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901 Words
Ela (Desconhecida) - Narrando Acordo antes do despertador tocar. Fico ali, deitada, olhando para o teto. Por alguns segundos, não lembro exatamente onde estou. Não lembro o motivo de estar sorrindo. Até que o celular vibra na mesa ao lado da cama. Meu coração acelera antes mesmo de eu olhar a tela. É ridículo. Eu sei. Mas ainda assim... espero ver uma mensagem dele. Não tem nada. Apenas uma notificação qualquer. Mesmo assim, sorrio. Porque lembro, lembro da madrugada, da conversa, das horas passando sem que nenhum dos dois percebesse. Lembro dele perguntando coisas sobre mim. Não como quem investiga. Não como quem tenta descobrir um segredo. Mas como alguém que realmente queria saber. E isso ainda parece estranho. Durante dois anos, imaginei como seria o dia em que ele finalmente respondesse minhas mensagens. Na minha cabeça, sempre pensei em algo grandioso. Uma conversa perfeita. Uma frase que mudaria tudo. Mas a verdade é que foi simples. Ele só perguntou se eu estava bem. E, de alguma forma... foi isso que mais mexeu comigo. Levanto da cama devagar. Meus olhos vão automaticamente para o espelho. Fico parada ali, me observando, sempre faço isso. Como se ainda estivesse tentando me acostumar com a menina que aparece ali. Com a menina que aprendeu a esconder uma parte de si antes mesmo de entender por que precisava esconder. Minha mão desliza pela minha perna. Um movimento automático. Uma lembrança constante. Eu não odeio aquela marca, nunca odiei. Minha mãe nunca deixou. Ela fazia questão de me lembrar de que meu corpo não era um defeito. De que eu não precisava sentir vergonha. Mas ele... ele fez parecer que era. Durante anos. Ele nunca precisou dizer uma palavra direta. Às vezes, as pessoas machucam muito mais pelo jeito que olham do que pelas palavras que falam. Lembro de uma das primeiras vezes em que percebi. Eu era pequena, escolhendo uma roupa para sair. Minha mãe sorria enquanto me ajudava. Eu estava feliz. Até ele entrar no quarto. Ele olhou para mim. Depois para ela. E disse: — Ela precisa tomar cuidado. Minha mãe franziu a testa. — Cuidado com o quê? E ele respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo: — Com a forma que o mundo vai enxergar ela. Lembro de não ter entendido na hora. Mas minha mãe entendeu. Ficou em silêncio. Depois me abraçou forte. Naquela noite, ela me disse: — Nunca deixe alguém transformar uma diferença sua em uma prisão. Nunca esqueci essas palavras. Mas também nunca esqueci o olhar dele. O olhar de quem via algo em mim que precisava ser escondido. Porque a imagem dele sempre importou mais do que a minha felicidade. Vou até a cozinha. A senhora que mora ao lado já está na porta, como sempre. Ela não bate. Nunca bate. Apenas entra. — Dormiu bem? Sorrio. — Dormi. Ela me olha por alguns segundos. Conhece meus silêncios. Conhece minhas mentiras. — Você está diferente hoje. Pego uma xícara. — Estou normal. Ela solta uma risada leve. — Você sempre foi péssima mentindo. Olho para ela. — Não estou mentindo. — Está sorrindo sozinha desde que acordou. Fico sem resposta. Ela se aproxima, com um olhar doce e certeiro. — Foi ele, não foi? Meu rosto esquenta de uma vez. — Não sei do que está falando. Ela sorri, sabendo exatamente. — Claro que sabe. Nego com a cabeça, mas não consigo esconder o sorriso. Ela percebe. E, pela primeira vez em muito tempo, não sinto vergonha de estar feliz. Só que essa felicidade também me assusta. Porque alegria na minha vida sempre pareceu algo temporário. Como se, no instante em que eu finalmente conseguisse tocá-la... alguém viesse e me tirasse de novo. Depois que ela vai embora, volto ao quarto. Pego o celular e abro nossa conversa. A última mensagem dele ainda está ali. Tão simples. E ao mesmo tempo tão suficiente para mudar todo o meu dia. Passo o dedo sobre a tela. Penso em mandar mensagem. Penso em esperar. Por tanto tempo eu só esperei... porque esperar não exige coragem. Mas eu passei dois anos juntando coragem para falar com ele. Talvez esteja na hora de parar de esperar. Escrevo. Apago. Escrevo de novo. Até que respiro fundo e envio. Eu: Bom dia. Demora alguns instantes. Parece uma eternidade. Até que a resposta aparece. Cairo: Bom dia. Fico parada, olhando aquelas duas palavras. Um sorriso pequeno e verdadeiro brota nos meus lábios. E é nesse momento que percebo a parte mais perigosa de tudo isso. Passei dois anos querendo que ele me enxergasse. Agora que ele está começando... eu tenho medo. Porque uma coisa é ele gostar da mulher que imagina que eu sou. Outra completamente diferente é ele aceitar a mulher que existe de verdade. A que carrega marcas. A que tem limitações. A que passou a vida ouvindo que precisava se esconder. Olho de novo para a tela e uma pergunta não sai da minha cabeça, será que ele ainda vai me olhar do mesmo jeito quando souber quem eu sou? Será que vai continuar vendo a mulher das mensagens... ou vai enxergar apenas aquilo que meu pai passou anos tentando fazer todos verem? Uma fraqueza. Respiro fundo. Minha mãe sempre dizia, algumas pessoas olham para uma cicatriz e enxergam uma história. Outras olham e só veem um defeito. Eu só espero... que o Cairo seja o primeiro.
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