Andrew narrando.
Olho mais uma vez as horas no relógio, já sem paciência. Dou o último gole no meu whisky e, quando vou gritar mais uma vez, vejo ela descendo as escadas finalmente:
— Papai, eu estou muito linda, tira uma foto — ela diz, parando no fim da escada, e a governanta Esther sai de perto rindo.
— Obrigada, Esther — agradeço por arrumar minha filha.
— De nada, bom evento para vocês. Até mais, Oli — ela diz para minha filha, que acena como uma princesa, me fazendo rir.
— Tchau, Esther. Pega logo o celular, papai — ela me apressa, e pego o celular no bolso, tirando suas fotos. — Deixa eu ver.
Ela corre até mim e olha sorrindo:
— Perfeitas! Podemos ir.
— Até que enfim. Da próxima vez, você se arruma uma hora antes.
— Ah, papai, você não sabe de nada — ela diz, andando na frente, e me sinto ofendido, mas ignoro.
[...]
Descemos do carro, e ela acena para os fotógrafos, super animada:
— Boa noite, senhor Russo. Os seus lugares são na primeira fileira — diz uma funcionária, entregando o número dos assentos e um
panfleto com informações do artista, da coleção e da caridade do evento.
— Muito obrigado — pego e entrego para Olivia.
Talvez estejamos um pouco atrasados, já que quase todos estão sentados e apenas nossos lugares estão vazios. Vou andando enquanto
peço licença, e, no instante em que sentamos, a música do desfile começa. Quando a primeira modelo aparece, minha filha vibra
animada, mas depois me olha questionadora:
— Papai? — ela pergunta, subindo no meu colo. — Cadê as roupas legais e diferentes? Feitas de papelão, bexiga ou glitter?
— Este é um desfile de uma marca mais popular, meu amor.
— E quando vai ter desfile da empresa da nossa família? — ela pergunta, e seguro o riso.
— A empresa que o vovô criou é de tecnologia, filha. Nós fazemos a segurança cibernética e criamos softwares. Basicamente,
criamos celulares, tablets, computadores e outras coisas, e cuidamos da segurança desses aparelhos.
— Legal, mas um desfile de celulares seria mais legal. Imagina as modelos vestindo um celular gigante — ela fala e começa a
prestar atenção no desfile, enquanto deita a cabeça em mim, entediada.
Ficamos assistindo em silêncio, apenas observando tudo. Quando a sexta modelo aparece, perco todos os meus pensamentos e raciocínio. É a mulher mais perfeita que já vi na vida. Seu jeito tímido, mas elegante de andar, a maneira como sorri... Acho que estou babando por essa mulher.
Minha filha suspira triste, e desvio minha atenção, preocupado:
— O que foi?
— Eu queria uma mamãe bonita igual a ela... Ela é perfeita — ela diz, e agora tenho certeza de que não enlouqueci por me encantar
tanto com uma desconhecida.
Volto a prestar atenção na passarela. Ela para perto de nós e sorri para minha filha. Eu a olho encantado e fascinado. Quero uma foto
dela, um pôster, uma estátua. O mundo todo tem que ver essa beleza. Quero vê-la todo dia, ficar vidrado nessa mulher. Eu quero ela,
só para mim.
Ela volta para trás das cortinas, e meu impulso é levantar, mas volto para o lugar, lembrando que o desfile ainda não terminou.
Preciso tê-la em meus braços, saber seu nome, endereço, tudo sobre ela me interessa. Mas, agora, preciso esperar.
[...]
Finalmente, após o desfile, saímos com pressa. Quero achá-la logo, talvez depois daqui e na festa possamos comemorar:
— Senhor Russo, muito bom vê-lo — o dono do hospital, que será beneficiado pelo evento, diz, vindo me cumprimentar.
— Boa noite. Sem querer ser indiscreto, você sabe quem era a sexta modelo? Gostaria de falar com ela na festa, para tratar de algo
da empresa — digo, disfarçando, e ele ri.
— Que isso! Ela é médica no meu hospital, mas não vai para a festa.
— Eu quero ela lá. Pode avisá-la? — digo, sério, e ele assente, saindo.
Espero ele voltar com ela ou algo do tipo, mas, depois de um tempo, ele volta sozinho, e fico confuso. Procuro por ela entre as
pessoas que conversam e bebem, mas não a vejo em lugar nenhum, algo que me incomoda e me deixa ansioso. Estranho essa
sensação completamente, nunca fiquei assim:
— Papai, podemos falar com a moça bonita? — Olivia pergunta, e assinto, querendo o mesmo.
— Sim, filha, mas primeiro precisamos achá-la. — Ela pula ao meu lado, animada.
— Já achei! — ela aponta com a mãozinha, e sorrio, mas fecho a expressão quando vejo que a mulher anda em direção à saída.
— Ótimo. Filha, corre até ela, tá bom? Abraça bem forte e não deixa ela ir até eu chegar — falo, e ela sai correndo. Olho o caminho
que faz até a mulher que vi há tão pouco tempo, mas que já domina meus pensamentos.
Ando até elas e chego a tempo de ouvir o que minha filha falava:
— Você quer ser a minha... — percebo o que ela vai dizer e tenho tempo de interromper.
— Olivia! — a interrompo, e a mulher parece paralisar à minha frente. Ela tem um cheiro doce e hipnotizante. — Me desculpe,
minha filha saiu correndo.
Dou a volta nela, ficando à sua frente, e me incomodo por ela não olhar nos meus olhos. Será que não gostou de mim?
— Mas você que mand... — ela começa a falar, e tampo sua boca discretamente, enquanto encosto minha filha em mim. A mulher
finalmente me olha, e a encaro profundamente, fazendo-a parecer até sem ar.
— Tudo bem, senhor — ela diz sobre minha filha abraçá-la, e assinto minimamente, adorando ouvir sua voz pela primeira vez.
— Me desculpe a indiscrição, mas você foi a modelo mais bonita da noite — digo, e suas bochechas coram na hora.
— Muito obrigada, mas eu nem sou modelo — ela ri, e sorrio, encantado. — Sou apenas mais uma voluntária do hospital.
— A mais bonita. Muito prazer, senhorita — digo, oferecendo minha mão, e ela fica mais tensa.
— Laura — ela fala e, finalmente, encosta em mim, causando arrepios e uma mini carga elétrica que acende todo o meu corpo.
— Doutora Laura, decidiu ficar? Se quiser ir à festa real, nós te damos carona. Boa noite, senhor — o dono do hospital aparece, e o
olho com raiva por nos atrapalhar.
— Nossa, verdade, eu tenho que ir embora, gente, mil desculpas — ela fala, e empurro minha filha levemente, que abraça as pernas
da Laura.
— Não vai — pede baixinho, e ela se abaixa. Elas falam em tom baixo, e me curvo um pouco para escutar sem nem disfarçar.
— Você é modelo, por que não vai também? — Olivia pergunta.
— Posso te contar um segredo? Eu quase morri de vergonha naquela passarela — m*l escuto de tão baixo que ela fala.
— Então você não é modelo?
— Não sou, eu sou pediatra... Cuido de criancinhas bonitas igual a você — ela diz, e sorrio, sabendo que ficará mais fácil criar
pequenos reencontros.
— Para mim, você é uma modelo, a melhor — digo com convicção, sustentando o olhar dela por alguns segundos a mais do que o
necessário.
Ela sorri de leve, daquele jeito contido, como quem não sabe muito bem o que fazer com um elogio sincero demais. Há algo nos
olhos dela — uma mistura de gratidão, cautela e pressa — que me faz entender que aquele momento precisa terminar ali.
— Obrigada, mas agora tenho que ir — responde, já se levantando. — Coma muitos docinhos nessa festa por mim, ok?
— Pode deixar — digo, quase automático.
Ela se afasta alguns passos, mas então para e olha para mim mais uma vez, como se estivesse confirmando mentalmente aquela
imagem antes de ir embora de vez.
— Boa noite, senhores.
— Boa noite — respondo baixo, sem esforço para esconder que apenas a observo partir.
Não há ansiedade. Não há urgência. Apenas a certeza tranquila de que isso não termina ali. Sei que vamos nos ver novamente — e
essa ideia se instala em mim com uma naturalidade perigosa.
Acompanho cada passo dela até o último segundo possível. Olivia puxa discretamente minha roupa, impaciente, e eu a pego no colo.
Nesse exato instante, as portas do elevador se abrem. Laura entra, e o tempo parece se alongar só um pouco, como se nos concedesse
um último instante.
Nossos olhares se cruzam mais uma vez.
Não sorrio. Não porque não queira, mas porque vê-la ir embora me deixa sério demais para isso. Olivia, ao contrário, acena animada,
com um sorriso aberto e sincero, até que as portas se fechem lentamente, cortando aquela imagem como um ponto final temporário.
— O que foi, pequena? — pergunto, olhando para ela. O rostinho levemente abatido já responde antes mesmo das palavras.
— Eu queria ficar mais tempo com ela… — murmura. — Podemos ir pra casa, papai?
Meu peito aperta de leve.
— Sim, meu amor.
Olho para o dono do hospital, que nos observa de longe, e faço um gesto educado com a cabeça.
— Boa noite, senhor. Curta a festa.
Ele assente, e eu sigo em direção à saída com Olivia nos braços. Enquanto caminho, sinto algo se organizar dentro de mim, como
peças que começam a se encaixar sozinhas.
Assim que chegar em casa, vou saber tudo sobre a vida dela.
Laura.
Ela ainda não imagina o que a espera… e, pela primeira vez em muito tempo, essa ideia não me parece apenas curiosidade — parece
destino.