Laura narrando.
Resmungo pelo som irritante do celular e xingo quando ele não para de tocar. Me estico para pegar e atendo a ligação sem nem ver quem é.
Ligação On:
— Fala! — ninguém responde nada e eu tiro o celular do ouvido, conferindo se realmente foi uma ligação ou se foi um pesadelo.
Para provar minha sanidade mental, vejo o número desconhecido que atendi.
— Dá para falar logo? Que falta de educação ligar para alguém às... — afasto o celular, vendo que são duas horas e meia — quase
três horas da manhã e incomodando os outros.
Escuto uma risada abafada e apenas me irrito mais.
— É trote? — só escuto ruídos na linha, como se mexessem com o celular.
— É golpe? Porque eu não tenho dinheiro, só tenho dívidas, na verdade. Então, boa noite.
Espero que falem algo, mas como não proferem uma palavra sequer, desligo, jogo o celular na cama e me deito novamente. Me
aconchego no travesseiro, me viro tentando achar uma posição confortável, mas parece impossível. Tiro o cobertor achando que está
me incomodando e finalmente suspiro, relaxada.
[...]
Pego meu guarda-chuva, saindo com dificuldade do carro. Tento não me molhar, mas falho na missão. Corro abraçando minha bolsa
em direção à entrada do hospital. Os seguranças sorriem para mim assim que entro no saguão, e a recepcionista ri.
— O que foi? — pergunto, e o segurança passa a mão na careca, me olhando. Com dúvida, mexo no meu cabelo e arregalo os olhos ao ver um pedaço de folha molhada.
— Tem mais, Laura — a recepcionista diz sorridente, e sacudo a cabeça, vendo cair mais. Como isso foi parar no meu cabelo se eu estava de guarda-chuva?
— Obrigada, gente — agradeço e eles assentem com a cabeça.
Sacudo meu guarda-chuva, deixando-o na grande lata com outros, e ando para meu armário. Guardo minha bolsa e prendo meu
cabelo, seguindo finalmente para o elevador.
— Seu jaleco, doutora Every — vejo o residente Steve me seguir e agradeço, pegando o jaleco. — Acho que decidi continuar na
pediatria.
— Será um prazer ter você na equipe — digo e ele sorri animado enquanto ajeita seus óculos.
O elevador abre antes do nosso andar, mas não presto atenção, olhando as horas no celular.
— Laura — paraliso, demorando a levantar meu olhar e engulo em seco quando as portas se fecham. Ele se aproxima de mim, recostando-se na parede metálica e sinto seu olhar.
— Oi... Andrew — ergo a cabeça com dificuldade e solto um suspiro involuntário quando olho para seu rosto bonito. Realmente não
dá, é muita perfeição para ser verdade. Deve haver algo muito estranho com ele.
— Que surpresa te encontrar aqui — ele fala sorrindo e escuto o Steve suspirar, me fazendo rir mentalmente.
— Eu trabalho aqui, você sabia, não? — digo e ele assente com a cabeça, sem graça.
— Certo, eu vim aqui falar com o senhor Shepherd. Estou pensando em investir aqui.
— Bom negócio, senhor Andrew, até mais — falo, dando um sorriso educado e dando um passo para sair do elevador assim que as
portas se abrem.
— Steve!
O médico começa a andar ainda olhando o Andrew, de boca aberta e mais do que hipnotizado.
— Que gostoso, senhor, e você o tratando m*l assim — ele fala, cruzando os braços com os meus, e dou risada.
— Pode pegar para você. Alguém não pode ser tão perfeito assim, ele tem algum defeito.
— Só se for no pé, porque o restante... — ele deixa no ar e eu o empurro com o ombro, rindo.
— Bom dia, vejo que estão animados — me viro para o chefe, dando um sorriso sem graça e o Steve o olha de cima a baixo.
— Bom dia, senhor bonitão, digo, senhor Derek. — O Steve erra as palavras e o jogo para trás de mim disfarçadamente.
— Bom dia, chefe. Encontramos o senhor Andrew no elevador. Ele estava indo para sua sala.
— Ah, muito obrigada, Laura. Melhor eu ir logo, não é mesmo? Tenham um bom dia, e Steve...
— Sim — ele fala sorrindo, e meu chefe n**a com a cabeça, sorrindo.
— Eu sou casado, tenha modos.
— Desculpa — o chefe sai apressado e olho para o Steve, rindo, enquanto ele passa a mão no rosto. — E agora, onde eu me enterro?
— Na minha sala, vamos, que temos consultas planejadas.
[...]
Entrego os prontuários na recepção do meu andar, alongo os ombros doloridos e solto o cabelo, sentindo um pequeno alívio imediato. Caminho até o refeitório praticamente arrastando os pés. Estou morrendo de fome. Daquelas fomes que deixam a gente mau-humorada e impulsiva.
Pego uma bandeja, me sirvo com um lanche rápido e uma boa porção de salada — só para fingir equilíbrio —, acrescento um pudim e uma caixinha de suco. Vou para uma mesa vazia no canto, longe da circulação principal, e começo a comer com uma felicidade quase infantil. Por alguns minutos, o mundo se resume a comida, silêncio e descanso.
Mas a paz dura pouco.
Quando estou prestes a atacar a sobremesa, reviro os olhos com força ao ver Andrew e meu chefe entrando juntos no refeitório.
Ótimo. Justo agora.
Andrew varre o ambiente com o olhar, atento demais, como se estivesse analisando tudo. Meu estômago se revira — e não é culpa do pudim. Pego o celular às pressas e finjo total desinteresse, encarando a tela como se minha vida dependesse disso. Vai que eles me notam.
— LAURA!
Fecho os olhos por um segundo e dou um chutinho discreto no chão, tomada pela raiva. Levanto o olhar e forço um sorriso
profissional enquanto meu chefe acena, rindo, já vindo em minha direção com seu “amiguinho” a tiracolo.
Me levanto rapidamente, pegando a bandeja quase vazia — resta apenas o suquinho.
— Oi, senhor. Podem ficar com a mesa, eu já terminei — digo, educada demais.
O rosto de Andrew muda num piscar de olhos. De expressão satisfeita… para algo bem menos amigável.
— Tudo bem — meu chefe responde. — Eu gostaria de participar do tour. Estou mostrando toda a área para o senhor Russo. Já
vimos a ala cirúrgica com minha esposa e agora podemos ver o restante com você?
— Eu adoraria, mas tenho pacientes em cinco minutos — respondo sem hesitar. — Realmente preciso ir.
Ele assente, exibindo aquele sorriso perfeito de propaganda institucional.
— Posso te acompanhar nesse trajeto? — Andrew pergunta.
Abro a boca para negar, mas ele se adianta e pega a bandeja da minha mão.
— Podem ir — diz meu chefe, descaradamente. — Vou comer uma sobremesa e encontro vocês depois.
Sigo andando antes que eu perca a paciência.
— O que você está fazendo? — pergunto, já irritada.
Andrew me olha como se eu tivesse feito uma pergunta sem sentido.
— Andando?
Ignoro o elevador e sigo direto para a escada, acelerando o passo.
— Laura, me espera!
Paro bruscamente em frente à minha saída, me viro e cruzo os braços, deixando claro que não vou continuar andando daquele jeito.
— Olha só, senhor Russo… — respiro fundo. — Eu até achei você bonito. Muito atraente, inclusive, mas…
— Precisa de mais? — ele interrompe, sorrindo e cruzando os braços, me imitando.
— Sim. Preciso que se afaste de mim — digo, firme.
A expressão dele muda completamente. A boca se abre, os olhos se arregalam, genuinamente chocado.
— O quê? Laura, você não pode fazer isso — ele fala, emburrado.
Coço a sobrancelha, desconfortável, mas decidida.
— Eu posso sim. Passe bem, senhor Russo.
— Espera — ele insiste. — Me diga o porquê. Um motivo real.
— Eu entendi suas intenções. As reais… — respondo, já me afastando.
Não é exatamente isso, mas não posso dizer a verdade. Não posso falar que foi o comportamento infantil, a insistência, a sensação de
estar sendo cercada. Ele surtaria.
De qualquer forma, é melhor assim.