O quarto era grande demais.
Grande demais para alguém que passou a vida inteira tentando ocupar o menor espaço possível. As paredes escuras, os móveis de madeira pesada e a cama imensa no centro não transmitiam descanso. Transmitiam julgamento.
Giulia parou logo após cruzar a porta.
O som da fechadura sendo girada atrás dela ecoou alto demais.
Ela não precisava olhar para saber que não estava sozinha.
— Entre — disse uma voz masculina, firme.
Ela deu alguns passos, sentindo as pernas rígidas. O vestido branco parecia deslocado naquele ambiente sombrio, quase ofensivo.
Matteo estava encostado na parede, os braços cruzados, o olhar duro, impaciente. Lorenzo permanecia próximo à janela, observando a noite como se nada naquele quarto fosse digno de atenção — inclusive ela.
Idênticos no rosto.
Assustadoramente diferentes na presença.
— Sente-se — ordenou Matteo.
Giulia obedeceu, sentando-se à beira da cama. Manteve as mãos juntas no colo, os olhos baixos. Velhos hábitos não desapareciam de uma hora para outra.
O silêncio se estendeu.
Era pesado. Avaliador.
Ela sentia os olhares sobre si como peso físico.
— Você sabe por que está aqui? — perguntou Lorenzo, sem se virar.
— Porque… fui dada em casamento — respondeu Giulia, a voz quase um sussurro.
— Não — ele disse, finalmente encarando-a. — Você está aqui porque a sua vida vale menos do que um cessar-fogo.
As palavras atingiram fundo.
Giulia sentiu o rosto esquentar, mas não desviou o olhar.
— Eu não escolhi isso — disse, com esforço.
Matteo soltou uma risada curta, sem humor.
— Nenhum de nós escolheu.
Ele se afastou da parede e caminhou pelo quarto, lento, calculado. Parou a poucos passos dela.
— Qual de nós você acha que é seu marido? — perguntou.
Giulia engoliu em seco.
— Eu… não sei — respondeu, sincera. — Ninguém me disse.
Matteo lançou um olhar rápido para Lorenzo.
— Parece que esqueceram esse detalhe.
— Ou não quiseram resolver — respondeu o irmão.
Giulia sentiu o coração acelerar.
— Isso… isso significa o quê? — perguntou.
Matteo inclinou-se levemente para frente, apoiando as mãos nos joelhos, ficando na altura dos olhos dela.
— Significa que você vai ficar aqui.
— Com os dois? — a voz dela falhou.
— Com os dois — confirmou Lorenzo, calmo demais.
O mundo de Giulia pareceu inclinar.
Ela não chorou. Não implorou. Não gritou.
Apenas respirou fundo, tentando manter o controle.
— O que vai acontecer agora? — perguntou.
O silêncio voltou a se espalhar.
— Nada — respondeu Lorenzo, por fim.
Ela piscou, confusa.
— Nada?
— Hoje — ele corrigiu. — Nada hoje.
Matteo endireitou-se.
— Você vai dormir aqui — disse. — Nós também.
O pânico subiu rápido.
— Eu posso dormir no chão — disse Giulia, apressada. — Ou em outro quarto. Eu não—
— Você dorme na cama — Matteo interrompeu. — Isso faz parte do acordo.
— Mas—
— Não haverá toque — Lorenzo completou. — Não hoje.
A frase deveria tranquilizá-la.
Não tranquilizou.
Porque havia algo implícito ali. Um limite que estava sendo estabelecido… e que poderia ser quebrado a qualquer momento.
Giulia levantou-se lentamente e foi até o lado da cama mais distante deles. Deitou-se com cuidado, virada para a parede, abraçando o próprio corpo como se isso pudesse protegê-la.
Ouviu o som de roupas sendo retiradas. Não olhou.
O colchão afundou do outro lado quando Lorenzo se deitou, mantendo distância. Matteo optou pela poltrona próxima à cama, mas Giulia sentia a presença dele como se estivesse ao lado.
A luz foi apagada.
O quarto mergulhou em sombras cortadas apenas pelo brilho distante da cidade.
Giulia manteve os olhos abertos.
Cada respiração parecia alta demais.
Cada movimento, um risco.
— Você não vai dormir — disse Matteo, no escuro.
Não foi uma pergunta.
— Não — ela respondeu.
— Aqui ninguém dorme na primeira noite — ele continuou. — É quando aprendemos como as coisas funcionam.
Giulia engoliu em seco.
— Eu não quero causar problemas — disse.
Lorenzo virou-se levemente na cama.
— Problemas já existem — respondeu. — Você só está no centro deles.
O silêncio voltou.
Mas agora era diferente.
Carregado.
Giulia sentiu uma lágrima escorrer, silenciosa. Não fez som algum.
— Não chore — disse Lorenzo, baixo. — Eles gostam disso na sua antiga casa. Aqui… não.
Ela estremeceu.
— Como sabe? — perguntou.
— Porque seu corpo fala — respondeu ele. — E porque Matteo percebe coisas que prefere negar.
Matteo não respondeu.
O silêncio dele era mais assustador do que qualquer palavra.
Giulia respirou fundo.
— Eu não sou fraca — disse, mais para si mesma do que para eles.
— Eu sei — respondeu Matteo, inesperadamente. — Fracos quebram. Você só dobra.
As palavras a atingiram de forma estranha.
Não eram gentis.
Mas também não eram cruéis.
O tempo passou devagar.
Giulia perdeu a noção das horas. Em algum momento, o corpo começou a ceder ao cansaço, mas a mente continuava alerta.
— Giulia — disse Lorenzo, quebrando o silêncio.
Ela sentiu um arrepio ao ouvir o nome na voz dele.
— Sim?
— Você entende onde está?
Ela hesitou.
— Em um lugar onde não tenho escolha.
— Errado — respondeu ele. — Você tem poucas escolhas. Isso é diferente.
— Não parece — murmurou.
Matteo se mexeu na poltrona.
— Aprenda uma coisa — disse. — Aqui, quem não escolhe… é escolhido.
Giulia fechou os olhos.
Pela primeira vez, percebeu que sobreviver ali não dependeria apenas de obediência.
Dependeria de entender aqueles dois homens.
E isso era muito mais perigoso.
Quando o amanhecer começou a clarear discretamente o quarto, Giulia ainda estava acordada.
Nenhum toque aconteceu.
Nenhuma palavra além do necessário.
E ainda assim…
Aquela foi a noite mais longa da vida dela.
Porque não foi marcada pelo que aconteceu.
Mas pelo que não aconteceu.
E pelo que estava claramente por vir.
Cliffhanger final:
Giulia sobreviveu à primeira noite intacta.
Mas entendeu que, a partir dali, não seria ignorada — seria observada, avaliada e disputada.