Obstinada como a juventude
Enquanto Ruby enaltecia todas as qualidades de Gilbert Blythe, as qualidades quais eu não acho que existam, caminhávamos para sala de aula. Eu estava com um frio na barriga pois sabia que entrar na sala depois do tombo que tomei por causa dos fãs de Blythe seria difícil. Assim que nós três cruzamos o batente de madeira onde se localizava a porta, as pessoas pararam de falar e me olhavam sem nenhuma descrição. Diana se inclinou e falou em meu ouvido:
— É aqui que a pior parte começa.
Movimentei a cabeça em um gesto de concordância. E tentei respirar fundo mas não consegui, novamente Gilbert Blythe estava lá, ótimo. Antes que eu pudesse caminhar, um garoto loiro com olhos escuros veio até nós com um sorriso cínico e arrogante.
— Ora, ora — sua voz era sarcástica — se não é a garota nova.
Ele passou a mão na ponta de meu cabelo e eu não consegui fazer nada. Ruby de imediato tirou a mão do garoto do meu cabelo e falou com prepotência:
— Não mexa com ela Billy.
Engoli em seco o nó que se formou em minha garganta, então aquele era o garoto monstruoso em que Diana havia falado, agora só faltava a garota, onde estava ela? Percorri os olhos na sala, sem saber exatamente quem era a Josie Pye.
— Bom dia classe — a professora entrou.
Diana e Ruby correram e se sentaram, a mesa era uma bancada, que cabia exatamente duas pessoas. Eu não sabia onde ia, então fiquei parada enquanto a professora abria a maleta e tirava seus materiais de dentro.
— Você deve ser a garota nova que veio de Avonlea — ela me encara e eu assinto — apresente-se para a turma.
Encaro os alunos da classe que me observam sem nenhuma descrição. E vejo uma garota loira com cabelos cacheados sentada ao lado do tal Billy, certamente era a Josie Pye, que cochichava algo enquanto eu perdia completamente meu foco. Pouso os olhos em Gilbert, que está sentado sozinho, ele sorri com certeza feliz por não ter que descobrir meu nome por conta própria.
— Me chamo Anne com E no final por favor.
— Certo Anne com E no final, vejamos um lugar vazio — ela diz.
Seus olhos pairam no ambiente até que ela aponta para a mesa de Gilbert Blythe, e eu torço mentalmente para não ser obrigada a sentar lá.
— Blythe, estou feliz que está de volta.
Ele mexe a cabeça em um "eu também".
— Como Blythe voltou agora e você não tem dupla e nem ele, pode se sentar ali.
Sinto minha face contrair de insatisfação. Que porcaria!
— Bom Anne, acho que não preciso ir até o armário para saber seu nome — seu riso é irônico.
— Por favor — falo — evite falar comigo o máximo possível.
— Ué por que? — seu cenho se franze — eu nunca te fiz nada.
Ignoro-o e encaro a professora.
— Hoje falaremos sobre o corpo humano. — diz ela.
Pego uma apostila debaixo do balcão e percebo que Gilbert não tem nenhuma.
— Essa apostila é para a dupla — ele diz.
— Certo.
— Abram da página treze, falaremos em um contexto geral.
— Aulas de biologia às vezes são entediantes, mas você tem que ver ela dando aula de mecânica. É genial — ele tenta puxar assunto.
— Eu não sabia que ela dava várias matérias.
— Sim, são várias.
Tento abrir um sorriso, mas desisto. Estou me sentindo pressionada demais sendo observada por Ruby. Olho para trás, e os olhos dela estão mais concentrados em mim e no garoto do que na apostila.
— Como era a vida em Avonlea? — sua voz é calma e sedutora por mais que ele não tenha a intensão de me seduzir.
— Maravilhosa — digo grosseira — principalmente porque não tinha ninguém tentando me forçar a conversar.
Ele ergue os ombros. E mantém o silêncio. Agradeço mentalmente, até que ele começa a perguntar mais coisas, finjo não ouvi-lo. O que ocasiona em um puxão de cabelo. Fecho a apostila e lhe retribuo o gesto agressivo com uma apostilada na cabeça.
— Shirley e Blythe — a professora nos encara — eu não gosto de violência em minha sala de aula.
Mordo o lábio inferior enquanto sinto minhas bochechas ferverem.
— A culpa foi minha professora — fala Gilbert — eu puxei o cabelo dela e ela retribuiu.
— E por que fez isso? — diz com uma entonação curiosa.
— Estava tentando fazê-la falar comigo.
O encaro enquanto a turma toda solta murmúrios baixinhos contendo malícia.
— Bom Anne, é necessário manter o diálogo com sua dupla, afinal, ficará com ele até o último dia do ano.
Respiro fundo e digo:
— Certo, desculpe ignorá-lo.
— Após a aula os dois aqui em minha mesa. Os demais estão liberados.
Concordamos e me sento. O garoto me encara com um olhar sarcástico como se estivesse cantando vitória. Mas isso não ia ficar assim, eu não sou uma garota qualquer e ele não faz ideia de como ruivas tem o temperamento forte.
. . .
— Marilla, ele puxou o meu cabelo e eu devolvi dando uma apostilada em sua cabeça — falo para Marilla que saboreia um delicioso chá enquanto assiste um programa de cozinha.
— Talvez devesse somente comunicar a sua professora — ela me olha — sabe... Garotos tem esse espírito atentado mesmo.
— Em resultado a isso, ela nos colocou em dupla em todas as outras matérias. Até teatro, mecânica — falo insatisfeita — matérias que seriam boas para eu me desenvolver.
Sento no sofá e a campainha toca.
— Deve ser Jerry — ela diz feliz.
Matthew desce as escadas e caminha até a porta enquanto eu continuo sentada no sofá com os braços cruzados pensando em como seria minha vida morando com alguém completamente estranho em minha vida. Isso não era tão difícil, mas as mudanças sempre são diferentes uma das outras.
— Bonjour Tio Matthew — a voz incorporada invade meus ouvidos.
— Oh Jerry querido — diz Marilla.
Escuto os abraços, beijos e alegria, mas não me viro para ver meu curioso primo distante e estrangeiro, vindo da França para atormentar meu sossego.
— Essa é nossa filha Anne.
Levanto-me e caminho até ele.
Alto, cabelo preto levemente jogado para o lado em seu corte bizarro com toque francês. Ele veste um suéter aparentemente quentinho e uma boina francesa estilosa.
— Oi Jerry — digo.
— Bonjour — ele diz risonho.
Quanta alegria, até me deixa mais alegre.
— Anne leve Jerry até o quarto dele, vou colocar a mesa para o jantar.
— Tá bom.
Subo e peço para Jerry me acompanhar, ele vai comigo e quando entra no quarto fica encantado, consigo ver o brilho em seus olhos pretos que parecem jabuticabas.
— É um lindo cômodo.
— Marilla preparou com muito carinho — digo — espero que sejamos amigos.
— Seremos sim, sem dúvidas. — ele sorri.
Fecho a porta para deixá-lo a vontade e desço as escadas da pequena casa da cidade. Pedindo mentalmente para voltar para Avonlea, e cavalgar na Belle, ou então, pegar os ovos das galinhas para o café da manhã. Caminhar perto do lago das águas brilhantes.
Saudades de casa, ah saudades da Anne que eu podia ser lá.
. . .