Estava entediada. E sentia que o tempo passava lentamente. Isso pelo menos até achar a mina de ouro real dos Bieber. Uma maravilhosa biblioteca. Livros sempre me tiraram de qualquer tédio. E passei a ficar horas ali. Tanto tempo que me aproximei da empregada responsável por manter o local, limpo e organizado. Maryenne, aos 30 anos possuía longos cabelos negros sempre presos em uma trança bem-feita. É paciente e amável. Lhe consultava constantemente em busca de sugestões já que ali possuíam tantas opções. Indicou-me muitos livros, alguns sobre o Reino.
Os Bieber são os nobres responsáveis pelo reino de Eunion e o castelo dourado fica localizado na capital Libarty. Isso não era uma novidade para mim, já que aprendi um pouco sobre cada família no instituto. Mas não sabia alguns detalhes como o fato de suas construções seguirem um estilo vintage conhecido como art déco. O motivo era que o antigo movimento artístico ressaltava os materiais que os Bieber tinham em abundância como o ouro. Ao saber da informação passei a admirar e analisar ainda mais os detalhes da decoração e os trabalhados painéis que estavam disposto por todo castelo.
A empolgação com a nova informação, no entanto se perdeu quando notei a movimentação anormal dos funcionários. Quando questionei a Sophie sobre do que se tratava. Ela me informou que todos estavam trabalhando duro para preparar o castelo para o jantar de família. Pelo que entendi os demais irmãos de John estariam vindo para este evento. Fui inundada de alegria. Finalmente teria mais pessoas para interagir. Não que não goste dos empregados. Mas minha intuição dizia que muitos deles não eram realmente confiáveis. Exceto por uns poucos, como Sophie e Maryenne. Sophie na verdade prontamente respondia qualquer pergunta minha. Ela mantém-me informada de tudo que acontece no castelo. Além de contar coisas relevantes. Como o fato de que a maioria dos Bieber´s não vive no castelo. Nem mesmo John e Jason costumam ficar nele. Cada um por seu motivo. John passava muito tempo fora graças a guerra e sua posição como general. Já Jason, assim como ele mesmo citou, esteve fora por anos fazendo expedições marítimas.
Questionei Sophie sobre os demais filhos de Jeffrey. Contou-me que Jeffrey teve 12 filhos e 4 esposas oficiais. Sendo que ela me passou praticamente uma ficha rápida de cada um. Mas eram tantos que na hora que ela os descreveu tudo pareceu apenas um novelo de informações. Apenas fui compreender durante o jantar em si.
Naquele dia, Sophie acordou-me cedo como lhe pedi. Ela e Maryenne ajudaram-me com as vestimentas e aprontaram-me para o dia. Usava um vestido bordado branco de um tecido leve. Uma peça delicada e jovial. Que caia bem no clima ameno. A maioria dos dias sentia que Eurion era mais afetado pela radiação solar que o restante de Edenia.
Ao fazer meu caminho para a sala de café-da-manhã. Encontrei o castelo já com algumas das decorações de festa que estavam sendo preparadas para o jantar. As faixas douradas com o leão rugindo em preto no centro. As estatuas de leão e vários arranjos de flores. Confesso que estava impressionada com a rapidez que os funcionários do castelo conseguiram decorar tantos ambientes. Mas também questionava se não era um exagero já que teoricamente se tratava de um jantar em família. O que em minha mente se tratava de algo bem mais intimista.
E mesmo que a ideia de um jantar agradava-me. Tinha também a questão, o fato, de os empregados terem passado o dia todo preparando a comida e a recepção o que me privou de tempo com minhas duas únicas companhias. E com as duas tão atarefadas quanto qualquer outro funcionário tive que vagar pelo castelo sozinha. A única coisa que manteve minha mente ocupada foi novamente buscar meu refúgio na biblioteca. Onde forcei-me a encontrar um bom livro sem ajuda. No fim, mesmo fora do instituto eles continuam sendo meus melhores amigos. Vagando pelas inúmeras prateleiras percebo livros sobre temas muito mais variados. Alguns se quer tinha ouvido falar. Acredito que isso se dê pelo fato de lá no instituto eles evitarem alguns assuntos. Como política. Já que provavelmente não buscavam nós influenciar nesse quesito.
Tenho noção que sou muito mais letrada que qualquer plebeia. Talvez seja mais culta que muitas nobres. Entretanto, sinto-me incomodada pela possibilidade de ter sido treinada para pensar do jeito que penso. Assombrada pela ideia de lavagem cerebral. Atormentada pelo conhecimento de que algumas coisas podem ter sido omitidas propositadamente. No fundo todos somos apenas o resultado das somas e subtrações de informações. As omissões e a falta de informação compõem também parte importante do resultado de nossos ideais.
Os questionamentos filosóficos me abandonam quando os meus olhos repousam na lombada verde musgo com letras em hot stamping prata. Um exemplar em perfeito estado do meu livro de contos infantis favorito “a menina e o lobo”. Perdi a conta de quantas vezes li este conto. O responsável por minha paixão em literatura. Gostava muito da sua moral sobre como seres tão diferentes podiam cultivar uma bela amizade. Passei um bom tempo relendo o livro infantil. Era um texto curto na verdade. Em poucas horas já o tinha terminado. Mas distraiu-me tempo o suficiente para que quando o terminasse estivesse na hora de me arrumar para o jantar.
Devolvi o livro a prateleira em estado tão bom quanto o havia retirado. Esperando que em breve o mesmo encantasse outra garotinha. Notei então que havia um espaço vago algumas prateleiras ao lado de onde estava. Tento, mas falho em me lembrar se havia pegado outro livro. Julguei que alguém o pegou e ainda não o devolverá a seu devido lugar. Parte de mim se alegrou com essa percepção. Durante os últimos dias estive pensando em como era triste um acervo tão rico não estar sendo propriamente aproveitado. A constatação de que o local era usado por mais alguém além de mim animou-me.
Caminhei em direção ao meu quarto mantendo a animação. Acredito na verdade que ela se elevou ao constatar que teria no mínimo 12 chances de encontrar alguém interessante para conversar. Além obviamente de ser uma oportunidade para dialogar com meu marido. Desisti de evitá-lo no fim das contas. Afinal parecia que ele se saia muito melhor fazendo isso do que eu. No fim, não podíamos fugir um do outro, somos casados. E acredito que o melhor caminho para a felicidade seja que nos demos bem.
Após arrumar-me, vestindo um vestido mais formal também em branco de mangas compridas, sigo para a recepção. Um dos cômodos que se assemelhava a uma sala com dois sofás de veludo de seis lugares e algumas poltronas Luís XV ao redor de uma mesa de centro de vidro onde agradaríamos pela chegada dos convidados.
John caminhou decidido e assentou-se em uma das poltronas. Senti-me observando os movimentos de um leão. Ele possui um ar imponente e parecia distraído com seus próprios pensamentos. Ele usava uma roupa mais casual do eu esperava. Nada de capa com o leão hoje. Mas ainda sim bem-vestido como sempre. O suficiente para que eu me sentisse apenas como uma mera camponesa ao seu lado. Ligeiramente desconfortável me sento na poltrona disposta ao seu lado, imaginando que em breve os demais lugares estariam ocupados e preferia não estar entre completos desconhecidos.
Nos minutos silenciosos que se seguiram o admirei discretamente. Porém, em determinado momento ele me flagrou lhe encarando. Senti que meu coração ia sair pela boca. Mas quando ele fez alusão de que ia dizer algo um dos empregados nos informou da chegada de Mark. Logo um homem alto de cabelos negros atravessou a porta recém-aberta acompanhado da esposa e três crianças. O que me impediu de pensar mais qualquer coisa sobre o momento constrangedor de segundos atrás. Lembrei-me rapidamente da ficha que Sophie falou sobre cada integrante da família. Agora havia encontrado a ponta do novelo. Mark era apelido de Markenzie, o segundo filho de Samantha, a primeira esposa de Jeffrey. Como ela certamente supôs seria o primeiro a chegar por morar no próprio castelo não muito longe daqui. Ele tinha uma postura seria e transmitia maturidade. Mark na ausência de Jason se tornou o responsável por cuidar de parte dos negócios da família. Ou seja, ele cuidava das minas. Ouvi o mesmo advertir as crianças para não tocar em nada. Sua esposa Emily parecia igualmente tranquila. E pelo olhar afiado sobre os três filhos era uma mãe atenciosa e preocupada. A forma como os dois meninos pareciam agarrar a barra de seu vestido, dizia que ela era uma mãe amorosa e ambos se sentiam protegidos ao seu redor. Já a menina que caminhava a frente dos demais. Mostrava confiança.
—É um prazer revê-lo, irmão— Mark disse cordialmente. Aproximando-se o suficiente para dar um aperto de mão com o irmão e me lançar um aceno simples com a cabeça de forma educada e distante.
Emily por sua vez apertou a minha mão e a do John.
—É um prazer vê-los— John disse igualmente cordial. Porém existia algo a mais em sua voz— eles cresceram tanto— ele fez referencia as crianças e então compreendi o que existia a mais em sua voz. Era uma animação anormal. Seus olhos pareciam iluminados ao encarar os sobrinhos. Verdadeiramente deslumbrado. Jamais o vi assim.
—Oi, tio J— a menina correu para seus braços e ele prontamente a recebeu. Abraçando-a de volta.
—Olá pequena Tj, você está gigante! —ele respondeu a menina, que pareceu lisonjeada com o elogio. Parecendo até mesmo outra pessoa. Nunca tinha visto esse seu lado.
—Um dia eu vou passar do papai— a menina disse confiante. Foi impossível conter o sorriso com sua inocência.
— Com certeza vai — ele brincou. John brincou?
Vi a menina desviar seu olhar dele para mim.
— É verdade que ela é sua esposa? — Tj disse apontando com o indicador para mim.
Quase ri com o ato, mas percebi-me curiosa sobre a resposta de John. Ele pareceu pensar antes de dizer algo.
— Sim, está é minha esposa — por fim, ele confirmou simplesmente. Porém deu um grande sorriso a garota. Que pareceu apreciar a informação.
Em seguida, a pequena colocou uma das mãos em frente a boca, como se contasse um segredo, no entanto sua voz foi bem audível para todos os presentes.
—Ela é muito bonita — Tj disse e desta vez foi impossível conter o riso. Sua fofura deixava-me anestesiada.
—Olá, mocinha. Como é o seu nome? — a questiono.
—Olá, eu sou Taylor Janette Bieber. Mas pode me chamar de Tj. — Indagou animada, exalando confiança e independência— Eu tenho 7 anos, mas logo farei 8— continuou.
— É um prazer conhece-la Tj. Eu sou Stefany Bieber e tenho 18 anos — disse igualmente confiante.
—Olha você também é Bieber — ela disse surpresa e correu de volta para os pais para lhes contar sua descoberta.
—Este são Tyler e Thomas, eles são mais tímidos que a irmã —Mark disse fazendo referência aos dois meninos que ainda se escondiam atrás da mãe.
Tentei ser amistosa com os dois. Entretanto antes que conseguisse qualquer coisa a porta foi aberta de supetão. Por ela um homem magrelo passou sendo seguido por mais dois. O que entrou primeiro tinha um cabelo liso longo em um loiro quase castanho. Julguei que pelo seu ar brincalhão se tratava de Fred. O filho mais novo da segunda esposa de Jeffrey. As duas figuras mais serias com ele deviam ser Derek, o careca e mais velho e o Todd de cabelos loiros quase branco. O trio foram os sobreviventes entre os 5 filhos da segunda esposa.
—Olá donzela, eu sou Fred — ele se apressou para beijar minha mão — Devo dizer John, sua esposa é uma joia — completou cumprimentando o irmão de forma bem humorada.
—Não ligue para Fred, ele tem péssimos modos — Derek disse afastando o irmão de nós.
—Dois trogloditas se quer minha opinião —Todd repreendeu os irmãos com o olhar enquanto dava acenos suaves com a cabeça para nos cumprimentar —belo vestido — ele disse, realmente analisando a peça com interesse. Ele se vestia de forma extravagante então não foi difícil supor sua afeição pela moda.
Logo estávamos na sala de jantar. Já que nenhum dos filhos da terceira esposa apareceu. Sophie me alertou que a relação da terceira esposa com Jeffrey é péssima e nem mesmo os filhos suportavam o pai. A quarta esposa morreu no parto dos gêmeos Jonas e Yasmin que ficaram conosco pouco tempo. E as babas levaram os bebes para dormir. Eles vivem com uma tia não muito longe. Jeffrey e Jason não se juntaram a nós. E honestamente não fizeram falta.
Aproveitei-me do momento descontraído de John para tirar uma das duvidas que tinha em mente.
—Sei que isso pode soar estranho. Mas a verdade é que nunca me disse esse detalhe. Quantos anos você tem?—Questionei John.
—Eu tenho 20 anos— ele disse e sorriu enquanto ainda tinha o foco na pequena T.j ao seu lado. Sorri encantada com a cena.
Passamos o resto da noite rindo e nós divertindo com a inocência das crianças e as piadas de Fred. Que após as crianças saírem da mesa ganharam um duplo sentido muito mais evidente. Como uma família normal. Ouso dizer, que foi a primeira vez na vida que me senti assim. Nós noivas não possuímos uma família. Somos tiradas de nossos progenitores quando bebes. E mesmo criando uma espécie de família entre nós no instituto. Foi naquela noite que realmente me senti uma verdadeira Bieber. E o sobrenome se tornou para mim mais do que uma simples palavra.