Giulia acordou antes do amanhecer.
Não foi o corpo que despertou primeiro, mas a mente — alerta, inquieta, como se algo estivesse errado. O quarto ainda estava mergulhado em penumbra, e por um instante ela esqueceu onde estava. Então a lembrança veio inteira, pesada, e o peito apertou.
A cama era grande demais.
O silêncio… atento demais.
Ela permaneceu imóvel, respirando devagar, tentando identificar os sons ao redor. O leve ruído da respiração masculina vinha do outro lado do colchão. Lorenzo dormia de lado, distante, mas presente. Matteo não estava na poltrona.
Isso a fez abrir os olhos de vez.
O coração acelerou quando percebeu a silhueta dele perto da janela, imóvel, observando a cidade como se estivesse de guarda. O terno escuro já estava impecavelmente ajustado ao corpo. Ele não parecia alguém que havia passado a noite acordado. Parecia alguém que nunca dormia de verdade.
— Você acorda leve — disse Matteo, sem se virar.
Giulia se mexeu com cuidado, sentando-se na cama.
— Não consegui dormir — respondeu.
— Eu percebi — ele disse. — Você não se mexeu uma vez sequer.
Ela engoliu em seco.
— Não queria incomodar.
Matteo finalmente se virou. O olhar dele pousou nela com intensidade suficiente para fazê-la se sentir exposta, mesmo vestida.
— Você não incomoda — disse. — Você alerta.
A palavra ficou suspensa entre eles.
Antes que Giulia pudesse responder, Lorenzo se moveu na cama e sentou-se, passando a mão pelos cabelos escuros. O olhar dele foi direto para Matteo.
— Não comece — disse, em tom baixo.
— Eu não comecei nada — Matteo respondeu. — Só estou observando.
Giulia sentiu o desconforto crescer.
— Eu posso sair — disse, tentando aliviar a tensão.
Os dois falaram ao mesmo tempo:
— Não.
Ela congelou.
Lorenzo foi o primeiro a se recompor.
— Ainda não — corrigiu. — Vamos estabelecer algumas coisas antes.
Giulia assentiu, sentindo o estômago apertar.
Eles se levantaram, e ela acompanhou os dois até a pequena sala anexa ao quarto. Sentaram-se — Matteo de pé, Lorenzo apoiado na mesa.
— Você vive aqui agora — começou Lorenzo. — E isso exige regras.
A palavra fez algo se fechar dentro dela.
— Regras… — repetiu, com cuidado.
— Sim — confirmou Matteo. — Para sua segurança.
Giulia respirou fundo.
— Eu já vivi sob regras a vida inteira.
O olhar de Lorenzo se intensificou.
— Aqui será diferente.
— Em quê? — ela perguntou.
Matteo respondeu:
— Aqui, ninguém encosta em você para machucar.
O coração dela deu um salto involuntário.
— Ninguém — repetiu ele. — Sem exceções.
Giulia engoliu em seco.
— Incluindo… vocês? — perguntou.
Matteo arqueou levemente a sobrancelha.
— Especialmente nós.
Lorenzo continuou:
— Você não sai sozinha da mansão. Não fala com estranhos. Não se afasta dos corredores principais sem aviso.
— Aviso a quem? — ela perguntou.
— A um de nós — Matteo respondeu.
Ela sentiu o peso daquilo.
— E se eu quiser ficar sozinha?
Matteo se aproximou um passo.
— Então você escolhe um lugar onde possamos ver você.
Giulia baixou os olhos por um instante, tentando organizar os pensamentos.
— Isso não é liberdade — murmurou.
— Não — Lorenzo concordou. — É sobrevivência.
O café da manhã foi servido em uma mesa longa demais para três pessoas.
Giulia se sentou instintivamente na ponta.
— Aqui — disse Matteo, puxando a cadeira ao lado dele.
Ela hesitou.
— Entre nós — completou Lorenzo, do outro lado.
O coração dela bateu forte, mas obedeceu.
Sentar-se entre os dois foi estranho. Não havia toque. Nenhum. Mas a presença era esmagadora. Como se estivesse no centro de algo que não compreendia totalmente.
— Você come pouco — observou Lorenzo.
— Não sinto muita fome — respondeu.
Matteo colocou mais comida no prato dela sem pedir permissão.
— Come — disse.
Ela obedeceu, sentindo o rosto esquentar.
— Seu pai — Lorenzo começou, de repente — costumava levantar a mão para você?
Giulia engasgou.
— Não precisa responder se não quiser — completou ele, rapidamente.
Ela respirou fundo.
— Às vezes — murmurou.
O silêncio caiu pesado.
— E sua irmã? — perguntou Matteo, com a voz perigosamente baixa.
Giulia apertou os dedos ao redor do talher.
— Sempre.
A mão de Matteo fechou lentamente sobre a mesa. A madeira estalou sob a pressão.
— Isso acabou — ele disse.
Ela levantou o olhar.
— Aqui, ninguém encosta em você para diminuir — completou Lorenzo. — Se alguém tentar… não terá uma segunda chance.
Giulia sentiu algo estranho apertar o peito.
Não era alívio.
Era confusão.
O resto do dia passou devagar.
Giulia foi apresentada à mansão: corredores, jardins internos, salas silenciosas demais. Homens armados a observavam com respeito imediato. Alguns desviavam o olhar. Outros baixavam a cabeça discretamente.
— Eles sabem — explicou Lorenzo, percebendo. — Sabem que você é nossa responsabilidade.
A palavra a incomodou.
— Isso muda alguma coisa? — ela perguntou.
— Tudo — respondeu Matteo. — Significa que você é intocável.
Ela caminhou pelo jardim sentindo o vento no rosto, mas não conseguiu relaxar. Sempre havia alguém por perto. Não colado. Apenas… presente.
À noite, quando voltou ao quarto, encontrou algo diferente.
Sobre a cama, repousava uma corrente fina de ouro, delicada, simples, mas impossível de ignorar.
— O que é isso? — perguntou.
Matteo se aproximou.
— Um símbolo.
— De quê? — ela insistiu.
— De posse — respondeu, direto.
O coração dela acelerou.
— Eu não pedi isso.
— Eu sei — disse Lorenzo. — Não precisa usar.
Giulia tocou a corrente com cuidado.
— Então por que está aqui?
Matteo sustentou o olhar dela.
— Porque, se usar, todos saberão que você já tem p******o.
A palavra ecoou dentro dela.
— E se eu não usar? — perguntou.
— Então só nós saberemos — respondeu ele.
Giulia fechou os dedos em torno da corrente.
Não colocou.
Mas também não devolveu.
Naquela noite, deitada na cama, percebeu algo perturbador.
Ela ainda não havia sido tocada.
Não havia sido beijada.
Não havia sido marcada fisicamente.
E ainda assim…
Algo nela já havia mudado.
Uma marca invisível.
Não no corpo.
Mas na forma como todos a olhavam.
E, principalmente, na forma como eles a viam.
Cliffhanger final:
Giulia ainda não era deles no corpo.
Mas naquela casa, todos já sabiam: ela estava marcada.