Capítulo 5

849 Words
A gestação avançava… mas nunca foi leve. Ana Flávia nunca foi uma mulher de ficar parada. Mesmo de repouso absoluto, ela se levantava. Arrastava móveis, organizava a casa, limpava o que já estava limpo. Para muitos, era loucura. Para ela… era sobrevivência. Era a única forma de não enlouquecer. As dores eram constantes. Não deixavam ela dormir. Não davam trégua. A cada mês que a barriga crescia, a dor aumentava. Era como se o corpo dela estivesse sendo rasgado de dentro para fora. Mas, ainda assim… valia a pena. Porque ali, dentro dela, existia o maior milagre da sua vida. As noites eram longas. Vazias. Dolorosas. E quando a dor passava do limite… ela precisava ir para uma maternidade pública. E lá… tudo piorava. O atendimento era frio. Bruto. Desumano. Os exames de toque… eram um verdadeiro castigo. Mas Ana Flávia suportava. Em silêncio. Porque ela repetia para si mesma, todas as vezes: Vai valer a pena. Só que havia um problema que crescia junto com a gestação. Ela não sentia fome. Não conseguia comer. E isso começou a afetar quem mais importava. A bebê. Com oito meses de gestação, veio a notícia que gelou sua alma. — A bebê está muito abaixo do peso… — disse o médico, sério. — E nós não temos incubadora aqui. Ana Flávia ficou em silêncio. O coração apertado. — Se ela nascer assim… você vai receber alta, mas sua filha vai precisar ser transferida. Ou talvez nem possamos fazer o parto aqui. Aquilo não era só medo. Era desespero. Era dor nos ossos. Ela tentou comer. Tentou de verdade. Mas o corpo não ajudava. Foi então que, faltando um mês para o parto, sua mãe tomou uma decisão. Levou Ana Flávia para casa. E, claro… o marido foi junto. Ali, tudo mudou. A mãe dela não dava escolha. — Vai comer, minha filha. E fazia. Comida de verdade. Forte. Cheia. Costela. Feijão. Arroz. Comida quente, feita com amor… e insistência. Ela praticamente obrigava Ana Flávia a comer. Porque agora… não era só sobre ela. Ana Flávia sempre foi gordinha. Pesava cerca de 94 quilos. Mas, durante toda a gestação… ganhou apenas 2, 3 quilos. Era pouco. Perigoso demais. O tempo estava acabando. O parto, inicialmente, foi marcado para o dia 21 de fevereiro. Mas Ana Flávia já não aguentava mais. — Doutor… pode antecipar? Eu não tô aguentando… Ele antecipou. Dia 18. Mas não foi suficiente. Na consulta seguinte, ela pediu de novo. E depois… de novo. Até que o médico foi firme: — O máximo que posso fazer é dia 8 de fevereiro. Ela aceitou. 38 semanas e 2 dias. Parecia perto. Mas o corpo dela… não quis esperar. Na madrugada do dia 6 para o dia 7… o inferno começou. Dor. Contrações fortes. Incontroláveis. Ela não conseguiu dormir um segundo sequer. Andava pela casa inteira… da sala para o quarto… da cozinha para a sala… o tempo todo. Enquanto isso… o marido dormia. Profundamente. Como se nada estivesse acontecendo. Às 5h30 da manhã, a dor já era insuportável. Às 6h, ela foi ao banheiro. Quando se limpou… viu sangue. O desespero veio na hora. Tirou uma foto. Mandou para a mãe. Sem resposta. Mandou para o pai. Ligou. Ele atendeu. — Se arruma agora. Acorda ele. Vocês vão pra maternidade. Ela foi até o quarto. — Amor… eu tô com muita dor… não dormi a noite toda… — Sério?… — ele murmurou, com sono, quase voltando a dormir. — Levanta agora, por favor. A gente tem que ir. Ele levantou, contrariado. Se arrumaram. A bolsa do bebê já estava na casa dos pais. Às 7h30, o carro parou no portão. Ela entrou. O pai dirigindo. A mãe ao lado. E ela atrás… com ele. Sentindo dor. Muita dor. — Minha filha… vamos numa maternidade pública? — perguntou a mãe, preocupada. Ana Flávia entrou em pânico. — Não, mãe… por favor… me leva no meu médico… eu preciso dele… — Vai no médico dela — o pai respondeu, firme. E foram. Mas havia algo que doía tanto quanto as contrações. Durante meses… eles tentaram juntar dinheiro para o parto. 2.500 reais. Era o objetivo. Mas nunca conseguiram. Porque o marido gastava. Lanche. Açaí. Hambúrguer. Batata frita. E, às vezes… até com comida, porque dentro de casa não tinha. O dinheiro simplesmente… sumia. E no final… não havia nada. Nenhum real. Quando chegaram, uma surpresa. O médico dela estava lá. Tinha um parto agendado naquela manhã. Ele examinou. Silêncio. Depois disse: — Vamos ter que antecipar. Ana Flávia m*l conseguia respirar de dor. — Você quer tentar normal? Ela nem pensou. — Não, doutor… — Então vamos fazer. Na hora de decidir quem ficaria com ela… o marido tentou. Mas dessa vez… não foi ele quem escolheu. — Não — disse a mãe. — Ela fica — confirmou o pai. E sem discussão… ele foi retirado dali. Levado pelo pai dela… direto para o trabalho. Revoltado. Enquanto Ana Flávia… finalmente… ia enfrentar o momento mais importante da vida dela. Sozinha? Não. Mas, agora, ela já sabia… quem realmente estava ao lado dela.
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