Capítulo dois.

1417 Words
Sou livre e nada me prende. Efêmera - significa, apenas por um dia. Eu queria que isso pudesse definir meus pensamentos contraditórios desse primeiro dia de aula. Acordei por volta das seis horas, na verdade, não consegui sequer pregar os olhos pois minha ansiedade impediu-me de ter uma maravilhosa noite de beleza. Me olhei no espelho, ótimo, os olhos inchados e avermelhados, e uma quantidade infinita de sardas que cobrem praticamente todo o meu rosto. No orfanato me chamavam de sardenta, não que eu me importe ainda, agora que estou mais velha eu sei que eu sou. Pego a escova de cabelo com os dentes macios, e passo pelos meus fios longos até a altura dos s***s, exageradamente ruivos. Faço uma trança embutida, não ficou tão m*l. Visto minhas tradicionais botas com um mini salto na cor marrom, uma calça jeans desgastada, uma regata preta e pronto, estou mais ou menos preparada para ir. Antes de sair, passo uma maquiagem sutil, para esconder as olheiras e dar um pouco mais de vida em meu rosto sem graça. Afinal, beleza não é meu forte. Na verdade, eu mudei muito desde que me tornei uma Cuthbert, e com certeza, a beleza finalmente decidiu me atingir, ainda que de uma maneira não muito clara. Desço até a cozinha, Marilla já havia preparado o café da manhã, waflles são sempre bem vindos. — Bom dia Marilla — digo. — Bom dia Anne, vejo que hoje está bem alegre. — Na verdade, um pouco ansiosa. E com medo do que vão achar de mim. — Não importa o que pensam de você Anne, importa o que você é. — Acho que isso não vale muito para o colegial. — Jerry chega hoje. — Ótimo, então amanhã seremos dois paspalhões de Springdale. — Não diga isso Anne, você ficará bem. — O fato de confiar em mim já é o suficiente Marilla. Obrigada. Olho para o relógio pendurado na parede da cozinha. — Oh céus, devo ir! Pego a mochila e corro em direção a moita em que conheci Diana. E ela está lá. De imediato, ela observa minha roupa e meus cabelos, e eu faço o mesmo. Ela usava um laço azul nos cabelos negros, uma regata branca, uma saia rodada azul, e sapatos boneca, e carrega um livro nos braços enquanto sua mochila jeans pendia em seu braço direito. — Certo — ela diz e sorri — você deveria soltar o cabelo, colocar a regata por dentro da calça jeans, usar uma gargantilha e passar um batom morango. Ela coloca a mochila no chão e pega o batom e a gargantilha, solta minha trança e sacode meu cabelo, coloco a regata dentro da calça, e ela passa o batom em minha boca enquanto eu tento achar o fecho da gargantilha. — Anne, o colegial é coisa de sobrevivência, entendeu? — ela diz — não é brincadeira, muito menos fácil. Não saia de perto de mim. Ontem a noite descobri que você está na minha sala, vou te apresentar o colégio e por favor, não seja amiga da Josie Pye, eu falo com ela só para não piorar a situação entre nós, faça o mesmo. Assinto. — E tem mais alguém que eu não deva confiar? — Billy Andrews, ele e Josie Pye são um casal e são monstruosos. — Certo. — Agora vamos passar ali naquela rua e chamar a Ruby pois ela sempre me acompanha. Você precisa conhecer o máximo de pessoas legais para sobreviver a isso. Assim que chegamos na porta de Ruby, a jovem garota loira com cachos até a cintura me encarou e encarou Diana um pouco surpresa. Ela usava uma boina rosa, e era extremamente estilosa. Uma jaqueta jeans amarrada na cintura de sua calça jeans clara e uma blusa ombro a ombro branca. A mochila dela era parecida com uma maleta, e sua maquiagem era sutil mas dava pra saber que ela usava. — Você não me disse que tínhamos companhia — ela falou. — Ruby, essa é a Anne. — Diana disse enquanto apontava para mim — é minha nova vizinha da frente e vai estudar conosco. — Oi Anne — ela pronunciou corretamente — meu nome é Ruby Gillis. — É um prazer. — digo e ela me cumprimenta com um beijo no rosto. — Estou explicando pra Anne que a vida em Colege Springdale não é fácil. — Não é mesmo — Ruby joga os cachos para trás — principalmente quando o crush não dá nenhuma moral pra você. — Crush? — encaro elas — o que é isso? — Como assim você não sabe o que é um Crush? — Ruby da risada — bom, o crush é alguém que a gente gosta. Balanço a cabeça demonstrando que entendi. — Mas Gilbert Blythe nunca olha para Ruby. — Diana brinca — ele volta hoje de viagem. — Se ele não olha é porque é um bobo, a Ruby é linda! — Você acha? — ela acaricia os cachos — obrigada! — De nada — ergo os ombros. Assim que avisto o grande prédio há poucos quilômetros de distância, sinto um calafrio perdurar em meu estômago enquanto anseio a liberdade de escolher não ir. — Certo é agora. — digo nervosa. — Tudo irá bem, não se preocupe Anne. . . . Uma aglomeração no centro do colégio, bem onde se localiza os armários. — O meu armário é o duzentos e três — digo enquanto seguro a chave. Ruby me encara e revira os olhos. — Eu sempre quis esse armário e ninguém nunca me deu. — O que? Por que? — pergunto. — É o armário ao lado do Gilbert. Mordo o lábio inferior e sinto o gosto do batom de morango da Diana. — E toda aquela gente ali deve estar comemorando a chegada do garoto? — pergunto. — Sim. — Diana diz, ele é extremamente popular. — E inteligente e gentil e gato — diz Ruby com o olhar apaixonado. — Vamos Ruby para o nosso armário. — Diana segura na mão dela — daqui a pouco nos vemos Anne, voltamos para te buscar. — Ou para ver o Gilbert. Caminho rumo a aglomeração me concentrando para não tropeçar em meus próprios pés, o que é em vão. A multidão é tão grande que quase não consigo me enfiar dentro dela. Tento pedir licença mas ninguém me ouve, até que tropeço no pé de alguém e acabo caindo bem na frente do garoto popular e mesquinho. As pessoas me encaram, e ele me dá a mão mas eu evito tocá-lo, somente ergo os olhos para vê-lo. Bom, nada m*l, cabelo preto, branquinho, olhos verdes e um sorriso atraente e reconfortante. Sinto meu cenho franzir, e faço o possível para que ele não perceba. Assim que me levanto, me recomponho e dou batidinhas nos joelhos para tirar o ** que se acumulou lá. As pessoas dão risada, comecei com o pé esquerdo, ótimo. — Eu sou Gilbert Blythe — ele me dá a mão antes que eu pudesse tirá-la — você é nova aqui? Tento respirar fundo mas é como se o ar tivesse acabado e o oxigênio não fosse suficiente para encher meus pulmões vazios. — O que acha? — respondo grosseiramente. — Acho que sim, e que começou com o pé esquerdo. — Ótimo então. — digo. Abro o armário e coloco minhas coisas dentro dele, só fico com um caderno e um livro que estou lendo da Jane Eyre. Ele arregala os olhos e comenta: — Esse livro é muito bom. Permaneço ignorando-o. Fecho o armário e avisto Diana e Ruby chegando. Perfeito, agora a garota vai pensar que eu sou uma péssima pessoa a quem confiar, pois estou falando com o "crush" dela. Me viro de costas para ele, e as meninas estão cada vez mais perto. — Espere! — ele pousa a mão em meu ombro e eu olho de soslaio para a mão quente e firme dele — me diga ao menos seu nome. — Para quê quer saber? — falo — você não tem "jeito" de ser alguém que se importa com os novatos. — Wow — ele solta — eu não sabia que novatos tiravam conclusões precipitadas e por sinal equivocadas. O encaro e não digo nada. — Não vai me dizer? — ele insiste. — Não Sr. Gilbert Blythe, eu não vou lhe dizer. — falo brava — se quiser saber, descubra. — Certo — ele pisca repetidas vezes — quando você voltar para o armário, eu lhe darei a resposta. — Só porque nosso armário é grudado, não significa que vamos nos encontrar todas as vezes. — É — ele ergue os ombros — mas eu espero que sim. Reviro os olhos e vou em direção as garotas. Ruby me observa com os olhos semicerrados, e assim que me junto a elas ela diz: — Por que estava falando com ele? — Acredite em mim, eu quase não falei. E logo após responder a pergunta um tanto intimidadora de Ruby Gillis, vamos para a sala de aula. . . .
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