Capítulo 1 — O Acordo de Sangue

1013 Words
A mansão sempre foi silenciosa demais. Não um silêncio tranquilo, mas um silêncio que pressionava os ouvidos, que pesava no peito e obrigava quem vivia ali a aprender a andar devagar, respirar baixo e existir o mínimo possível. Para Giulia, aquele lugar nunca foi um lar. Era apenas o cenário onde aprendeu, cedo demais, que não tinha valor. Ela caminhava pelo corredor com passos contidos, os dedos entrelaçados à frente do corpo, o olhar fixo no chão de mármore. Cada detalhe daquela casa gritava poder — quadros caros, lustres imponentes, móveis antigos — e, ainda assim, nada ali era feito para acolher. A porta do escritório estava aberta. O coração de Giulia acelerou. Aquele detalhe simples já era um aviso. Quando o pai queria manter o controle, fechava portas. Quando queria impor algo definitivo, deixava tudo escancarado, como se dissesse que ela não tinha para onde fugir. — Entre — ordenou ele, sem sequer olhar. Giulia obedeceu. O pai estava sentado atrás da grande mesa de madeira escura, um copo de bebida na mão, a expressão dura, impaciente. O cheiro forte de álcool misturava-se ao do couro das poltronas. Ela sentou-se quando ele apontou a cadeira. O silêncio se estendeu por segundos longos demais. — A guerra acabou — ele disse, por fim. Giulia sentiu o estômago se contrair. Naquele mundo, guerras nunca eram anunciadas oficialmente. Apenas aconteciam. E sempre custavam vidas. — Chegamos a um acordo com os Moretti — continuou ele, em tom neutro. O nome caiu como uma lâmina. Giulia engoliu em seco. — Os gêmeos…? — murmurou, antes de conseguir se conter. O pai ergueu o olhar lentamente. — Matteo e Lorenzo Moretti — confirmou. — Os homens mais temidos da máfia italiana. O coração dela começou a bater rápido demais. Todos sabiam quem eram os gêmeos Moretti. Idênticos no rosto, criados para serem armas. Um deles conhecido por m***r sem hesitar. O outro por planejar cada movimento com precisão assustadora. — Para encerrar o conflito — continuou o pai —, um casamento foi exigido. Giulia sentiu o ar faltar. — Você será a noiva. As palavras ecoaram na mente dela, vazias e cruéis. — Amanhã — completou ele. — Você será entregue à família Moretti. Entregue. Não escolhida. Não consultada. Não respeitada. Giulia manteve o rosto neutro, mas por dentro tudo desmoronava. Ela sempre soubera que não teria um futuro comum. Crescera sendo ignorada, punida, diminuída. A irmã transformara sua dor em diversão. O pai nunca escondera que a via como um fardo. Ainda assim… aquilo parecia pior do que qualquer coisa que já tivesse imaginado. — Eu… — tentou dizer algo, mas a voz falhou. — Não discuta — ele interrompeu. — Isso não é um pedido. Uma risada suave ecoou da porta. Giulia não precisou olhar para saber quem era. — Que honra — disse a irmã, encostada no batente, com um sorriso c***l. — Ser esposa dos Moretti. Ouvi dizer que eles não gostam de mulheres fracas. Giulia fechou os olhos por um segundo. — Talvez ela nem dure muito — continuou a irmã. — Resolve o problema de vez. O pai não repreendeu. Nunca repreendia. — Pode se retirar — disse ele a Giulia. — Prepare-se. Ela se levantou em silêncio, sentindo o corpo inteiro pesado. Caminhou até a porta sem olhar para trás. Aprendera que qualquer reação só tornava tudo pior. No quarto, sentou-se na cama e ficou ali, imóvel. Não chorou. Chorar não mudaria nada. Ela sabia. Do outro lado da cidade, a chuva caía forte sobre a mansão Moretti. O vidro blindado da janela refletia a cidade distorcida pelas gotas de água. Matteo Moretti observava em silêncio, os braços cruzados, o maxilar travado. — Eu não vou fazer isso — disse, finalmente. A voz era baixa, carregada de raiva contida. — Não vou fingir que isso é um casamento. Não vou tocá-la. Não vou sequer olhar para ela. Lorenzo Moretti, encostado à janela oposta, permaneceu calmo. — É apenas um acordo — respondeu. — Pessoas não são contratos. — Na nossa família, são. Matteo se virou bruscamente. — Não desta vez. Antes que Lorenzo respondesse, a porta se abriu. O pai deles entrou sem pedir permissão, como sempre fizera. — Amanhã a noiva chega — disse, direto. — A guerra termina. — Ela será esposa de quem? — Matteo perguntou, tenso. O velho sorriu de forma perigosa. — Isso não importa. Lorenzo franziu levemente o cenho. — Importa sim. — Para vocês, talvez — respondeu o pai. — Para o mundo, vocês são um só. Silêncio. — Não falhem comigo — concluiu ele, antes de sair. Quando a porta se fechou, Matteo soltou uma risada curta e amarga. — Ele não especificou. — Ele nunca especifica — Lorenzo respondeu. — Faz parte do jogo. — Jogos costumam ter consequências. Lorenzo não respondeu. Nenhum dos dois percebeu — ou quis perceber — o erro naquele acordo. Giulia chegou à mansão Moretti no início da noite. Vestida de branco. Como se estivesse indo para um altar… ou para um funeral. Os portões se abriram lentamente. Homens armados observavam em silêncio. Ninguém sorriu. Ninguém falou. Ela foi conduzida para dentro como se fosse parte do mobiliário. Quando entrou no salão principal, sentiu o impacto. Dois homens estavam à sua frente. Idênticos. Mesmo rosto. Mesma altura. Mesma presença intimidadora. O coração de Giulia disparou. Ela não sabia qual deles olhar. — Bem-vinda — disse um deles, em tom frio. — Qual… — a voz dela falhou. Respirou fundo. — Qual de vocês é meu marido? O silêncio se estendeu. Os dois trocaram um olhar rápido. Então um deles respondeu, baixo demais para ser gentil: — Parece que você é nossa. O mundo de Giulia girou. Naquele instante, ela entendeu. Não havia sido entregue a um monstro. Mas a dois. E nenhum deles parecia disposto a abrir mão. Cliffhanger final: Giulia acreditava que o casamento seria sua sentença final. Mas ainda não sabia que o erro naquele acordo mudaria todas as regras — e despertaria uma disputa que poderia destruí-los a todos.
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