Capítulo 2 — A Primeira Noite

1004 Words
O quarto era grande demais. Grande demais para alguém que passou a vida inteira tentando ocupar o menor espaço possível. As paredes escuras, os móveis de madeira pesada e a cama imensa no centro não transmitiam descanso. Transmitiam julgamento. Giulia parou logo após cruzar a porta. O som da fechadura sendo girada atrás dela ecoou alto demais. Ela não precisava olhar para saber que não estava sozinha. — Entre — disse uma voz masculina, firme. Ela deu alguns passos, sentindo as pernas rígidas. O vestido branco parecia deslocado naquele ambiente sombrio, quase ofensivo. Matteo estava encostado na parede, os braços cruzados, o olhar duro, impaciente. Lorenzo permanecia próximo à janela, observando a noite como se nada naquele quarto fosse digno de atenção — inclusive ela. Idênticos no rosto. Assustadoramente diferentes na presença. — Sente-se — ordenou Matteo. Giulia obedeceu, sentando-se à beira da cama. Manteve as mãos juntas no colo, os olhos baixos. Velhos hábitos não desapareciam de uma hora para outra. O silêncio se estendeu. Era pesado. Avaliador. Ela sentia os olhares sobre si como peso físico. — Você sabe por que está aqui? — perguntou Lorenzo, sem se virar. — Porque… fui dada em casamento — respondeu Giulia, a voz quase um sussurro. — Não — ele disse, finalmente encarando-a. — Você está aqui porque a sua vida vale menos do que um cessar-fogo. As palavras atingiram fundo. Giulia sentiu o rosto esquentar, mas não desviou o olhar. — Eu não escolhi isso — disse, com esforço. Matteo soltou uma risada curta, sem humor. — Nenhum de nós escolheu. Ele se afastou da parede e caminhou pelo quarto, lento, calculado. Parou a poucos passos dela. — Qual de nós você acha que é seu marido? — perguntou. Giulia engoliu em seco. — Eu… não sei — respondeu, sincera. — Ninguém me disse. Matteo lançou um olhar rápido para Lorenzo. — Parece que esqueceram esse detalhe. — Ou não quiseram resolver — respondeu o irmão. Giulia sentiu o coração acelerar. — Isso… isso significa o quê? — perguntou. Matteo inclinou-se levemente para frente, apoiando as mãos nos joelhos, ficando na altura dos olhos dela. — Significa que você vai ficar aqui. — Com os dois? — a voz dela falhou. — Com os dois — confirmou Lorenzo, calmo demais. O mundo de Giulia pareceu inclinar. Ela não chorou. Não implorou. Não gritou. Apenas respirou fundo, tentando manter o controle. — O que vai acontecer agora? — perguntou. O silêncio voltou a se espalhar. — Nada — respondeu Lorenzo, por fim. Ela piscou, confusa. — Nada? — Hoje — ele corrigiu. — Nada hoje. Matteo endireitou-se. — Você vai dormir aqui — disse. — Nós também. O pânico subiu rápido. — Eu posso dormir no chão — disse Giulia, apressada. — Ou em outro quarto. Eu não— — Você dorme na cama — Matteo interrompeu. — Isso faz parte do acordo. — Mas— — Não haverá toque — Lorenzo completou. — Não hoje. A frase deveria tranquilizá-la. Não tranquilizou. Porque havia algo implícito ali. Um limite que estava sendo estabelecido… e que poderia ser quebrado a qualquer momento. Giulia levantou-se lentamente e foi até o lado da cama mais distante deles. Deitou-se com cuidado, virada para a parede, abraçando o próprio corpo como se isso pudesse protegê-la. Ouviu o som de roupas sendo retiradas. Não olhou. O colchão afundou do outro lado quando Lorenzo se deitou, mantendo distância. Matteo optou pela poltrona próxima à cama, mas Giulia sentia a presença dele como se estivesse ao lado. A luz foi apagada. O quarto mergulhou em sombras cortadas apenas pelo brilho distante da cidade. Giulia manteve os olhos abertos. Cada respiração parecia alta demais. Cada movimento, um risco. — Você não vai dormir — disse Matteo, no escuro. Não foi uma pergunta. — Não — ela respondeu. — Aqui ninguém dorme na primeira noite — ele continuou. — É quando aprendemos como as coisas funcionam. Giulia engoliu em seco. — Eu não quero causar problemas — disse. Lorenzo virou-se levemente na cama. — Problemas já existem — respondeu. — Você só está no centro deles. O silêncio voltou. Mas agora era diferente. Carregado. Giulia sentiu uma lágrima escorrer, silenciosa. Não fez som algum. — Não chore — disse Lorenzo, baixo. — Eles gostam disso na sua antiga casa. Aqui… não. Ela estremeceu. — Como sabe? — perguntou. — Porque seu corpo fala — respondeu ele. — E porque Matteo percebe coisas que prefere negar. Matteo não respondeu. O silêncio dele era mais assustador do que qualquer palavra. Giulia respirou fundo. — Eu não sou fraca — disse, mais para si mesma do que para eles. — Eu sei — respondeu Matteo, inesperadamente. — Fracos quebram. Você só dobra. As palavras a atingiram de forma estranha. Não eram gentis. Mas também não eram cruéis. O tempo passou devagar. Giulia perdeu a noção das horas. Em algum momento, o corpo começou a ceder ao cansaço, mas a mente continuava alerta. — Giulia — disse Lorenzo, quebrando o silêncio. Ela sentiu um arrepio ao ouvir o nome na voz dele. — Sim? — Você entende onde está? Ela hesitou. — Em um lugar onde não tenho escolha. — Errado — respondeu ele. — Você tem poucas escolhas. Isso é diferente. — Não parece — murmurou. Matteo se mexeu na poltrona. — Aprenda uma coisa — disse. — Aqui, quem não escolhe… é escolhido. Giulia fechou os olhos. Pela primeira vez, percebeu que sobreviver ali não dependeria apenas de obediência. Dependeria de entender aqueles dois homens. E isso era muito mais perigoso. Quando o amanhecer começou a clarear discretamente o quarto, Giulia ainda estava acordada. Nenhum toque aconteceu. Nenhuma palavra além do necessário. E ainda assim… Aquela foi a noite mais longa da vida dela. Porque não foi marcada pelo que aconteceu. Mas pelo que não aconteceu. E pelo que estava claramente por vir. Cliffhanger final: Giulia sobreviveu à primeira noite intacta. Mas entendeu que, a partir dali, não seria ignorada — seria observada, avaliada e disputada.
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