Capítulo 6

657 Words
Ana Flávia entrou no centro cirúrgico… sozinha. Sem a mãe. Sem alguém da família. Sem ninguém que pudesse segurar sua mão. Para acompanhar o parto, era preciso pagar. 350 reais. Mas não valia. A mãe dela só poderia entrar depois que tudo já estivesse praticamente terminado… veriam a bebê sendo retirada e, minutos depois, teriam que sair. Quinze… vinte minutos. Não compensava. Então, decidiram não pagar. E ali estava Ana Flávia. Deitada naquela maca… rodeada por pessoas desconhecidas… sentindo dor… medo… e um vazio enorme. O médico tentou aliviar o clima. — É, dona Ana Flávia… você quis tanto antecipar, hein? — disse, em tom leve. — Era pra ser amanhã, dia 8… mas sua filha resolveu vir hoje, dia 7. Ela soltou um sorriso fraco, mesmo em meio às contrações. Mas o que ela não sabia… era o que estava acontecendo do lado de fora. Enquanto ela esperava ali… sentindo dor… esperando o parto começar… o médico também esperava. Esperava o dinheiro cair. Do lado de fora, o pai dela estava desesperado. Correndo contra o tempo. Esperando os patrões transferirem o dinheiro… para que ele pudesse pagar o parto da própria filha. Porque o marido de Ana Flávia… não tinha conseguido. Não tinha guardado. Não tinha feito o que precisava ser feito. E, mais uma vez… quem segurou tudo… foi o pai dela. Até que, finalmente… a notificação chegou no celular do médico. — Agora vamos começar. Ana Flávia nem entendeu. Mas, depois… ela descobriria. Depois de cerca de vinte minutos esperando ali… veio a pior parte. A anestesia. Ela precisou se curvar. Mesmo com dor. Mesmo com contrações. Mesmo sem forças. O médico que aplicaria… era um senhor de idade avançada. As mãos tremiam. — Você precisa se curvar mais — ele dizia. E ela tentava. Mas o corpo já não respondia. A dor era grande demais. A primeira tentativa. Nada. A segunda. Nada. A terceira. A quarta. A quinta. A anestesia não descia. Parava na cintura. Ana Flávia queria gritar. Queria chorar. Mas só conseguia suportar. Até que, na sexta tentativa… funcionou. O corpo começou a ceder. Ela foi deitada. Outro médico ficou ao lado dela, tentando acalmá-la. — Fica tranquila… vai dar tudo certo… Mas por dentro… ela estava em pânico. Com medo. Sozinha. A cirurgia começou. Minutos que pareciam horas. Até que o médico disse: — Pronto… vamos tirar a bebê. O coração dela disparou. Mas quando a bebê saiu… silêncio. Nenhum choro. Nada. O desespero tomou conta. Até que os médicos estimularam… E então… o som mais esperado. O choro. Forte. Vivo. Real. Ana Flávia chorou na mesma hora. Era o som mais lindo que ela já tinha ouvido na vida. Quando mostraram a bebê… ela olhou com atenção. Cada detalhe. Cada traço. O maior medo dela, naquele momento… era um só: Que trocassem sua filha. Um pensamento simples… mas real. Mas não havia dúvida. Era impossível confundir. A bebê era a cara do pai. Nariz. Rosto. Expressão. Tudo. Era ela. Era sua filha. Seu milagre. A bebê foi levada. E Ana Flávia ficou ali… sozinha novamente. Com duas enfermeiras. Nervosa. Sensível. Fragilizada. — Minha mãe veio?… — perguntou, com a voz baixa. — Não — respondeu uma delas, de forma seca. — Você vai pra lá depois. Aquilo doeu. Mas ela se calou. Sem forças. Sem reação. Minutos depois, foi transferida de maca. Levada pelos corredores… pelo elevador… até o terceiro andar. E lá… finalmente… ela viu alguém seu. Sua mãe. Assim que chegou, segurou a mão dela. Forte. Como se precisasse daquilo pra continuar. E, pela primeira vez em todo aquele processo… ela não se sentiu sozinha. Pouco depois, sua mãe trouxe a bebê. E, então… Ana Flávia segurou nos braços… tudo aquilo pelo que lutou. Tudo aquilo que sofreu. Tudo aquilo que quase perdeu. Ali estava. Pequena. Frágil. Mas viva. Seu milagre. E naquele momento… nada mais importava. Porque, a partir dali… ela sabia. Era tudo por ela.
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