma pessoa. Ela acorda, fala, reclama, comemora e, quando alguma coisa acontece, parece que todo mundo sente ao mesmo tempo. Desde cedo percebo que o assunto ainda é o mesmo, o menino. A notícia corre rápido aqui, mais rápido do que qualquer rádio ou telefone consegue acompanhar. Quando uma criança some, não existe diferença entre morador, comerciante ou trabalhador. Todo mundo para o que está fazendo para ajudar.
Passo pela rua principal cumprimentando algumas pessoas quando uma senhora segura meu braço.
— Cairo.
Viro para ela.
— Fala, dona Marta.
Ela segura minha mão por alguns segundos antes de falar.
— Obrigada pelo que vocês fizeram ontem.
Faço uma expressão séria.
— Não fiz nada demais.
Ela balança a cabeça.
— Fez sim.
Dona Marta olha na direção onde o Luan conversa com alguns garotos.
— Aquele menino tem um coração bom.
Acompanho o olhar dela.
Ainda acho estranho quando chamam ele de Menor. Para mim, continua sendo aquele moleque que corria pelas vielas sem medo de nada, que chegava em casa com o joelho ralado e sempre tinha uma história diferente para justificar alguma arte que tinha feito.
— Ele só fez o que qualquer pessoa faria.
Ela sorri.
— Não. Nem todo mundo faria.
Fico em silêncio.
Ela aperta minha mão antes de ir embora.
— Tu fez um bom trabalho criando ele.
Franzo a testa.
— Eu não criei ninguém.
Ela dá uma risada baixa.
— Criou sim.
E vai embora antes que eu consiga responder.
Fico parado por alguns segundos pensando naquela frase.
Eu não sou pai do Luan. Nunca fui. Mas talvez algumas pessoas não precisem ter o mesmo sangue para carregar uma responsabilidade.
Continuo andando até encontrar o Grego encostado perto da entrada da boca, com aquele sorriso debochado de sempre.
— Olha quem tá famoso.
Olho para ele.
— Quem?
Ele aponta com a cabeça para o Menor.
— Teu protegido.
Reviro os olhos.
— Para de falar besteira.
— Besteira nada. Ontem ele salvou o dia.
O Luan escuta e já aparece reclamando.
— Para com isso.
O Grego abre um sorriso.
— Tá com vergonha agora?
— Tu não ajuda.
— Daqui a pouco vai cobrar autógrafo.
Não consigo evitar um sorriso. O Luan tenta parecer irritado, mas dá para perceber que está feliz. Todo mundo gosta de sentir que fez algo certo, principalmente alguém da idade dele.
Me aproximo.
— Só não deixa isso subir pra cabeça.
Ele olha para mim.
— Eu sei.
— Sabe mesmo?
Ele confirma.
— Minha mãe já falou isso.
Dou um leve sorriso, claro que falou.
Rosana é exatamente esse tipo de pessoa. Ela lembra o Luan de quem ele é antes que qualquer outra pessoa tente dizer.
O dia segue como sempre. Trabalho, problemas, telefone tocando, rádio chamando e a rotina que nunca para. Mas, de alguma forma, parece mais leve. Talvez porque, no meio de tanta coisa r**m, ontem aconteceu algo que realmente valeu a pena.