A gestação avançava…
mas nunca foi leve.
Ana Flávia nunca foi uma mulher de ficar parada.
Mesmo de repouso absoluto, ela se levantava. Arrastava móveis, organizava a casa, limpava o que já estava limpo. Para muitos, era loucura.
Para ela… era sobrevivência.
Era a única forma de não enlouquecer.
As dores eram constantes.
Não deixavam ela dormir.
Não davam trégua.
A cada mês que a barriga crescia, a dor aumentava.
Era como se o corpo dela estivesse sendo rasgado de dentro para fora.
Mas, ainda assim…
valia a pena.
Porque ali, dentro dela, existia o maior milagre da sua vida.
As noites eram longas. Vazias. Dolorosas.
E quando a dor passava do limite… ela precisava ir para uma maternidade pública.
E lá… tudo piorava.
O atendimento era frio.
Bruto.
Desumano.
Os exames de toque… eram um verdadeiro castigo.
Mas Ana Flávia suportava.
Em silêncio.
Porque ela repetia para si mesma, todas as vezes:
Vai valer a pena.
Só que havia um problema que crescia junto com a gestação.
Ela não sentia fome.
Não conseguia comer.
E isso começou a afetar quem mais importava.
A bebê.
Com oito meses de gestação, veio a notícia que gelou sua alma.
— A bebê está muito abaixo do peso… — disse o médico, sério. — E nós não temos incubadora aqui.
Ana Flávia ficou em silêncio.
O coração apertado.
— Se ela nascer assim… você vai receber alta, mas sua filha vai precisar ser transferida. Ou talvez nem possamos fazer o parto aqui.
Aquilo não era só medo.
Era desespero.
Era dor nos ossos.
Ela tentou comer. Tentou de verdade.
Mas o corpo não ajudava.
Foi então que, faltando um mês para o parto, sua mãe tomou uma decisão.
Levou Ana Flávia para casa.
E, claro… o marido foi junto.
Ali, tudo mudou.
A mãe dela não dava escolha.
— Vai comer, minha filha.
E fazia.
Comida de verdade. Forte. Cheia.
Costela.
Feijão.
Arroz.
Comida quente, feita com amor… e insistência.
Ela praticamente obrigava Ana Flávia a comer.
Porque agora… não era só sobre ela.
Ana Flávia sempre foi gordinha. Pesava cerca de 94 quilos.
Mas, durante toda a gestação… ganhou apenas 2, 3 quilos.
Era pouco.
Perigoso demais.
O tempo estava acabando.
O parto, inicialmente, foi marcado para o dia 21 de fevereiro.
Mas Ana Flávia já não aguentava mais.
— Doutor… pode antecipar? Eu não tô aguentando…
Ele antecipou.
Dia 18.
Mas não foi suficiente.
Na consulta seguinte, ela pediu de novo.
E depois… de novo.
Até que o médico foi firme:
— O máximo que posso fazer é dia 8 de fevereiro.
Ela aceitou.
38 semanas e 2 dias.
Parecia perto.
Mas o corpo dela… não quis esperar.
Na madrugada do dia 6 para o dia 7…
o inferno começou.
Dor.
Contrações fortes.
Incontroláveis.
Ela não conseguiu dormir um segundo sequer.
Andava pela casa inteira… da sala para o quarto… da cozinha para a sala… o tempo todo.
Enquanto isso…
o marido dormia.
Profundamente.
Como se nada estivesse acontecendo.
Às 5h30 da manhã, a dor já era insuportável.
Às 6h, ela foi ao banheiro.
Quando se limpou…
viu sangue.
O desespero veio na hora.
Tirou uma foto. Mandou para a mãe.
Sem resposta.
Mandou para o pai.
Ligou.
Ele atendeu.
— Se arruma agora. Acorda ele. Vocês vão pra maternidade.
Ela foi até o quarto.
— Amor… eu tô com muita dor… não dormi a noite toda…
— Sério?… — ele murmurou, com sono, quase voltando a dormir.
— Levanta agora, por favor. A gente tem que ir.
Ele levantou, contrariado.
Se arrumaram.
A bolsa do bebê já estava na casa dos pais.
Às 7h30, o carro parou no portão.
Ela entrou.
O pai dirigindo.
A mãe ao lado.
E ela atrás… com ele.
Sentindo dor.
Muita dor.
— Minha filha… vamos numa maternidade pública? — perguntou a mãe, preocupada.
Ana Flávia entrou em pânico.
— Não, mãe… por favor… me leva no meu médico… eu preciso dele…
— Vai no médico dela — o pai respondeu, firme.
E foram.
Mas havia algo que doía tanto quanto as contrações.
Durante meses… eles tentaram juntar dinheiro para o parto.
2.500 reais.
Era o objetivo.
Mas nunca conseguiram.
Porque o marido gastava.
Lanche.
Açaí.
Hambúrguer.
Batata frita.
E, às vezes… até com comida, porque dentro de casa não tinha.
O dinheiro simplesmente… sumia.
E no final…
não havia nada.
Nenhum real.
Quando chegaram, uma surpresa.
O médico dela estava lá.
Tinha um parto agendado naquela manhã.
Ele examinou.
Silêncio.
Depois disse:
— Vamos ter que antecipar.
Ana Flávia m*l conseguia respirar de dor.
— Você quer tentar normal?
Ela nem pensou.
— Não, doutor…
— Então vamos fazer.
Na hora de decidir quem ficaria com ela…
o marido tentou.
Mas dessa vez…
não foi ele quem escolheu.
— Não — disse a mãe.
— Ela fica — confirmou o pai.
E sem discussão…
ele foi retirado dali.
Levado pelo pai dela… direto para o trabalho.
Revoltado.
Enquanto Ana Flávia…
finalmente…
ia enfrentar o momento mais importante da vida dela.
Sozinha?
Não.
Mas, agora, ela já sabia…
quem realmente estava ao lado dela.