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502 Words
Cairo Narrando Tem dias que a Rocinha parece uma pessoa. Ela acorda, fala, reclama, comemora e, quando alguma coisa acontece, parece que todo mundo sente ao mesmo tempo. Desde cedo percebo que o assunto ainda é o mesmo, o menino. A notícia corre rápido aqui, mais rápido do que qualquer rádio ou telefone consegue acompanhar. Quando uma criança some, não existe diferença entre morador, comerciante ou trabalhador. Todo mundo para o que está fazendo para ajudar. Passo pela rua principal cumprimentando algumas pessoas quando uma senhora segura meu braço. — Cairo. Viro para ela. — Fala, dona Marta. Ela segura minha mão por alguns segundos antes de falar. — Obrigada pelo que vocês fizeram ontem. Faço uma expressão séria. — Não fiz nada demais. Ela balança a cabeça. — Fez sim. Dona Marta olha na direção onde o Luan conversa com alguns garotos. — Aquele menino tem um coração bom. Acompanho o olhar dela. Ainda acho estranho quando chamam ele de Menor. Para mim, continua sendo aquele moleque que corria pelas vielas sem medo de nada, que chegava em casa com o joelho ralado e sempre tinha uma história diferente para justificar alguma arte que tinha feito. — Ele só fez o que qualquer pessoa faria. Ela sorri. — Não. Nem todo mundo faria. Fico em silêncio. Ela aperta minha mão antes de ir embora. — Tu fez um bom trabalho criando ele. Franzo a testa. — Eu não criei ninguém. Ela dá uma risada baixa. — Criou sim. E vai embora antes que eu consiga responder. Fico parado por alguns segundos pensando naquela frase. Eu não sou pai do Luan. Nunca fui. Mas talvez algumas pessoas não precisem ter o mesmo sangue para carregar uma responsabilidade. Continuo andando até encontrar o Grego encostado perto da entrada da boca, com aquele sorriso debochado de sempre. — Olha quem tá famoso. Olho para ele. — Quem? Ele aponta com a cabeça para o Menor. — Teu protegido. Reviro os olhos. — Para de falar besteira. — Besteira nada. Ontem ele salvou o dia. O Luan escuta e já aparece reclamando. — Para com isso. O Grego abre um sorriso. — Tá com vergonha agora? — Tu não ajuda. — Daqui a pouco vai cobrar autógrafo. Não consigo evitar um sorriso. O Luan tenta parecer irritado, mas dá para perceber que está feliz. Todo mundo gosta de sentir que fez algo certo, principalmente alguém da idade dele. Me aproximo. — Só não deixa isso subir pra cabeça. Ele olha para mim. — Eu sei. — Sabe mesmo? Ele confirma. — Minha mãe já falou isso. Dou um leve sorriso, claro que falou. Rosana é exatamente esse tipo de pessoa. Ela lembra o Luan de quem ele é antes que qualquer outra pessoa tente dizer. O dia segue como sempre. Trabalho, problemas, telefone tocando, rádio chamando e a rotina que nunca para. Mas, de alguma forma, parece mais leve. Talvez porque, no meio de tanta coisa r**m, ontem aconteceu algo que realmente valeu a pena.
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