Capítulo 3

2874 Words
Madson Davis Faz exatamente duas semanas que eu noivei. Duas semanas desde que o meu mundo foi formalmente redirecionado para o abismo. Duas semanas desde que descobri que o meu futuro havia sido decidido por homens sentados ao redor de uma mesa, enquanto eu sequer estava presente para dar a minha opinião. Desde aquela noite, nunca mais vi o meu noivo. Não sei absolutamente nada sobre ele ainda, exceto que, além de ser absurdamente lindo e de possuir uma seriedade cortante, capaz de impor respeito a qualquer pessoa dentro de uma sala, ele sequer fez questão de olhar para mim de verdade. Eu fui apenas uma assinatura em um contrato de aliança. Um nome. Um sobrenome. Um troféu frio entregue como parte de um acordo. E, sinceramente? Às vezes, ainda me pergunto se aquilo realmente aconteceu. O eco daquele dia continua ressoando dentro da minha cabeça como um pesadelo recorrente. Lembranças on — Não me importo com os detalhes burocráticos ou com o que você acha disso, Gregório. O meu foco principal aqui é firmar a aliança geopolítica, custe o que custar. Lembranças off Aquelas palavras ainda são capazes de fazer meu estômago se contrair. Enquanto elas ecoavam, sinto novamente a mão de Chloe apertando a minha com força, tentando me ancorar naquele momento. Como se pudesse me lembrar de que eu não estava completamente sozinha. Mas o toque dela não conseguiu afastar a sensação asfixiante que me consumiu naquela noite. Naquele momento, eu me senti estritamente como uma mercadoria. Daquelas bem baratas, expostas em uma prateleira de leilão, avaliadas por homens poderosos que decidiam o destino dos outros com um simples aceno de cabeça. E o pior de tudo? Ninguém sequer perguntou se eu queria aquilo. Encaro o teto do meu quarto por longos minutos antes de finalmente me levantar. Hoje está tudo uma verdadeira correria. Meus futuros sogros e os emissários russos chegam a Nova York para finalizar os últimos — e sufocantes — preparativos da mudança. Confesso a mim mesma, sem a menor vergonha, que não estou nem um pouco animada para arrumar as malas e me mudar para a Rússia. Vou sentir uma falta dilacerante de Nova York. Do ritmo caótico desta cidade. Das ruas que conheço desde sempre. Dos lugares onde posso simplesmente sair caminhando sem precisar pensar em alianças, contratos ou segurança. Da minha academia de dança. Do restaurante onde sempre almoço. Da minha moto. Da sensação de liberdade que, apesar de limitada, ainda existe aqui. Porque, na Rússia, eu não faço a menor ideia do que me espera. Talvez eu esteja exagerando. Talvez Lucca Bianchi seja um homem razoável. Talvez ele me trate com respeito. Ou talvez eu esteja prestes a descobrir que a minha vida vai se transformar em uma prisão luxuosa. No meu mundo, riqueza e liberdade nunca foram necessariamente sinônimos. Como na engrenagem da máfia não existe o luxo da escolha, terei que trancar essa saudade a sete chaves e reprimi-la no fundo do peito. Batidas apressadas ecoam na porta, seguidas pela voz irônica da minha confidente de sempre. — Toc, toc! E aí, maminha dos meus olhos? Vamos logo ou vai perder a hora da prova do vestido? Reviro os olhos, mas não consigo evitar um sorriso. — Cadê a mamãe, Chlo? Ela já está surtando de novo? Chloe abre a porta completamente e entra no quarto como se fosse dona dele. — Ela está lá embaixo andando de um lado para o outro. Uma verdadeira linha de nervos ambulante, só porque você ainda não desceu as escadas. — Então vamos logo de uma vez, porque tudo o que eu menos preciso hoje é da mamãe histérica gritando no meu ouvido enquanto eu já estou prestes a ter um colapso nervoso. — Nem me fale. Se a gente demorar mais um minuto, ela vai mandar invadir o seu quarto com um esquadrão de seguranças. — Ela faria isso mesmo. — Faria. — Sem nenhuma hesitação. — Com certeza. Olho para ela. Ela olha para mim. E nós duas começamos a rir. É sempre assim. Mesmo quando tudo parece desmoronar, Chloe encontra alguma maneira de arrancar um sorriso meu. — Vamos, futura senhora Bianchi — ela provoca. Meu sorriso desaparece imediatamente. — Não me chama assim. — Por quê? — Porque parece o nome de uma mulher que já aceitou a própria sentença. — Você ainda não aceitou? — Nem um pouco. — Então estamos ótimas. — Como assim? — Eu também não aceitaria no seu lugar. — Obrigada pela solidariedade. — Disponha. Descemos às pressas. Mamãe, como esperado, está nos esperando na sala com uma expressão que praticamente anuncia uma crise diplomática. E, como também era esperado, passa a viagem inteira de carro reclamando do trânsito caótico de Nova York, olhando para o relógio a cada poucos minutos e falando sobre a ansiedade para o grande dia. Até que finalmente chegamos ao ateliê de alta-costura. Assim que descemos do carro, minha mãe segura meu braço. — Está me ouvindo com atenção, Madson? Acredite em mim, você vai precisar muito dos conselhos que estou tentando te dar de graça. — Estou ouvindo, mamãe. — Eu sei, meu amor, que você está brava, magoada e profundamente triste com tudo isso. E acredite de verdade: eu sei o quão horrível é deixar sua casa, sua família, seus costumes e suas raízes para trás, tendo que ir morar em um lugar totalmente desconhecido, frio e intimidador. Ela faz uma pequena pausa. — Mas nós simplesmente não temos escolha, Mad. Baixo os olhos. — Eu sei. — Quando eu saí da Albânia, anos atrás, para vir para cá, achei que jamais encontraria neste país uma sensação real de lar. Tudo era terrivelmente estranho e, no início, até dolorosamente solitário. Seu pai era um homem excessivamente ocupado com a guerra dos negócios e quase não tinha tempo para mim. Minha mãe suspira. — Eu passava a maior parte do meu dia sozinha, trancada em uma mansão blindada. Tinha tudo o que uma mulher poderia desejar materialmente, mas ainda assim me sentia completamente deslocada. Olho para ela com atenção. — E o que você fez? Ela sorri. — Eu parei de esperar que alguém viesse salvar a minha solidão. A resposta me pega desprevenida. — Tomei iniciativa. Conheci algumas pessoas dentro da máfia e, foi assim, claro, que conheci a sua tia Mary. Nós nos tornamos amigas inseparáveis até hoje. — A tia Mary realmente é impossível de separar de você. — Porque ela é uma peste. Chloe ri ao nosso lado. — Finalmente alguém falou. Mamãe aponta para ela. — Você não se meta, Chloe. — Eu nem falei nada. — Seu rosto falou. Nós três rimos. Minha mãe continua: — Assim como eu, a Mary também tinha vindo de outro canto do mundo. Nós tínhamos histórias diferentes, mas carregávamos a mesma sensação de não pertencer. Quando seu pai finalmente conseguiu estabilizar o império, tudo mudou para melhor. Mas nada disso teria acontecido se eu mesma não tivesse dado uma chance ao destino e tentado construir algo a partir do zero. Engulo em seco, sentindo o peso das palavras dela ressoar de uma maneira diferente agora. Talvez ela esteja certa. Talvez eu não possa escolher o que está acontecendo comigo, mas ainda possa escolher quem vou ser dentro dessa nova vida. — Entendi perfeitamente, mamãe — respondo em um sussurro sincero. — Vou guardar e seguir o seu conselho. Ela acaricia meu rosto. — É só isso que eu quero. Não quero que você vá para a Rússia acreditando que sua vida acabou. Ela só está mudando. — Às vezes, parece a mesma coisa. — Eu sei. Dessa vez, ela não tenta argumentar. Apenas me abraça. E talvez seja exatamente disso que eu precisava. Logo depois, entramos no ateliê luxuoso e, a partir daquele momento, sou praticamente arrastada para uma maratona de vestidos de alta-costura. Um vestido. Depois outro. Mais um. E outro. Em determinado momento, tenho certeza de que estou vendo tule até quando fecho os olhos. — Esse não — digo, olhando para o espelho. — Por quê? — pergunta Chloe. — Porque parece que eu fui embrulhada para presente. — Você está exagerando. — Chloe, tem uma camada de tecido maior do que a minha cama. Minha mãe observa o vestido. — Talvez seja um pouco exagerado. — Obrigada, mamãe. — Mas ainda podemos colocar mais volume na saia. — MAMÃE! Chloe começa a rir. — Eu sabia! Depois de horas de debates, opiniões, ajustes, alfinetes e uma quantidade absurda de brilho, finalmente encontramos o modelo. Perfeito. Suntuoso. Elegante. Exatamente o tipo de vestido que uma noiva deveria usar em um casamento que provavelmente será observado por metade do submundo internacional. Só que, quando olho para o meu reflexo, não consigo enxergar uma noiva. Enxergo uma garota de vinte e um anos prestes a deixar tudo o que conhece para trás. Enquanto caminhamos de volta para o carro, Chloe me olha de relance com curiosidade. — A propósito… faltam quantos dias exatamente para o casamento oficial? Solto um suspiro. — Apenas três dias, Chlo. — Três? — Três. — Nossa. — Pois é. — Está chegando a hora da verdade. — Ou do meu apocalipse pessoal. Ela ri baixinho. — Você está realmente determinada a dramatizar tudo. — Eu estou prestes a me casar com um homem que m*l conheço e ir morar do outro lado do mundo. Acho que tenho direito a um pouco de drama. — Justo. Ficamos alguns segundos em silêncio. Então aproveito a oportunidade. — Chlo… — Hum? — Você que já esteve na presença dele e passou mais tempo perto daquele círculo do que eu… por favor, me abra o jogo. Ela me olha. — Sobre? — Sobre ele. O sorriso dela desaparece aos poucos. — Mad… — Me fale um pouco mais sobre o Lucca. O que você conseguiu notar? Chloe faz uma careta de hesitação, desviando o olhar para a vitrine de uma loja na calçada. Meu coração começa a bater mais rápido. — É melhor a gente não ir por esse caminho agora, Mad. — Por quê? — Porque sinto que você vai acabar se estressando ainda mais. — Isso não foi uma resposta. — Eu sei. — Então quer dizer que tem algo muito sério que eu não vou gostar absolutamente nada de saber, né? — Tem, sim, Mad. Meu estômago dá uma guinada. — Chloe! — Mas, com certeza absoluta, não serei eu a pessoa que vai abrir a boca para te contar os detalhes. — Por quê? — Porque eu prefiro preservar a minha pele. — Isso não me tranquiliza nem um pouco. — Eu sei. — Ele é um monstro agressivo? — Não. — Um psicopata? — Também não. — Um homem que coleciona cabeças? — Madson! — Estou tentando descobrir as possibilidades! Chloe suspira. — Pelo pouco que eu pude observar e absorver da personalidade do Lucca, percebi nitidamente que ele é um cara muito diferente do padrão que a gente conhece na máfia. — Diferente de que jeito? — Ele é muito fechado. — Isso eu já percebi. — Observador. — Péssimo sinal. — Não necessariamente. — Intimidador. — Bastante. — Então você está me ajudando muito. — Estou tentando! Ela segura meu braço. — Escuta. Eu não acho que ele seja um homem que vai simplesmente te tratar como lixo. — Você acha? — Acho. — Tem certeza? — Dentro do que eu consegui perceber, sim. — Mas você não está me contando tudo. Chloe me encara por alguns segundos. — Porque algumas coisas não cabem a mim contar. — E quem vai contar? — Ele. — E quando? — Quando vocês finalmente conversarem de verdade. Solto uma risada sem humor. — Ótimo. Meu futuro marido vai ser a última pessoa do mundo a me explicar o que está acontecendo na minha própria vida. — Bem-vinda à máfia. — Eu odeio essa frase. — Eu sei. Ela entrelaça o braço no meu. — Mas, Mad… ele tem códigos próprios. É um homem que parece carregar muita coisa dentro da cabeça. Não é alguém que demonstra facilmente o que pensa. — Isso significa que ele é perigoso? — Significa que você vai precisar conhecê-lo antes de decidir quem ele é. Fico em silêncio. Talvez ela tenha razão. — Agora chega de interrogatório — Chloe decreta. — Vamos mudar radicalmente de assunto antes que eu fale o que não devo. — Está bem. — Diga-me: o que você pretende fazer com as suas preciosas aulas de balé quando estiver lá na Rússia? Meu peito aperta imediatamente. — Ah, Chlo… — O quê? — O que você acha que eu posso fazer? — Continuar. — Não tem o que inventar. Vou ter que parar de vez, não é? Ela franze a testa. — Por quê? — Vou pendurar as sapatilhas. — Mas por que essa resignação toda? — Porque eu não sei nem que tipo de vida vou ter. — E você já decidiu desistir antes de descobrir? — Não é tão simples. — Na verdade, é. Você ama dançar. — Amo. — Então lute por isso. — Chloe… — Você por acaso sabia que na Rússia existem algumas das maiores e mais renomadas academias de balé clássico do mundo inteiro? O país respira dança! — Sabe Deus se poderei frequentar uma delas. — Você não sabe porque ainda não perguntou. — Eu nem sequer conheço o meu futuro marido. Não sei se ele vai me trancar em uma redoma de vidro ou me dar liberdade para caminhar na rua. — Você está imaginando o pior cenário possível. — Estou sendo prudente. — Está sendo pessimista. — Talvez. Respiro fundo. — Por enquanto, decidi que vou parar de dar aulas e ensaiar. Depois eu vejo o que faço. Chloe me observa com uma expressão preocupada. — E o seu sonho? Meu olhar cai para as minhas mãos. — Alguns sonhos simplesmente não foram feitos para acontecer. — Não fala isso. — É a verdade. — Não. É o medo falando. Fico em silêncio. — De qualquer forma — continuo —, sendo bem realista, eu jamais poderia participar de uma grande competição internacional de ponta. — Você não sabe disso. — E existe outro fator pior ainda. — Qual? — Eu já estou ficando velha para o meio artístico profissional. Chloe solta uma gargalhada incrédula. — Pelo amor de Deus, Madson! Você tem vinte e um anos recém-completados! Isso nem de longe, em nenhum universo paralelo, é ser velha para coisa alguma. — Para a minha profissão e para o padrão das companhias de dança clássica, infelizmente é, Chlo. — Não é. — É complicado. — Mad… — Bailarinas com mais de vinte e um anos que nunca subiram a um palco profissionalmente simplesmente não são valorizadas ou sequer consideradas pelas grandes companhias. O corpo exige juventude extrema, flexibilidade absoluta, preparação desde muito cedo… e o meu tempo útil está escorrendo pelos dedos. Chloe fica alguns segundos em silêncio. Então aperta minha mão. — Talvez você não precise de uma grande companhia para continuar sendo bailarina. Olho para ela. — Talvez você só precise continuar dançando. Aquelas palavras ficam dentro de mim. Continuamos conversando animadamente durante todo o trajeto de volta para casa. Nós somos muito mais do que simples irmãs de sangue. Somos melhores amigas. Confidentes. As únicas guardiãs dos segredos mais profundos uma da outra. Chloe conhece meus medos, minhas inseguranças, meus sonhos e até aquelas pequenas manias que eu jamais admitiria para outra pessoa. E eu conheço os dela. Por isso, enquanto olho para ela no banco do passageiro, percebo, pela primeira vez naquele dia, o tamanho do vazio que vou carregar no peito. Em apenas três dias, vou me casar. Em apenas três dias, vou deixar Nova York. Minha casa. Minha família. Minha academia. Minha dança. Minha rotina. Tudo aquilo que, mesmo dentro das limitações da nossa vida, fazia com que eu soubesse exatamente quem eu era. E vou partir para um país onde tudo será desconhecido. Um marido que ainda é praticamente um estranho. Uma família que não conheço. Uma cultura diferente. Uma casa que provavelmente será enorme, luxuosa e fria. E, acima de tudo, uma nova vida que não escolhi. Olho novamente para Chloe. Ela percebe meu olhar. — O que foi? — Nada. — Madson. Sorrio. — Vou sentir saudade de você. Ela faz uma careta. — Você vai me ver. — Não vai ser a mesma coisa. — Não. Ela segura minha mão. — Mas não vai deixar de ser nós duas. Sinto meus olhos arderem. — Promete? — Prometo. Aperto os dedos dela. E, naquele instante, finalmente permito que a verdade me atinja por inteiro. Vou sentir tanta, mas tanta saudade disso tudo… Talvez essa seja a parte mais c***l de deixar uma vida para trás. Não é o lugar. São as pessoas. As pequenas coisas. As lembranças. A sensação de pertencer. E, enquanto o carro segue pelas ruas movimentadas de Nova York, observo pela janela cada prédio, cada esquina e cada pedaço da cidade que aprendi a chamar de casa. Em três dias, tudo isso ficará para trás. E eu ainda não sei se estou pronta para descobrir o que existe do outro lado.
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