Alguns dias depois…
Laura narrando.
Saio do hospital e, mais uma vez, me sinto vigiada. Nesta semana, todos os momentos que saí parecia que eu tinha uma segunda sombra. Me sinto observada o tempo todo quando estou fora de casa, acho que estou ficando louca, sinceramente.
Entro no meu carro, ligo o motor, e dou um grito quando batem no meu vidro.
— Sou eu! — meu chefe grita, sorrindo, e faz sinais para eu abaixar o vidro. — Laura, você pode atender um último caso? É coisa rápida, mas é a filha de alguém importante. Desculpa, mas não tem outro pediatra até daqui a uma hora.
— Claro, se for rápido, eu posso — falo, pegando minha bolsa e saindo do carro.
— Muito obrigado! Estou tentando fazer com que esse homem invista no hospital há um tempo, e se provarmos que temos um bom
atendimento, talvez ele tope uma reunião.
— Ok, senhor Shepherd — digo simplesmente, cruzando os braços por causa do frio.
Pego meu jaleco na bolsa grande e começo a caminhar em direção ao vestiário, mas ele me interrompe:
— Deixa que eu guardo para ir mais rápido. Corre para a área de chegada, eles ainda estão lá — ele fala, e eu assinto, apressando o
passo.
Chegando na recepção, sorrio levemente para a atendente, que já me entrega a ficha. Antes de eu olhar, sinto braços pequenos
abraçando minha cintura, me assustando.
— Oi, doutora — diz uma vozinha, e eu reconheço a linda garotinha do desfile.
— Oi, meu amor. O que aconteceu para estar aqui? — pergunto para ela, dando um pulinho ao sentir uma respiração no meu
pescoço.
— Oi, Laura — escuto uma voz rouca e baixa às minhas costas.
Meu corpo reage antes mesmo de eu conseguir pensar. Me viro rápido demais e acabo batendo direto contra o peito dele, sólido e
quente, fazendo minha respiração falhar por um segundo. O perfume discreto me envolve, e meu coração dispara de um jeito
absurdo, quase dolorido.
Dou um passo meio trêmulo para trás, tentando recuperar o equilíbrio — e a compostura. Tomo coragem e levanto o olhar devagar
até encontrar os olhos dele. Andrew me observa com atenção, como se estivesse lendo cada reação minha, e então sorri de lado,
daquele jeito calmo e perigosamente confiante.
Ele segura minha mão com naturalidade, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo, e a leva até os lábios, depositando um
beijo breve, porém carregado de intenção.
— Um prazer revê-la, Laura.
— Oi… — respondo, com a voz mais falha do que eu gostaria. Limpo a garganta, tentando disfarçar o efeito que ele tem sobre mim,
e desvio o olhar rapidamente.
Volto minha atenção para a pequena, intercalando meus olhares entre os dois, buscando um ponto de apoio.
— O que aconteceu?
— A Olivia caiu da cama enquanto pulava — ele explica, em um tom tranquilo demais para a situação.
— Minha nossa! — exclamo, sentindo um aperto imediato no peito. — Venham para a minha sala, vou examiná-la.
Ele pega a filha no colo com cuidado e me segue pelo corredor. Abro a porta da sala, acendo a luz e aponto para a maca, indicando
que ele a coloque ali. Olivia obedece sem resistência, balançando as perninhas.
Pego um elástico no bolso do jaleco para prender o cabelo, tentando me concentrar no automático do trabalho. Mesmo assim, fico
sem graça ao perceber o olhar dele pousado em mim, atento demais, como se cada gesto fosse digno de nota.
Respiro fundo.
Pego o estetoscópio, lavo as mãos com calma e só então me aproximo novamente.
— Olivia, sua cabeça dói? — pergunto enquanto seco as mãos.
Ela balança a cabeça em negativa.
— E pra enxergar? Os olhinhos doem? Tá vendo tudo direitinho?
Ela n**a outra vez, com um sorriso tranquilo, como se estivesse ali apenas brincando.
Aproximo-me mais.
— Com licença, vou tocar sua cabeça, ok? Me avise se doer em algum lugar.
Apalpo com cuidado, observo as reações, faço os testes necessários. Em seguida, ausculto os pulmões e os batimentos com o
estetoscópio, concentrada, profissional, tentando ignorar a presença intensa ao meu lado. Guardo o instrumento e sorrio.
— Tudo normal.
— Sério? — ele pergunta, visivelmente aliviado.
— Sim, senhor — respondo.
Olivia segura minha mão, brincando com meus dedos, e isso me desmonta um pouco por dentro.
— Pode me chamar apenas de Andrew — ele diz, em um tom baixo.
Levanto o olhar e assinto, completamente capturada pelos olhos dele.
Meu Deus… como eu fico fraca perto dele.
Isso definitivamente não é normal.
Desperto para a realidade, ajudando a pequena a descer da maca, e ela ri das cócegas.
— Bem, se ela sentir alguma dor ou algo assim, pode dar isso aqui — escrevo a receita e assino antes de entregar. — Prontinho,
terminamos.
— Mas já? Não está sentindo mais nada, filha? — ele pergunta, com um tom levemente exagerado, e eu não consigo evitar a risada.
— Quer ficar mais tempo no hospital, senhor? — provoco, ainda rindo, e ele sorri de canto, negando com a cabeça como quem sabe
exatamente a resposta.
— Se ficarmos com você, o papai quer ficar sim — Olivia diz, com a naturalidade desarmante de quem fala apenas a verdade.
Sinto o rosto esquentar imediatamente. Não sei muito bem onde colocar as mãos nem para onde olhar.
— Bem… vamos? — digo, abrindo a porta para disfarçar o constrangimento.
Olivia pula animada, já se colocando à frente.
— Você vem também?
— Na verdade, eu vou pra casa jantar, sabe? — explico, com cuidado. — Boa noite pra vocês, até mais.
Eles passam pela porta, mas antes que eu consiga me afastar, a voz dele me alcança.
— Espere. Você não quer jantar com a gente?
— Como? — pergunto, sem ter certeza se ouvi direito.
Meu coração acelera de um jeito bobo. O que ele quer comigo? Um homem importante, bonito, seguro de si… que me deixa fraca e
desorientada só de falar comigo. Ele deve ter dezenas de mulheres orbitando ao redor dele. Eu definitivamente não faço parte desse
universo.
— Jantar em algum restaurante… — ele continua, parecendo medir cada palavra. — Desculpe, mas é que a Olivia gostou de você…
e eu… eu queria te conhecer melhor.
Assinto, surpresa demais para reagir rápido.
— Bem…
— Diz que sim, por favor — Olivia pede, juntando as mãos como se estivesse fazendo um desejo.
Andrew olha para ela com um orgulho silencioso, e isso me desmonta ainda mais.
— Desculpa — começo, respirando fundo —, mas eu estou realmente cansada. Trabalhei o dia todo. Quem sabe outro dia, né?
Ela faz um biquinho tão ensaiado que chega a doer.
— Por favor, por favor, por favor — insiste, pulando enquanto segura minha mão.
Dou risada, rendida.
— Que tal amanhã? Ou outro dia? — proponho, tentando equilibrar tudo. — Se não for atrapalhar… estarei de folga amanhã.
Podemos almoçar juntos. Que tal?
Assim a pequena não fica triste… e depois Andrew pode resolver isso como quiser.
— Perfeito — ele diz, sorrindo com uma naturalidade que me faz respirar aliviada. — Nós te acompanhamos até seu carro.
Ele já começa a andar, e Olivia me puxa pela mão. No caminho, cruzamos com meu chefe, e quando penso que vou me despedir ali,
o senhor Derek aparece apressado.
— Boa noite, senhorita Every e senhor Russo — diz, estendendo minha bolsa.
Mal consigo responder. Eles continuam andando, e eu apenas aceno, vendo Derek sorrir de um jeito estranho… quase emocionado.
Tá legal. O que está acontecendo com as pessoas hoje?
Chegamos ao carro. Destravo a porta e entro.
— Boa noite — digo.
Olivia beija meu rosto com carinho e se afasta para dar espaço ao pai.
— Boa noite, Laura — Andrew se inclina e beija meu rosto.
Fico completamente surpresa.
Ele fecha a porta com cuidado.
— Dirija com cuidado.
— Senhor… sobre amanhã… — sussurro, tentando não deixar Olivia ouvir.
— Apenas Andrew — ele corrige, com calma. — E sobre amanhã… eu saberei onde te encontrar. Esteja pronta ao meio-dia.
Ele se afasta antes que eu consiga responder. Olivia vai saltitando ao lado dele, como se o mundo inteiro estivesse em perfeita ordem.
Bato a testa de leve no volante, sentindo o coração disparado.
Em que enrascada eu me meti?
Parece que eu não penso direito perto deles dois. Fico confusa, vulnerável… como se, se ele me pedisse pra pular de uma ponte, eu pulasse sem questionar — só porque foi ele quem pediu.
Me ajeito no banco, coloco o cinto e dou partida. Mas, enquanto dirijo, tento racionalizar.
Talvez ele só tenha dito aquilo por causa da filha estar ali.
Claro. Faz todo sentido, Laura.
Ele nem sabe nada sobre mim. Como iria me encontrar? Onde?
Sou muito tonta, meu Deus.
E agora não sei o que é pior:
ficar triste por achar que ele não vai aparecer…
ou ficar feliz por perceber o quanto eu queria que aparecesse.