Medalhão

2823 Words
                                                                  Stefany Bieber Não demorou muito para que compreendesse a grandiosidade do castelo. Este que era nomeado como castelo dourado. Os motivos me pareciam óbvios. Mas ele não apenas contava com grandes quantidades de ouro puro na sua decoração, existiam outros metais também. Sua construção tinha o formado de uma cruz, então para facilitar a localização dentro do prédio o castelo foi dividido em cinco alas, sendo elas: norte, sul, leste, oeste e central. Sendo que as alas leste e oeste eram espelhos uma da outra. Nelas continham os quartos, salas e salões de festa. Já na ala sul se encontravam os cômodos de funcionários. Nele ficavam quartos, depósitos, banheiros e a parte de manutenção do castelo como esgoto, energia e outros. A ala norte continha as dependências mais luxuosas e o quarto principal da casa. Também era onde o cofre ficava e onde a segurança era mais intensa. Ouvi os empregados comentarem que era onde Jeffrey, pai do John, se isolava. A área central continha cômodos de uso geral e diário como a cozinha, salas de café, almoço e jantar. Neste momento, encontrava-me na sala de café. Onde solitária comia silenciosamente uma torta de maça. Apenas os empregados me faziam companhia. Na verdade, companhia não era bem o que eles faziam, pareciam mais me observar comer. Algo bem incomodo em minha opinião. Mesmo sabendo como a nobreza funcionava, senti-me satisfeita em ignorar as regras sem fundamento.   —Vocês não comem? — questionei. — Só após a família, senhora — uma moça jovem respondeu respeitosamente. — Bem, então sintam-se à vontade — os incentivei a me acompanhar. Porém, eles se mantiveram parados pelo receio. Não demorou muito, entretanto para perceberem a seriedade das minhas palavras. Começaram a se mover, assumindo acentos na grandiosa mesa de madeira. Fiquei satisfeita em finalmente possuir uma companhia de verdade. Logo, uma conversa se iniciou na mesa. A atmosfera ficou muito mais leve. E com isso me senti um pouco mais em casa. Foi quando meu olhar se direcionou para as grandes janelas que davam a visão do jardim posterior. Vejo John passando em direção a floresta.   —Afinal o que John pretende? — pensei em voz alta. Notei a mesma moça que me respondeu anteriormente analisar-me com curiosidade. Parecia avaliar se devia ou não me responder. —Diga-me, o que você sabe? — questiono encarando-a diretamente. —Nós, empregados, só sabemos rumores... — ela tentou desconversar. —Que rumores seriam estes? — sou tomada pela curiosidade. — O general é um implacável guerreiro. Dizem que os estrangeiros não nos atacam por medo dele. Ele corta gargantas como se não fossem nada— ela estremeceu apenas por contar.   Levantei-me decidida a descobrir o que ele fazia por mim mesma. Afinal seja lá o que ele pretendia, como sua esposa eu tenho direito de saber o que é. Determinada a segui-lo abandono a sala em passos rápidos. E me apresso a ver sua figura desaparecer em meio as arvores. Sigo para a floresta com meu coração batendo forte. Apesar de concluir que tinha direito de saber o que ele fazia. A ideia parecia não parecia real à medida que o seguia de longe. Pisava com tanta cautela e que cada micro som me deixava alerta. E quando um ganho se quebrava sob meus pés, emitia um xingamento interno. No momento em que um som alto ecoa pela floresta silenciosa. Olho para baixo vendo a casca de árvore partida. d***a! Quando olho novamente para frente novamente, torcendo para que ele não tenha ouvido, sua figura havia desaparecido completamente. Oh não! Corro um pouco á frente para ver se consigo encontrá-lo e sou surpreendida por sua aparição súbita. Seu corpo pressiona o meu contra uma árvore. Encurralando-me. — Por que você está seguindo-me? — sua voz é áspera e raivosa, mas a sensação da sua proximidade e seu hálito fresco fazem um frio estranho se instaurar no meu estomago e arrepios percorrem meu corpo todo. Não conseguia dizer uma única palavra perante seu olhar duro e penetrante, quase feroz. Jamais senti-me correndo risco de vida antes. Porém, não sei exatamente por que, mas quando seus olhos sombrios e nublados me fitaram diretamente, algo em mim entrou em pânico. “Corra” pensei. Apesar disso minhas pernas pareceram incapazes de corresponder. Demorei alguns segundos para notar que ele mantinha as mãos ao redor do meu pescoço. E seus dedos começaram a lentamente apertar-se ao redor do meu pescoço. Então conclui que ele era completamente capaz de me m***r. Que seria algo fácil. Mesmo completamente desarmado. Não conseguia decifrar o que se passava em sua mente. Meu coração tinha um ritmo frenético e descontrolado. —Eu só queria saber se você já comeu? — as palavras saíram sem que eu realmente pensasse nelas. Sim, tinha curiosidade sobre o estado dele constantemente. Preocupava-me com onde estava e o que estava fazendo. Se havia tomado café. Mas não sabia por que ao invés de implorar por minha vida, ou sair correndo. A única coisa que consegui fazer foi emitir aquelas palavras. Ele ficou completamente imóvel durante alguns segundos e então seus olhos foram para os seus dedos e depois de volta a minha face. John pareceu recobrar a consciência de seus atos. Rapidamente se afastou e seguiu sem dizer uma única palavra para a floresta. Desaparecendo do meu campo de visão. Meus joelhos fraquejaram e cai na grama fofa. Tossi-a fortemente, tentando recuperar o ar. Com meu coração ainda frenético corro. Havia acabo de compreender por que John era tão temido. E desta vez corri o máximo que pude em direção ao meu quarto. Não queria ver nada nem ninguém. Porém meu corpo se choca com algo grande e ao olhar para cima encontro os olhos negros de Jason me encarando com curiosidade. —O que houve? — ele disse seriamente. —Nada— disse rapidamente, tentando arrumar uma forma de seguir meu caminho. Ele se aproxima de mim e delicadamente retira as minhas mãos que cobriam meu pescoço. Seus olhos se arregalam ao avaliar o ferimento. —Venha! — ele disse e passa a me guiar pelo castelo em direção a um cômodo por mim desconhecido. Ao tentar esconder o ferimento com as mãos sinto algo viscoso e percebo que é um pouco de sangue. Senti um choque, o que alertou Jason. Adentramos o cômodo e percebo que se trata de um quarto grande e luxuoso. Este que era bem ventilado, graças as muitas janelas. Diferente do que imaginava os moveis eram todos brancos e os detalhes da decoração como a colcha da cama, as cortinas e tapete eram num tom de azul marinho. Pelos objetos pessoais variados. Percebo que se trata do quarto dele. —Eu não deveria estar aqui—digo. — Não deveria estar machucada também— ele se aproxima e noto um algodão molhado em sua mão. Estremeço ao sentir o contato do líquido frio com minha pele. Existe uma pequena ardência, provavelmente causada pelo álcool presente no que julguei ser antisséptico. —Ele fez isso com você?! — sua pergunta parecia mais uma afirmação. Ele sabia que sim. Nenhum empregado faria algo do tipo, seria suicídio. Então não digo nada. —Como ele pode? — ele parece indignado andando pelo quarto de um lado para o outro. E então retorna para perto de mim. sinto seus dedos macios tocando minha face de forma carinhosa, remove os fios que se soltaram da minha trança do meu rosto e os coloca atrás da orelha. Meu coração volta a bater mais rápido que o normal. —Se ele tocar um dedo em você novamente. Não hesite em me procurar—Jason disse docemente. Eu concordo apenas para tranquilizá-lo. Não sei por que, mas não me parece uma boa ideia manter Jason a par do que acontece entre mim e John. Ele sorri de forma bondosa, porém, enigmático e passa a procurar algo pelo quarto. Pegando da última gaveta da cômoda, uma caixa de prata ornamentada e retira de dentro dela uma gargantilha de tecido de veludo n***o. Questiono-me por que ele possuía algo como aquilo em seus aposentos. —Melhor evitar que os empregados vejam isso. Não queremos mais rumores sobre o próximo rei — ele disse e eu concordo. Com isso ele coloca a peça em mim com cuidado. Parecendo me observar por alguns segundos a mais que o necessário e então se afasta. —Preciso ir— digo. Antes que ele responda, faço meu caminho para a porta. Vou direto para o meu quarto. Chegando lá me direciono ao espelho. E observei por alguns segundos minha imagem no espelho. Ainda vestia o vestido branco que coloquei pela manhã. Uma peça delicada com algumas flores azuis distribuídas pelo seu comprimento. A gargantilha de veludo n***o tinha no seu centro um medalhão de prata, nele havia a imagem de um leão envolvido por oliveiras. O vestido e a gargantilha não pareciam combinar entre si. E a peça n***a acabava chamando mais atenção para o meu pescoço. Porém, ela também tapava completamente qualquer marca. Levanto a gargantinha com cuidado para ter visão do ferimento. Na verdade, era menos grave do que imaginei. Havia marcas avermelhadas de dedos e um pequeno corte onde a unha dele teve mais contato com minha pele. Arrumei a gargantilha novamente e resolvi que era melhor permanecer com ela.                                                                              Jason Bieber   Devo admitir que estou surpreso em como meu irmão está facilitando as coisas para mim. já havia notado que o mesmo não estava dividindo o quarto com sua esposa. E pelo que houve no café, acredito que ele ainda não a tenha tomada para si. Mas o auge foi machucá-la tão descaradamente. Podia ver o choque e terror nos olhos dela. E agora posso tomar o lugar de seu salvador. Convence-la que como ele é terrível enquanto me mostro como confiável e prestativo. Em pouco tempo, poderei fazê-la considerar largá-lo. E quando o fizesse poderia convencê-la a se tornar minha. Mostrar-me-ia como seu nobre cavalheiro brilhante. Uma pessoa bondosa que buscaria o melhor para ela. E ela completamente apaixonada se casaria comigo. E devo admitir a ideia de me casar nunca me pareceu tão agradável. Ainda sinto o formigamento nos dedos por tocar diretamente em sua pele macia e quente.  Não conseguia me ver deixando uma mulher como aquela longe após o casamento. Provavelmente eu não a largaria por muito tempo. Minha imaginação voa longe, mas me interrompo. O importante é a coroa. Lembro-me!                                                                                  John Bieber   Estava decidido a passar um tempo caçando para organizar os pensamentos. Quando escuto o som de passos atrás de mim. os galhos se partindo com o peso, não muito expressivo, metros distante deixa-me alerta. Ainda sem me virar para encarar a figura. Analiso as possibilidades e concluo que se trate de Stefany. E ao olhar para trás constato que estava certo. Da forma mais cautelosa que ela podia a jovem seguia-me tentando não fazer barulho. Perguntei-me até onde ela iria e quais eram suas intenções com aquilo. Mas minha pouca paciência levou-me a abordá-la de uma vez. Acabando com aquela palhaçada. —Por que você está seguindo-me? — questiono a pressionando contra a arvore mais próxima. Estar próximo dela faz seu perfume invadir minhas narinas. Doce e tentador. Seus olhos azuis fitam-me com intensidade. Sinto minha sanidade se esvaindo do meu corpo. “ela é uma armadilha!” relembro-me. Vejo a mesma engolir em seco. Os olhos transbordando expectativa. Meu olhar, porém, vai para a pele exposta da sua garganta. “Como pode ser tãl bela?”.  E como se meu sangue começasse a ferver. Uma voz diz na minha mente “Ela é o motivo de tudo isso. Mate-a! Então tudo voltará ao normal”. Quando me dou conta meus dedos já envolvem seu pescoço fino. A fera dentro de mim sedenta por mais sangue gritando em meus ouvidos. — Eu só queria saber se você já comeu? — sua voz doce invade meu cérebro sacudindo tudo por onde passa. Sua preocupação me parece genuína e isso me pega de surpresa. Como ela conhecendo-me a apenas um dia pode se preocupar comigo? Ninguém nunca verdadeiramente se preocupou comigo. Pelo choque me afasto dela. Vejo o estrago que fiz em sua pele perfeita e sou instantaneamente corroído pela culpa. Saio o mais rápido que posso de lá. Ouso ao longe o som de sua tosse e seu olhar amedrontado estava gravado em minha retina. Eu feri uma mulher. Uma inocente. Minha mulher. Talvez eu fosse realmente a fera terrível que os aldeões diziam que eu era.   [...]   Passei um longo tempo caçando. Quando voltei ao castelo já era a hora do jantar. O céu estava no tom de azul profundo e nenhuma estrela era visível. —Próximo Rei, como vai? — ouso a voz alegre e orgulhosa de Jeffrey. Ele tinha nas mãos uma garrafa de vinho, quase vazia. Não era difícil concluir que ele passou o dia todo bebendo como sempre. No fim, a vida de um nobre herdeiro era bem vazia. Principalmente para alguém como ele. As esposas mortas, as plebeias fugiam de repulsa. Um velho nojento e rico. As únicas que ainda se aproximavam eram as interesseiras. Jeffrey já tinha passado todas as suas funções aos filhos. Então ele passava seus dias bebendo, fodendo e me incomodando. Depois que eu fosse coroado isso só pioraria. Não havia nada que ele se importasse mais que política.  Do que manter o nome da família honrado. A única honta que ele tinha, o sobrenome. Jeffrey fez de tudo para que Jason, seu predileto já que era o mais provável a assumir o trono, tivesse a chance de ser rei. Eu sabia que ele buscou garantir que os Boston não tivessem um herdeiro pronto. Mas o jovem William sobreviveu a três atentados. — Tenho que dizer, mandei assassinos para m***r as crianças Boston dés de que Jason nasceu mas você, Derek, foi mais astuto— ele disse cambaleando. —Eu sou o John— disse fechando as mãos em punhos. Derek era meu irmão do meio. Velho patético se quer sabe com quem está falando. —John — ele se corrigiu e deu um soluço — Você foi o mais astuto. Conseguiu ser rei sem nada disso. Aaaa, se na minha época comer uma mulher me desse o trono— ele riu.   Resolvi ignorá-lo e passar direto para meu quarto. Sentia o suor seco da caçada ainda na pele e olhar para Jeffrey dava-me ânsia de vomito. Segui para fora do salão principal e subi as escadas. A memória do que fiz a Stefany mais sedo ainda incomodando minha mente e me corroendo aos poucos. Tomei um banho e voltei para o meu quarto. Devia desculpar-me com ela? Ela aceitaria minhas desculpas? Ela estaria certa em não querer me ver novamente. Eu joguei sobre ela coisas que não eram sua culpa. Devia pelo menos tentar me desculpar. Vesti-me e caminhei em direção ao seu quarto. Bati na porta duas vezes ouvindo um suave “Quem é?” distante. —Sou eu— disse simples, imaginando que ela reconheceria minha voz. E incapaz de dizer qualquer outra coisa. Alguns segundos de silêncio se seguiram e cogitei ir embora. Ela não deve querer falar comigo. Provavelmente não vai querer falar comigo nunca mais. Mas então escuto o som da fechadura da porta e ela se abre revelando a figura da pequena morena. Ela tinha seus olhos azuis brilhantes em mim com uma ternura que eu não esperava. Isso fez com que qualquer discurso que tinha planejado se esvaísse de mim. Meu olhar confuso vaga por seu corpo, notando que ela usava um vestido de seda rosa que chega muito próximo do tom da sua pele e um roupão. Sinto minha boca salivar e um incômodo no meio das pernas. Mas ignoro. —Pensei que não iria querer me ver— confesso. —Você é meu marido, eu não faria isso— ela diz cruzando os braços — O que quer John? — ouvir meu nome de seus lábios me traz uma sensação estranha, porém, agradável. —Queria desculpar-me por... — começo a falar e meus olhos viajam para onde eu a havia machucado, mas não há machucado para se ver. Se ele ainda existe foi tapado por um tecido de veludo. Meus olhos se concentram nos detalhes da peça. Instantaneamente a reconheço e sinto meu sangue ferver. — O que faz com isso? — digo tomado pela fúria. — O que? — ela parece confusa. A memória de Jason a acompanhando pela casa me vem a mente como um dardo inflamado. —Ele te deu isso? — disse e sabia que parecia um cão feroz latindo. Pela maneira que ela me encarou receosa. Sem pensar direito nos meus atos e tomado pela raiva puxo o medalhão da gargantinha, vendo a peça se rasgando deixar o corpo dela. Como ele? Como pode? Com o medalhão em mãos saiu pelo castelo rumo ao quarto de Jason.
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