Doutora Avery

1433 Words
Laura narrando. Pego meu crachá animada e dou bom dia para as recepcionistas e seguranças da entrada: — Bom dia, doutora Avery. Já passei suas visitas dos internados e identifiquei duas possíveis altas. Precisamos apenas do seu diagnóstico. Além disso, você tem cinco consultas marcadas — diz um interno, e eu assinto enquanto caminho para o meu armário. — Obrigada, Steve. Você é meu residente do dia? — pergunto enquanto coloco o jaleco e amarro meus cabelos. — Sim, doutora. Podemos ir? — Sim — falo, pegando as pranchetas de sua mão, e começo a ler enquanto andamos em direção ao elevador. Entramos no elevador, e eu aponto para os botões, fazendo o Steve apertar enquanto ele cantarola a musiquinha ambiente. — Segura! — escuto um grito forte e me assusto. Aperto o botão para abrir as portas, e meu chefe entra na caixa de metal, agora calmo, acenando com a cabeça. — Bom dia! — Bom dia, senhor — digo, voltando a ler. — Bom dia, chefe. Se me permite dizer, essa camiseta azul lhe caiu muito bem nesta manhã — Steve fala, puxando o saco, e eu não me aguento e começo a rir. O chefe dá apenas uma risadinha. — Obrigado, residente. Doutora Avery, não vi seu nome entre os voluntários para o desfile — ele diz, e eu o olho confusa. — Que desfile? — Dos investidores. O Steve te explica. Quero seu nome lá, doutora. Precisamos de rostos como o seu para ajudar as pessoas sem plano de saúde a terem acesso a grandes tratamentos — ele diz, saindo quando o elevador se abre. — A senhorita na frente — ele diz, segurando a porta. Saio direto para as possíveis altas. — Bom dia! — digo para a pequena cheia de cachinhos que sorri para mim. — Lembra de mim? — Sim, você é a médica boazinha. Trouxe o meu pirulito? — ela pede, e a mãe dá risada, meio envergonhada. Tiro do bolso e entrego para ela, que sorri. — Obrigada! — Não precisava, doutora — a mãe fala. — Que nada. Meu anjo, agora a tia vai examinar você, ok? E se estiver tudo certo, você sai daqui hoje mesmo. — Tá bom, mas eu posso ficar sem ir à escola? Gostei de brincar aqui. Coloco as mãos na cintura exageradamente, e ela ri. — E você vai trocar toda a escola para ficar doentinha aqui? Na escola tem parquinho, brinquedos, histórias... — Aqui também — ela fala, rindo. — Ah, mas lá tem muitos amiguinhos. Você não vai sentir nem um pouquinho de saudade? Ela parece pensar e assente. — Só um pouquinho. — Tudo bem, acho que a saudade vai aumentar, né? Agora a tia vai colocar isso aqui nas suas costas, tá bom? É um pouquinho gelado. Você vai respirar bem fundo, e eu vou escutar seu pulmão. Ela assente boazinha, e coloco o estetoscópio no meu ouvido. [...] Pego meu almoço enquanto escuto o pessoal falando sobre o desfile do hospital, que todos estão animados. Me sento em uma mesa vazia perto da janela e respiro tranquila pelo silêncio, aproveitando a oportunidade de almoçar sozinha. O hospital é um lugar bem barulhento. Corto meu frango e levanto o olhar, vendo meu chefe se sentar à mesa com seu almoço. Ele sorri para mim e começa a comer. Eu ignoro, sabendo o que ele quer, e como devagar. — Não vai perguntar por que estou aqui? — Não — digo, simples, e acabo rindo. — Teve tempo de ouvir sobre o desfile? Vai ser uma causa muito boa, e precisamos de modelos do próprio hospital para poupar dinheiro. Mais da metade do que arrecadarem virá para o hospital, e poderemos ajudar as crianças sem convênio médico com o tratamento do câncer — ele fala, e eu assinto. — Uma causa muito nobre — digo, e ele fica me olhando sério. — Sim? Senhor Shepherd, já disse ao Steve que não vou modelar. — Eu soube disso, mas por quê? Sem ofensa, mas você é uma das mais bonitas, e destacaria qualquer peça que vestir. Assim, será melhor vendida e arrecadaremos mais. — Eu tenho vergonha, medo do público. Odeio salto, e não vou vestir nada curto na frente de uma multidão. — Nunca viu nenhum filme? Eles sempre dizem para olhar só para uma pessoa. — O senhor tem medo de altura, não tem? É a mesma coisa. Mesmo com medo, você não vai olhar só para onde é seguro. Em algum momento, vai olhar para o lugar alto, que te dá medo. — Mas e as criancinhas? — Ele abre a pasta que trouxe e começa a tirar fotos de várias crianças. — Esta é a Fabi, uma criança com leucemia óssea. Este é o Brandon, com câncer no fígado. Este pequeno tem câncer no pulmão. — Tá bom, tá bom, isso é tortura — digo, e ele sorri, guardando as fotos. — Posso te considerar modelo nesse evento? — Sim, mas vou vestir algo discreto e usar salto baixo, por favor. E se eu cair na passarela, vou me fundir a ela — digo, e ele sorri, saindo. — Se quiser conselhos, chame minha filha Ellis. Ela fez campanhas de modelo na faculdade de Medicina. Ela é interna da cirurgia geral aqui. — Não precisa. Bom trabalho, senhor Shepherd. — Obrigado. Agora vou conversar com mais um modelo difícil. Vocês só me arranjam trabalho — ele diz, saindo. — É no sábado, hein? Dois dias para se preparar. Mesmo sendo insistente, ele é um ótimo dono de hospital. [...] Deixo meu nome na lista de voluntários, fecho a prancheta com cuidado e pego minha bolsa. Ao sair do hospital, o relógio grande do saguão me acusa: duas da tarde em ponto. Respiro fundo, surpresa. O tempo aqui dentro sempre parece brincar comigo, escorrendo pelos dedos sem pedir licença. Um turno inteiro resumido a passos apressados, corredores brancos e pensamentos que não param. Pego minhas chaves no bolso do casaco, ajusto a alça da bolsa no ombro e entro no elevador quase vazio. O silêncio metálico me envolve por um segundo — até que, quando as portas já estão prestes a se fechar, uma mão firme impede o fechamento. Meu coração dá um pulo discreto. Meu chefe entra, acompanhado da esposa, chefe do setor de cirurgia. Eles ocupam o espaço com uma presença segura, dessas que não precisam se impor. Endireito a postura quase por reflexo. — Boa tarde, doutora Laura. Querida, foi ela que eu tive que convencer no almoço — ele comenta, com um meio sorriso orgulhoso. A mulher dele me encara por um instante. Não é um olhar simples. Tem algo avaliador ali, quase clínico… e por uma fração de segundo penso que ela vai me transformar em pedra, como uma Medusa elegante de jaleco invisível. Mas esse pensamento se dissolve rápido, atropelado por outro bem mais sincero: ela é absurdamente bonita. Daquelas belezas calmas, seguras, que não competem com ninguém. — Boa tarde, senhor e senhora Shepherd — digo, tentando soar natural. — Em minha defesa, eu morro de medo de grandes públicos… e o desfile vai ser um desafio. Ela inclina levemente a cabeça, me observando melhor agora. Então sorri, um sorriso genuíno, que desmonta qualquer tensão que ainda restava. — Você é bonita, vai dar tudo certo — diz, com simplicidade. Antes que eu consiga formular qualquer resposta além de um agradecimento tímido, o elevador anuncia meu andar. As portas se abrem como uma pequena fuga. — Obrigada — digo, saindo. Caminho pelo corredor sem pressa, deixando o ar-condicionado frio me acompanhar até a saída. Do lado de fora, o sol da tarde aquece a pele e me faz piscar algumas vezes, como se estivesse acordando de um sonho longo demais. Vou até meu carro, destranco a porta e entro. Coloco o cinto, ajusto o retrovisor e começo a dirigir com cuidado, ainda processando tudo. Vou ter que aprender a desfilar em menos de dois dias. Dois dias. Tenho certeza absoluta de que, sob pressão, vou esquecer até como se anda. Um pé na frente do outro nunca pareceu tão complexo. Como vou caminhar na frente de uma multidão inteira me olhando? Avaliando cada passo, cada postura, cada respiração? Pelo menos não vai ser de biquíni… eu espero. Só essa possibilidade já me faz soltar um suspiro nervoso. Preciso de algo que me traga de volta pra mim. Preciso de conforto. Uma pizza. Meu sofá. E uma série qualquer, daquelas que não exigem nada além de presença. É exatamente tudo o que eu preciso neste momento
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