No dia seguinte, graças à noite anterior. Acordei animada. Talvez por causa da presença inocente e amável das crianças ou poderia ter sido pelas piadas de Fred. Na verdade, acho que foi o conjunto das personalidades de todos. Já que até mesmos os comentários do excêntrico Todd fizeram a noite inesquecível. Dentre todas as coisas o que mais me alegrou foi a atmosfera tranquila e amigável que mantive com John durante todo o jantar. Nunca pensei em vê-lo tão descontraído. Essa nova imagem dele pareceu apagar completamente qualquer coisa negativa da minha mente.
Após vestir-me, caminho descontraída até o salão. Já planejando comer uma bela fatia da torta de maça e um sorriso brota em minha face ao notar John sentado à mesa comendo uma fatia de seu bolo confeitado de framboesa. Está será a primeira vez que tomamos café juntos. Tomo o lugar ao seu lado. E o encaro ainda sorrindo, em resposta ele me manda um pequeno sorriso. “já é um começo” penso. Porém, ele fecha a cara assim que Jason entra no cômodo. Este que parecia bem animado.
—Bom dia para o casal —ele disse de forma que soou quase irônico.
—Bom dia — respondi.
No entanto, John apenas o ignorou e permaneceu com sua atenção em seu bolo.
—Espero que estejam prontos para viajar. Estive conversando com o Ciclo nos últimos dias. Eles estão cobrando o Tour. Tentei adiar novamente, mas eles recusaram. Os conselheiros querem que partam hoje — Jason disse assumindo o lugar ao meu lado na mesa.
Foi esquisito, já que a pouco tempo estávamos todos nos evitando. Sem falar que haviam umas 12 cadeiras vagas e ele escolheu a do meu lado.
—Tour? Já — disse lembrando-me do que realmente importava.
Tour era uma tradição de Edenia. Se tratava de um evento que precede a coroação. Basicamente, quando um novo rei é escolhido este deve visitar cada um dos outros reinos em ordem horária na roda das famílias. De forma que o rei antecessor é o último a ser visitado. É nesse momento que ele passa a coroa para o novo rei em uma cerimônia na capital. Se o atual rei é Kuma, então devemos visitar os Boston’s primeiro. Ou seria os Rossi? Pensei na roda novamente: urso; rosa; leão; falcão e cavalo. Então os próximos são os Boston mesmo. Um frio percorre minha espinha. Eles provavelmente não serão amigáveis, tendo em vista que eles seriam os próximos no trono se bem... não fosse por mim.
—Os Boston’s estão animados para conhece-la melhor Stefany — Jason disse parecendo ler minha mente. Mas mantinha sua atenção em seu prato. “Eu Imagino o quanto” penso irônica.
[...]
Sophie e Maryenne ajudaram-me a arrumar as malas.
—Não acredito que você já está partindo, será tão chato aqui sem sua companhia — Sophie disse enquanto colocava mais um vestido em minha bolsa.
—Logo estarei de volta. Visitaremos os 4 reinos em poucos dias — disse.
—Isso deve demorar. Muitos reinos ficam longe daqui — Maryenne comentou enquanto dobrava alguns pijamas.
Escuto algumas batidas na porta e encaro as duas confusa. Quem poderia ser? Eu ainda tinha tempo para me aprontar. Quando as batidas ecoam pelo quarto novamente, corro para abri-la. Encontrando John parado no corredor. Ele olha para as empregadas em meu quarto e parece recuar.
—Está ocupada! Eu posso falar depois... — ele diz parecendo desconcertado. Rapidamente fecho a porta atrás de mim, nos dando um pouco de privacidade no corredor.
—Elas só estão me ajudando com as malas. O que você queria me dizer? — incentivo-o a prosseguir com medo que o mesmo se fosse e jamais me contasse o que veio falar.
—Queria apenas lhe entregar isso —ele entregou-me uma caixa grande e questionei-me como não a havia notado antes — Você poderia usar hoje quando fomos aos Boston. Claro se quiser — ele coçou a própria nuca denunciando seu nervosismo.
—Obrigada, vou usar — o assegurei sendo inundada de alegria e curiosidade. O que será que é?
Ele deu um leve sorriso com minha resposta e então partiu antes que pudesse dizer mais qualquer coisa. Voltei para dentro com a caixa em mãos. E recebi os olhares curiosos das duas. Que subitamente começaram a rir.
—Vocês são tão fofos — Sophie comentou.
—Jamais vi o General parecer tão encabulado — Maryenne disse.
—Parem com isso, não foi nada. Ele apenas veio me entregar isto — disse sentindo minhas bochechas aquecerem.
—O que é isso? — questionou Sophie curiosa.
—Não sei — disse honestamente.
—Então abra, oras —Maryenne disse.
Coloquei a caixa sobre a cama e desamarrei a fita vermelha que a fechava. Ao abrir vejo o tecido escuro e pesado. Tirando-o da caixa percebo que se trata de uma capa.
—Já para o banho, lhe aprontaremos para a viagem — Sophie disse em frenesi.
—A próxima rainha deve estar no mínimo deslumbrante — Maryenne comentou em igual empolgação.
Um sorriso largo brilha em minha face e corro para o banheiro.
[...]
Horas mais tarde, estamos na carruagem rumo ao Castelo Black Rose localizado em Lonehill. Que fica no reino de Quebritex. Ficava algumas horas de distância de carruagem. E agradeci pelos cavalos Macmillian que ganhamos de casamento. Já que os puros-sangues são ótimos corredores. No interior da carruagem lia um livro. Enquanto Jason dormia no outro banco. Ao meu lado, John parecia ocupado olhando a paisagem e pensando. Jason insistiu em vir conosco. Apesar de normalmente apenas o casal real fazer o tour. Acho que ele queria arrumar uma forma de se reconciliar com John. Algo nobre de sua parte. Principalmente por não ser ele o errado naquela história toda. Mas resolvi me manter longe do assunto. Era melhor evitar mais brigas.
Observei quando a paisagem montanhosa deu lugar aos grandiosos campos. Em Quebritex as estações são muito mais evidentes e não era difícil ver os sinais do outono pela plantação. A amplitude térmica também era maior aqui. E pegamos chuva durante todo o caminho. Revisei mentalmente cada informação que recebi no instituto sobre os Boston, mas a maioria delas se perdeu pela falta de uso. Lembrava apenas de fatos mais gerais como sua principal fonte de renda ser agricultura. Que seus solos são muito férteis graças a terra roxa. E historicamente é uma família marcada por batalhas e revoltas. A mais marcante delas sendo aquela que originou o símbolo da família a guerra das rosas. Onde irmãos brigaram entre si pelas terras e pelo trono. Eles foram a primeira família a aderir a monarquia.
Os Boston sempre possuíram a fama de orgulhosos e quando nos aproximamos do castelo compreendi por que. O local tinha uma arquitetura bem extravagante. Suas construções exibiam muita altura, com altas torres. No lugar do ouro os adornos eram em madeira e os jardins eram exuberantes. Grande variedade de flores e composições únicas e meticulosamente planejadas. O edifício em si era bem menor que o castelo dourado. Algo que eles pareceram tentar compensar em altura. A estrutura em si lembrava as catedrais góticas. Extremamente detalhistas.
A carruagem parou em frente a uma fonte alguns metros da entrada. Se tratava de uma estátua de rosas maiores que minha cabeça em uma cesta carregado por um tronco de uma mulher. E saímos dela e ficamos alguns minutos esticando as pernas enquanto assistíamos um funcionário se aproximar.
— Se lembra deles? — John questionou sobre os cavalos que puxavam nossa carruagem.
—Sim, nosso presente de casamento — disse.
—Escolha um nome. Ainda não foram batizados — ele disse.
—Eu? —questionei e ouvi uma falsa tosse.
—Desculpe interromper o casal. Mas temos que ir — Jason disse.
Concordamos e fomos guiados por um mordomo. —Estamos oficialmente em território inimigo — Jason disse enquanto caminhávamos.
—Eles não ousariam fazer nenhum movimento perigoso — John disse em uma frase cheia de significado.
—Eu não duvido de nada — Jason disse.
Nos três seguimos em linha reta. John na minha esquerda e Jason na direita. Parecíamos manter um apoio silencioso uns aos outros. Tinha ciência que ambos carregavam espadas consigo. Desejava que não precisassem usa-las. John usava uma capa preta tão longa que arrastava no chão. Nas costas o desenho do leão brilhava em fios dourados graças a iluminação. Eu usava uma capa muito parecida, porém mais curta que tapava quase completamente meu vestido branco com arabescos negros. Jason usava um sobretudo preto com arabescos pratas que deixava sua marca de leão a mostra.
Em segundos estávamos em um salão de baile. Onde três cadeiras semelhantes a tronos se encontravam dispostas em uma fila. No meio, aquele que devia ser o nobre herdeiro. Este que usava uma coroa de prata que pareciam espinhos. No seu lado direito uma velha que julguei ser sua mãe. E ao seu lado uma jovem de cabelos loiros quase brancos e pele tão clara que parecia transparente devia ser sua esposa já que usava um bracelete de casamento igual ao seu. As rosas tatuadas em suas bochechas esquerdas dos três.
—Vejam só quem teve coragem de aparecer! — a esposa disse. Lembrei-me de vê-la em meu casamento. A mulher com cara de maluca.
—Diria que audacioso é seu marido em usar uma coroa falsa perante o próximo rei — disse friamente.
As minhas palavras pareceram surpreender a Jason e John que instantaneamente me encararam. A mulher maluca trincou os dentes. Parece que será uma longa viagem.