Melhor assim

1339 Words
Laura narrando. Resmungo pelo som irritante do celular e xingo quando ele não para de tocar. Me estico para pegar e atendo a ligação sem nem ver quem é. Ligação On: — Fala! — ninguém responde nada e eu tiro o celular do ouvido, conferindo se realmente foi uma ligação ou se foi um pesadelo. Para provar minha sanidade mental, vejo o número desconhecido que atendi. — Dá para falar logo? Que falta de educação ligar para alguém às... — afasto o celular, vendo que são duas horas e meia — quase três horas da manhã e incomodando os outros. Escuto uma risada abafada e apenas me irrito mais. — É trote? — só escuto ruídos na linha, como se mexessem com o celular. — É golpe? Porque eu não tenho dinheiro, só tenho dívidas, na verdade. Então, boa noite. Espero que falem algo, mas como não proferem uma palavra sequer, desligo, jogo o celular na cama e me deito novamente. Me aconchego no travesseiro, me viro tentando achar uma posição confortável, mas parece impossível. Tiro o cobertor achando que está me incomodando e finalmente suspiro, relaxada. [...] Pego meu guarda-chuva, saindo com dificuldade do carro. Tento não me molhar, mas falho na missão. Corro abraçando minha bolsa em direção à entrada do hospital. Os seguranças sorriem para mim assim que entro no saguão, e a recepcionista ri. — O que foi? — pergunto, e o segurança passa a mão na careca, me olhando. Com dúvida, mexo no meu cabelo e arregalo os olhos ao ver um pedaço de folha molhada. — Tem mais, Laura — a recepcionista diz sorridente, e sacudo a cabeça, vendo cair mais. Como isso foi parar no meu cabelo se eu estava de guarda-chuva? — Obrigada, gente — agradeço e eles assentem com a cabeça. Sacudo meu guarda-chuva, deixando-o na grande lata com outros, e ando para meu armário. Guardo minha bolsa e prendo meu cabelo, seguindo finalmente para o elevador. — Seu jaleco, doutora Every — vejo o residente Steve me seguir e agradeço, pegando o jaleco. — Acho que decidi continuar na pediatria. — Será um prazer ter você na equipe — digo e ele sorri animado enquanto ajeita seus óculos. O elevador abre antes do nosso andar, mas não presto atenção, olhando as horas no celular. — Laura — paraliso, demorando a levantar meu olhar e engulo em seco quando as portas se fecham. Ele se aproxima de mim, recostando-se na parede metálica e sinto seu olhar. — Oi... Andrew — ergo a cabeça com dificuldade e solto um suspiro involuntário quando olho para seu rosto bonito. Realmente não dá, é muita perfeição para ser verdade. Deve haver algo muito estranho com ele. — Que surpresa te encontrar aqui — ele fala sorrindo e escuto o Steve suspirar, me fazendo rir mentalmente. — Eu trabalho aqui, você sabia, não? — digo e ele assente com a cabeça, sem graça. — Certo, eu vim aqui falar com o senhor Shepherd. Estou pensando em investir aqui. — Bom negócio, senhor Andrew, até mais — falo, dando um sorriso educado e dando um passo para sair do elevador assim que as portas se abrem. — Steve! O médico começa a andar ainda olhando o Andrew, de boca aberta e mais do que hipnotizado. — Que gostoso, senhor, e você o tratando m*l assim — ele fala, cruzando os braços com os meus, e dou risada. — Pode pegar para você. Alguém não pode ser tão perfeito assim, ele tem algum defeito. — Só se for no pé, porque o restante... — ele deixa no ar e eu o empurro com o ombro, rindo. — Bom dia, vejo que estão animados — me viro para o chefe, dando um sorriso sem graça e o Steve o olha de cima a baixo. — Bom dia, senhor bonitão, digo, senhor Derek. — O Steve erra as palavras e o jogo para trás de mim disfarçadamente. — Bom dia, chefe. Encontramos o senhor Andrew no elevador. Ele estava indo para sua sala. — Ah, muito obrigada, Laura. Melhor eu ir logo, não é mesmo? Tenham um bom dia, e Steve... — Sim — ele fala sorrindo, e meu chefe n**a com a cabeça, sorrindo. — Eu sou casado, tenha modos. — Desculpa — o chefe sai apressado e olho para o Steve, rindo, enquanto ele passa a mão no rosto. — E agora, onde eu me enterro? — Na minha sala, vamos, que temos consultas planejadas. [...] Entrego os prontuários na recepção do meu andar, alongo os ombros doloridos e solto o cabelo, sentindo um pequeno alívio imediato. Caminho até o refeitório praticamente arrastando os pés. Estou morrendo de fome. Daquelas fomes que deixam a gente mau-humorada e impulsiva. Pego uma bandeja, me sirvo com um lanche rápido e uma boa porção de salada — só para fingir equilíbrio —, acrescento um pudim e uma caixinha de suco. Vou para uma mesa vazia no canto, longe da circulação principal, e começo a comer com uma felicidade quase infantil. Por alguns minutos, o mundo se resume a comida, silêncio e descanso. Mas a paz dura pouco. Quando estou prestes a atacar a sobremesa, reviro os olhos com força ao ver Andrew e meu chefe entrando juntos no refeitório. Ótimo. Justo agora. Andrew varre o ambiente com o olhar, atento demais, como se estivesse analisando tudo. Meu estômago se revira — e não é culpa do pudim. Pego o celular às pressas e finjo total desinteresse, encarando a tela como se minha vida dependesse disso. Vai que eles me notam. — LAURA! Fecho os olhos por um segundo e dou um chutinho discreto no chão, tomada pela raiva. Levanto o olhar e forço um sorriso profissional enquanto meu chefe acena, rindo, já vindo em minha direção com seu “amiguinho” a tiracolo. Me levanto rapidamente, pegando a bandeja quase vazia — resta apenas o suquinho. — Oi, senhor. Podem ficar com a mesa, eu já terminei — digo, educada demais. O rosto de Andrew muda num piscar de olhos. De expressão satisfeita… para algo bem menos amigável. — Tudo bem — meu chefe responde. — Eu gostaria de participar do tour. Estou mostrando toda a área para o senhor Russo. Já vimos a ala cirúrgica com minha esposa e agora podemos ver o restante com você? — Eu adoraria, mas tenho pacientes em cinco minutos — respondo sem hesitar. — Realmente preciso ir. Ele assente, exibindo aquele sorriso perfeito de propaganda institucional. — Posso te acompanhar nesse trajeto? — Andrew pergunta. Abro a boca para negar, mas ele se adianta e pega a bandeja da minha mão. — Podem ir — diz meu chefe, descaradamente. — Vou comer uma sobremesa e encontro vocês depois. Sigo andando antes que eu perca a paciência. — O que você está fazendo? — pergunto, já irritada. Andrew me olha como se eu tivesse feito uma pergunta sem sentido. — Andando? Ignoro o elevador e sigo direto para a escada, acelerando o passo. — Laura, me espera! Paro bruscamente em frente à minha saída, me viro e cruzo os braços, deixando claro que não vou continuar andando daquele jeito. — Olha só, senhor Russo… — respiro fundo. — Eu até achei você bonito. Muito atraente, inclusive, mas… — Precisa de mais? — ele interrompe, sorrindo e cruzando os braços, me imitando. — Sim. Preciso que se afaste de mim — digo, firme. A expressão dele muda completamente. A boca se abre, os olhos se arregalam, genuinamente chocado. — O quê? Laura, você não pode fazer isso — ele fala, emburrado. Coço a sobrancelha, desconfortável, mas decidida. — Eu posso sim. Passe bem, senhor Russo. — Espera — ele insiste. — Me diga o porquê. Um motivo real. — Eu entendi suas intenções. As reais… — respondo, já me afastando. Não é exatamente isso, mas não posso dizer a verdade. Não posso falar que foi o comportamento infantil, a insistência, a sensação de estar sendo cercada. Ele surtaria. De qualquer forma, é melhor assim.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD