Cairo Narrando
O garçom passou pela nossa mesa, recolheu os pratos e perguntou se queríamos mais alguma coisa. Nós dois recusamos. Depois que contei tudo, o clima da conversa já não era o mesmo. Peguei o celular do bolso, desbloqueei a tela e empurrei na direção do Grego.
— Lê.
Ele arqueou a sobrancelha, pegou o aparelho e começou a subir a conversa desde a primeira mensagem da madrugada. Não falei uma palavra enquanto ele lia. A expressão dele foi mudando aos poucos, primeiro curioso, depois confuso e por fim, completamente sério. Quando terminou, voltou a ler algumas partes, como se procurasse algum detalhe que tivesse passado despercebido. Só então colocou o celular sobre a mesa novamente.
— Caralho...
— Eu avisei que tu ia achar que eu tava maluco.
Ele negou com a cabeça.
— Não. Eu achei que tu tava exagerando. Agora eu acho que essa p***a é muito pior.
Cruzei os braços.
— Ela manda mensagem há dois anos.
— Eu sei.
— Nunca pediu dinheiro.
— Eu sei.
— Nunca pediu pra me encontrar.
— Também sei.
— Nunca ameaçou.
— Sei.
Ele passou a mão na barba e respirou fundo.
— Tu tentou descobrir quem ela é?
— Várias vezes.
— E?
— Nada.
— Rastrear os números?
— Nada.
— Ligação?
— Nada.
— Foto?
— Nunca pedi, nunca tinha respondido ela antes.
Grego ficou alguns segundos olhando para a mesa, organizando os pensamentos.
— Isso não tá certo, Cairo.
— Foi exatamente o que eu pensei.
Ele levantou os olhos para mim.
— Não... tu tá pensando errado.
Franzi a testa.
— Como assim?
— Tu tá tratando ela como uma maluca qualquer.
— E ela não é?
— Eu não sei.
Balancei a cabeça.
— Grego, a mulher cria um número novo toda vez que eu bloqueio. Isso é o quê?
Ele deu de ombros.
— Pode ser obsessão.
— Exatamente.
— Mas também pode ser estratégia.
Fiquei em silêncio. Ele continuou.
— Tu é o chefe da Rocinha. Tu acha mesmo que alguém precisaria chegar aqui dando tiro pra tentar te derrubar?
Não respondi.
— Informação mata muito mais do que bala.
Aquilo me fez recostar na cadeira.
— Tá dizendo que pode ser polícia?
— Pode.
— Facção?
— Pode.
— Algum inimigo?
— Também pode.
Ele apontou para o meu celular.
— O problema é que tu não sabe.
Passei a mão na nuca.
— Eu bloqueei porque já tava de saco cheio.
— E eu teria feito a mesma coisa... se tu fosse um cara comum.
Ele fez uma pausa antes de continuar, com olhar firme.
— Mas tu não é.
O silêncio caiu entre nós por alguns segundos. Grego pegou o copo de refrigerante, tomou o último gole e voltou a falar.
— Escuta o que eu vou te dizer. A partir de agora, para de bloquear.
Olhei para ele sem entender.
— Dá corda.
— Tá maluco?
— Não.
Ele respondeu com tanta convicção que até estranhei.
— Faz ela acreditar que tá conquistando tua confiança. Conversa. Pergunta. Faz ela falar mais do que deveria.
— E se ela realmente for uma psicopata?
— Melhor ainda.
Franzi a testa.
— Como assim "melhor ainda"?
— Porque psicopata também erra.
Ele se inclinou sobre a mesa.
— Todo mundo erra, Cairo. Uma hora ela vai esquecer de esconder alguma coisa. Vai citar um lugar, uma pessoa, um costume, um horário... qualquer detalhe. E é desse detalhe que tu precisa.
Fiquei olhando para ele. Pela primeira vez desde que aquela história começou, alguém não estava dizendo para eu ignorar. Estava dizendo para eu entrar no jogo.
Paguei a conta, saímos do restaurante e caminhamos lado a lado até o carro. O movimento da rua seguia normal, mas minha cabeça estava longe dali. Antes de entrar, Grego bateu a porta do carro e me chamou.
— Cairo.
Olhei para trás.
— Se essa mulher só for apaixonada... tu vai descobrir.
Assenti.
— Agora, se ela não for...
Ele deixou a frase morrer por alguns segundos.
— Tu pode tá conversando com a única pessoa que sabe exatamente como te matar.
Não respondi. Entrei no carro, liguei o motor e fiquei alguns instantes olhando para o celular sobre o banco do passageiro.
Pela primeira vez em dois anos... a ideia de responder aquela desconhecida não parecia mais só curiosidade. Parecia necessidade.