Capítulo 4

2698 Words
Madson Davis O dia que eu mais temia — aquele que achei que demoraria uma eternidade para chegar — finalmente chegou. E, ironicamente, parece ter chegado rápido demais. Nossa casa está completamente lotada de pessoas que eu nunca vi na vida. Rostos desconhecidos cobertos por ternos caros, vestidos luxuosos e joias espalhafatosas circulam por todos os lados, enquanto seguranças se posicionam estrategicamente em cada canto da propriedade. Quando olho pela janela do segundo andar, percebo, com um aperto no peito, que ainda há mais carros chegando pela alameda. Mais convidados. Mais mafiosos. Mais homens armados. Mais alianças sendo seladas. O circo corporativo e sangrento está oficialmente armado. E eu sou uma das atrações principais. Ainda não tive oportunidade de ver o meu noivo de perto desde que os preparativos começaram, mas prometi firmemente para mim mesma que daria a ele, na mesma moeda, tudo o que ele me der. Não deixarei, de jeito nenhum, que ele faça de mim o que quiser, como se eu fosse um objeto descartável, ou que me trate do jeito que bem entender só porque herdou o poder da máfia. Eu tenho dentes. E pretendo usá-los se for preciso. Respiro fundo diante do espelho. O vestido é lindo. Perfeito, na verdade. Mas, por mais que todas as pessoas ao meu redor insistam em dizer que estou deslumbrante, eu não consigo enxergar uma noiva. Enxergo uma mulher prestes a entrar em um casamento sobre o qual não teve absolutamente nenhum controle. As batidas leves na porta me tiram do transe. Viro-me e encontro a figura imponente do meu pai parada no batente, vestindo o terno impecável de padrinho e anfitrião. Por alguns segundos, simplesmente ficamos nos olhando. Gregório — Olá, minha estrelinha… O apelido faz meu peito apertar. Ele sorri, embora eu consiga perceber que também está tentando esconder a própria emoção. Gregório — Você está pronta para dar o passo mais importante da sua vida? Engulo em seco. — Sim, papai… Eu estou pronta. Minha voz sai um pouco presa na garganta. A verdade é que eu e papai m*l conversamos desde o dia do anúncio do noivado. Ele tem me evitado pelos corredores, fugindo dos meus olhares cobradores, e eu não vou negar que estou profundamente chateada com essa covardia silenciosa dele. Mas, naquele momento, olhando para o homem que me criou, percebo que talvez ele também esteja sofrendo. Gregório entra no quarto e fecha a porta atrás de si. Gregório — Eu sei muito bem que você está magoada comigo, minha filha. Baixo os olhos. Gregório — E você tem todo o direito de estar. Afinal, hoje era para ser o dia da sua irmã. Mesmo você sendo a mais velha, nunca deveria ser a primeira a casar assim, empurrada para o fogo cruzado. Ele se aproxima. Gregório — Mad, se estivesse ao meu alcance, eu juro que não daria nenhuma de vocês duas para nenhum desses homens sedentos por poder. Minha garganta aperta. Gregório — Para mim, minhas filhas são o maior tesouro do mundo. Algo que eu só queria poder possuir e proteger para sempre. Ele passa a mão pelo meu cabelo. Gregório — Mas, minha estrelinha, todos nós, dentro da máfia, temos um dever intransigível a cumprir perante o conselho. Infelizmente, eu não fiz as regras deste jogo. Fico alguns segundos em silêncio. Então levanto o rosto. — Elas já estavam escritas e cravadas na pedra muito antes de o senhor sequer chegar ao poder. Eu sei disso, papai. Minha voz falha um pouco. — E eu sinto muito se te decepcionei com a minha reação mimada. Eu só… Paro para respirar. — Eu só não me sinto minimamente preparada para partir do meu lar, deixar você, a mamãe e a Chloe para trás e ir viver em um país gélido, com pessoas totalmente estranhas, costumes opostos e comida diferente. Meu pai arqueia uma sobrancelha. Então completo, tentando aliviar a tensão: — Poxa… e se lá na Rússia não tiver churrasco de verdade? Por um segundo, ele me encara completamente sério. Então solta uma gargalhada tão alta e genuína que ecoa pelas paredes do quarto. E, contra toda a minha vontade, começo a rir também. Gregório — Bom, minha filha, isso seria um verdadeiro martírio imperdoável! — Exatamente! Gregório — Mas eu sei de uma coisa: você aprendeu muito bem a arte de fazer um bom churrasco diretamente com o seu paizão aqui. Ninguém vai te passar para trás nesse quesito. — Sim, papai… E ouso dizer, sem modéstia nenhuma, que o meu agora já consegue superar o seu. Ele coloca a mão no peito, fingindo estar profundamente ofendido. Gregório — Isso foi uma facada. — A verdade dói. Gregório — Eu passei anos ensinando você. — E aparentemente fui uma aluna excelente. — Talvez eu tenha sido bom demais. — Finalmente admitiu. Ele balança a cabeça, rindo. Mas o sorriso desaparece lentamente. Gregório — Vou sentir a sua falta aqui em casa todos os dias, minha pequena. Meu coração aperta. Gregório — Cada segundo. Sinto os olhos arderem. — Eu também vou sentir muita falta sua, papai… Dou um passo na direção dele. — Demais. Passo o braço carinhosamente pelo braço do meu pai e encosto a cabeça por alguns segundos em seu ombro. Ele beija o topo da minha cabeça. Nenhum de nós diz nada. Porque algumas despedidas começam antes mesmo de alguém partir. Finalmente, depois de alguns segundos, respiro fundo. — Está na hora? Gregório olha para mim. Gregório — Está. Dou um pequeno aceno. É o meu sinal verde. Começo a descer as escadas da grandiosa mansão em passos lentos e compassados, sentindo o peso do vestido arrastando pelos degraus. Cada passo parece mais pesado que o anterior. Quando chego ao patamar e vejo o vasto jardim ornamentado lá embaixo, meu coração dá um salto violento e dispara dentro do peito. A cerimônia foi montada ao ar livre. Centenas de pessoas estão espalhadas pelos lugares reservados, conversando em murmúrios baixos. Mas, naquele momento, eu não consigo ouvir quase nada. Gregório aperta delicadamente minha mão. Gregório — Vamos lá, minha estrelinha. Olho para ele. Gregório — Você consegue. Ele respira fundo comigo. Gregório — Respire. Faço exatamente o que ele manda. Inspiro. Expirou. E começo a caminhar. A passarela cerimonial é feita de milhares de orquídeas brancas. Flores lindas, delicadas e quase angelicais, contrastando de maneira absurdamente irônica com a brutalidade do nosso mundo. Sigo firme. Erguendo o queixo. Mesmo sabendo que, por dentro, meu corpo inteiro está em pura combustão. Então ergo os olhos. E o encontro. Lucca Bianchi. Meu noivo. Meu futuro marido. O homem que, até aquele momento, era praticamente um estranho para mim. Os olhos dele me analisam friamente, milimetricamente. Sem pressa. Sem vergonha. Como se estivesse tentando memorizar cada detalhe meu. E eu faço exatamente a mesma coisa. Se ele quer me analisar, que analise. Também quero saber com quem estou me casando. Quero encontrar através daquela muralha algum resquício de sua verdadeira alma. Ele é ainda mais impressionante pessoalmente do que me lembrava. Muito mais... E, infelizmente, muito mais bonito também. Isso é um problema. Um grande problema. Chego finalmente ao altar. Papai troca algumas palavras breves, secas e tensas com meu noivo. Não consigo ouvir tudo, mas percebo o modo como os dois se encaram. Meu pai finalmente solta minha mão. E, pela primeira vez, fico completamente sozinha diante de Lucca. O padre logo dá início à cerimônia litúrgica. Para falar a verdade, não ouço absolutamente nada do que ele fala durante os minutos seguintes. Estou completamente ocupada e hipnotizada analisando a estética avassaladora do homem postado bem à minha frente. Cabelos perfeitamente alinhados. Barba desenhada com precisão cirúrgica. Traços fortes. Ombros largos. Uma altura impressionante. Ele é tão alto que faz os meus um metro e setenta e sete parecerem quase nada ao lado dele. E os olhos… Meu Deus do céu. Que olhos intensos e magnéticos. Quanto à boca… Bom, acho melhor eu parar meus devaneios por aqui antes que eu perca completamente a compostura na frente de cem mafiosos armados. O padre nos avisa, com um tom solene, que está na hora de proferirmos os votos. Engulo em seco. Limpo a mente. E começo. Minha voz sai firme. Não tremo. Não abaixo os olhos. Se vou entrar nesse casamento, pelo menos vou entrar de cabeça erguida. Logo depois, Lucca faz os votos dele. E eu fico completamente paralisada. Não pelas palavras. Pela voz. Grave. Profunda. Rouca. Há algo naquele som que percorre meu corpo de uma maneira que me deixa momentaneamente sem reação. Só saio daquele torpor hipnótico quando uma salva estridente de palmas dos convidados preenche meus ouvidos e nos traz de volta à realidade. Estamos casados. Eu sou oficialmente uma Bianchi. E ainda não faço ideia do que isso significa. ⸻ Durante a recepção suntuosa que se segue, Lucca não faz a menor questão de ficar grudado ao meu lado, fingindo o falso romance que a ocasião exigia. Perfeito. Decido adotar exatamente a mesma estratégia. Se ele quer fingir que eu não existo, então somos dois. Faço-me de completamente desinteressada e passo boa parte da recepção conversando e dançando com Chloe, Louise, Bea e Leila. Graças aos céus, pelo menos a minha nova família feminina parece ser um amor de pessoa. Elas me acolhem de uma maneira que eu não esperava. Por alguns momentos, consigo até esquecer que acabei de me casar com um homem que conheci praticamente no altar. Até que Louise aparece do meu lado do nada. Louise — Vem cá, Mad! Chegou a hora sagrada das fotos oficiais. — Fotos? Louise — Sim. — Louise, eu já tirei fotos demais. Louise — Ainda não tirou as importantes. — Que importantes? Ela abre um sorriso suspeito. — As de casal. — Não. Louise — Sim. — Não. Louise — Sim. — Louise… Antes que eu possa terminar a frase, ela segura meu braço. — Nem pense em fugir. — Eu não estou fugindo! — Está sim. E, antes que eu consiga reagir, ela me puxa com força e me empurra abruptamente na direção de Lucca. Meu pé escorrega. Meu equilíbrio desaparece. — Merda! Se não fosse por um reflexo rápido e pelos braços fortes de Lucca, que imediatamente me seguram pela cintura, eu teria ido ao chão com tudo, protagonizando um tombo histórico diante de praticamente todos os convidados. Fico imóvel. As mãos dele permanecem firmes na minha cintura. O rosto dele está muito perto. Perto demais. E o perfume… Um perfume amadeirado forte e embriagador invade meus sentidos. Meu coração bate uma vez. Duas. Três. Por que ele precisa ser tão bonito? Vou ter que agradecer à Louise depois por esse empurrãozinho estratégico, porque sentir aquelas mãos grandes me segurando com tanta firmeza foi, confesso a mim mesma, incrivelmente excitante. Lucca me coloca novamente em pé. — Você está bem? A voz grave dele arrepia minha pele. — Estou. — Tem certeza? — Tenho. Ele me observa por mais um segundo. Depois me solta. Louise aparece novamente. Louise — Perfeito! Agora, por favor, fiquem juntos. Olho para ela. — Você quase me matou. Louise — Mas as fotos vão ficar lindas. E, infelizmente, ela está certa. Tiramos dezenas de fotografias em poses variadas. E, em absolutamente todas elas, Lucca acaba me abraçando por trás, com o corpo próximo ao meu, enquanto eu tento manter uma expressão minimamente controlada. Quem olhar para essas fotos no futuro vai jurar de pés juntos que somos um casal perdidamente apaixonado. A realidade não poderia ser mais diferente. Terminada a maratona de flashes, somos chamados para o centro do salão para a tradicional a******a da valsa dos noivos. Lucca estende a mão. Olho para ela. Depois para ele. Seguro. Ele coloca uma mão firme na minha cintura e segura a outra. Começamos a dançar. E, para minha surpresa, ele conduz muito bem. Muito melhor do que eu esperava. Rodopio timidamente guiada pela força dos braços dele. Por alguns segundos, nenhum de nós fala. Até que decido arriscar. — Diga-me uma coisa… Ele baixa os olhos para mim. — Você sempre carrega essa cara de mau o tempo todo ou faz parte de algum personagem corporativo para assustar as pessoas? Por um instante, ele simplesmente me encara. Então um canto da boca se ergue em um esgar intrigado. Lucca — Acha mesmo que eu tenho cara de mau, Madson? — Não é que eu acho… Ele ergue uma sobrancelha. Lucca — Não? — É só que você tem mesmo. Não dá para negar. Minha voz perde um pouco da firmeza no final, e eu me atrapalho toda na tentativa de soar durona. Para a minha total surpresa, ele solta um riso curto. Grave. Genuíno. Meu Deus. Nossa. Que sorriso lindo ele tem quando quer. Céus, meu pai… Assim fica difícil manter o ódio regulamentar! Lucca — Ah, entendi. Ele continua me conduzindo pelo salão. Lucca — Então quer dizer que eu tenho cara de mau. — Exatamente. Lucca — Anotado. — Ah, por favor, pare de caçoar da minha cara. Não tem graça nenhuma para mim. Lucca — Eu não estou caçoando. — Está sim. Lucca — Só estou tentando entender minha recém-esposa. — E já conseguiu? Ele me encara por alguns segundos. Lucca — Ainda não. — Então você está muito atrasado. Lucca — Pelo pouco que vi até agora, acredito que você não seja exatamente fácil de entender. — E você é? Lucca — Não. — Ótimo. Estamos empatados. Ele deixa escapar outro pequeno sorriso. Lucca — Você tem essa carinha de anja inocente, toda polida nas pontas dos pés, mas algo me diz, bem aqui no fundo, que sua aparência exterior é apenas uma fachada muito bem ensaiada para esconder o capetinha que habita aí dentro. Arqueio uma sobrancelha. — Não existem anjos puros neste mundo em que vivemos, senhor Bianchi. Todos nós já nascemos com as asas queimadas. O olhar dele muda. Fica mais atento. Mais profundo. Lucca — Será mesmo, senhora Bianchi? Ele se aproxima minimamente. Lucca — Vamos descobrir isso juntos com o tempo. Meu coração acelera. Não sei se foi a frase. A voz. Ou simplesmente a maneira como ele me olha. Mas alguma coisa mudou. Ficamos nos encarando em um silêncio carregado de eletricidade pura, rodando lentamente no meio do salão, até que as notas finais da música finalmente se dissipam no ar. E, naquele momento, percebo algo que me incomoda profundamente. Pelo pouco que pude ver até agora, eu sinceramente pensava que ele seria um completo i****a arrogante e insuportável. Mas, olhando bem nos olhos dele agora… Acho que acabei me enganando redondamente a seu respeito. O problema é que ainda não sei se isso é uma coisa boa. A música termina. Os aplausos recomeçam. Lucca se afasta um pouco de mim. E, antes que eu consiga dizer qualquer coisa, ele fala: Lucca — Comece a se despedir de todo mundo por aí e termine de arrumar o que importa. Franzo a testa. — Como assim? Lucca — Vamos voar de jato particular para a Itália ainda hoje à noite. — Itália? Ele simplesmente confirma com um aceno. — Mas eu achei que… Lucca — Os planos mudaram. — Você poderia, pelo menos, me explicar— Ele já está se afastando. — Lucca! Ele olha por cima do ombro. Por um breve instante, nossos olhos se encontram novamente. Então ele simplesmente desaparece entre os convidados. Fico plantada sozinha no meio da pista de dança. Meu sangue ferve. Minha vontade é correr atrás dele e perguntar quem diabos pensa que é para simplesmente decidir o próximo destino da minha vida sem sequer me consultar. Mas respiro fundo. Uma vez. Duas. Três. Contenho a raiva que subitamente borbulha no peito. Então olho ao redor. Nova York. Minha família. Minhas amigas. Minha casa. Tudo aquilo que estou prestes a deixar. E, pela primeira vez, percebo que talvez minha despedida tenha começado muito antes de eu estar pronta para ela. Faço exatamente o que ele mandou. Começo a me despedir de todo mundo. Depois, vou terminar de arrumar o que importa. Porque, aparentemente, agora minha vida não pertence mais apenas a mim. E meu marido acabou de deixar isso muito claro.
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