Quando Marcelo chegou ao colégio na manhã da segunda-feira, um dos seus colegas de equipe, Tiago, estava a sua espera. Ele parecia ansioso para encontra-lo.
O cara que durante boa parte da vida letiva do Gigante foi um pé no saco, passou metade do Médio tentando desfazer o que ele chamava de “m*l-entendidos”. Claro, a ascensão do Chaveiro e a falência do pai do colega teve forte impacto na mudança de atitude.
— Você não apareceu para a festa da vitória.
Marcelo entendeu perfeitamente o que Tiago dizia, mas decidiu se fazer de desentendido.
— Claro que apareci. Fiquei o suficiente para agradar o prefeito. Com a escalação para a seleção, ele ficou muito empolgado. O bom é que talvez faça uma reforma de verdade no ginásio municipal.
— Seria muito bacana, mas não estou falando dessa festa, estou falando da que rolou na casa da Vanessa. Foi uma festança. Os pais dela capricharam.
— Aposto que sim, mas eu não costumo ir para as festas da Vanessa. Você sabe disso.
— Na verdade não. Ficou todo mundo esperando por você.
— Por mim?! Não sei porque. Lembre-se que o pai dela me expulsou de lá na sétima série e disse que aquele não era o meu lugar.
— Mas isso é coisa do passado. Naquela época você era novato e todo mundo...
— Me tratava m*l. Eu lembro.
Tiago ficou sem graça, ele mesmo foi um dos que tentaram praticar bullying com o “novato”. Ser lembrado de sua antiga atitude em um momento como aquele era no mínimo desconfortável.
— Não era isso, cara, você sabe que temos dificuldade em aceitar gente nova em nossos círculos. Coisa b***a de cidade pequena.
— Gente pobre. — Marcelo corrigiu.
— O quê?
— O problema não é gente nova, é gente pobre. — O gigante fez questão de ressaltar. — Não suportavam a ideia de que havia gente pobre dividindo e usufruindo do mesmo solo sagrado das melhores gerações da cidade. Vocês pensavam que eu era bolsista. Depois quando descobriram que eu não, inventaram que a avó do Edgar pagava minha mensalidade. Eu lembro muito bem de cada pequena coisa, na verdade tenho uma memória excelente, o que as vezes é um problema.
— Deixa isso para lá, cara. Não vale a pena.
—Claro. Você dizia...?
O outro se empolgou de novo, estava louco para a fofoca.
— A festa na casa da Vanessa muito boa. Teve até briga, por sua causa.
Então por isso o “amigo” o estava esperando no estacionamento. Queria ser o primeiro a contar as desventuras do fim de semana.
— Por minha causa?
— A Vanessa anunciou que havia colocado a coleira em você e quem ousasse olhar em sua direção, teria problemas com ela.
Conhecendo a colega de classe, Marcelo era capaz de visualizar ela anunciando a posse sobre ele. Meses antes, era comum eles ficarem ocasionalmente, mas desde que Marcelo passou a se encontrar com Rosana, colocou fim em seus casinhos sem compromisso.
É claro, não disse a nenhuma que estava tudo terminando em definitivo, apenas que precisava se concentrar nos estudos e no basquete. Com elegância, prometia que poderiam voltar a se ver quando esteve mesmo sobrecarregado. Essa desculpa era muito mais fácil que explicar que queria ficar sozinho.
Ninguém acreditaria que ele ficaria no celibato por meses por causa dos estudos ou dos jogos.
— Ela disse que colocou uma coleira em mim?
— Não, cara, ela disse que vocês estavam oficialmente namorando. Foi aí que começou a briga, a Ana disse que era mentira, que você estava de fato namorando com ela. Outras meninas também entraram na disputa e parece que você tem ao menos seis namoradas oficiais.
— Entendo.
— Não cara, a coisa foi muito feia. Elas trocaram tapas. Foi um sufoco separar.
— Então a festa foi muito animada.
— Muito, mas é claro, o problema é que ficou para você resolver hoje. Até lançaram um desafio. Coisa da Vanessa, claro.
— Entendo. Por isso havia tantos recados e tantas visitas. E como esperam que eu resolva isso? Que tipo de aposta fizeram?
— Até onde sei, elas apostaram que você usaria a coleira, digo, vão dar a você cordões de ouro com pingentes específicos. Segundo elas, você usará o da garota por quem sente algo.
— Simples assim?
— Simples assim.
Provavelmente Vanessa estaria esperando por Marcelo antes dele entrar no colégio. E garantiria que seria a primeira a dar o presente.
— Faça um favor, não conte a ninguém que eu sei da aposta.
— O que você vai fazer?
— Não sei ainda. Até o final da aula, decido.
E assim, ao invés dele usar o portão principal para entrar no colégio, entrou pela quadra de esportes, indo se encontrar com o técnico, que também era o professor de Educação Física.
— Aí está o nosso campeão. Espero que não tenha cometido excessos nesse fim de semana. Soube que houve várias festas em sua homenagem.
— Em homenagem ao time, professor. Eu não entrei lá sozinho.
— Mas fez a diferença. Você é o diferencial do nosso time.
— Acho que o diferencial é o senhor. Eu já estava na equipe antes, e essa é apenas a segunda vez que vamos para o final do estadual. O senhor que soube reconhecer e aproveitar os talentos individuais do grupo. Se levarmos esse campeonato, vai ser mais uma vez por sua causa.
— Não seja bobo, além do mais, você estará na seleção. Eu vou continuar aqui, lapidando talentos brutos.
— Isso sim, é uma tremenda injustiça. — Marcelo falou com sinceridade. E em um rompante, decidiu anunciar, ao menos para o professor a sua decisão e anunciou baixinho. — Eu não vou para a seleção.
— O quê?!
— Eu fui aceito em Oxford. Não vou para a seleção.
— Mas você não pode adiar? Quer dizer, é uma oportunidade única. E você é tão esforçado. Se seguir carreira o vejo na NBA[1].
— Mas eu não. Nunca foi isso que eu quis para minha vida. Eu quero fazer outras coisas.
O homem teve dificuldade em esconder sua decepção. E Marcelo o valorizou por isso, pois sabia que a conversa com o diretor da escola não seria tão amena.
— Você poderia tentar, não há como adiar sua entrada em Oxford?
— Na verdade, não sei, mas mesmo que possa, eu não pretendo fazer isso. Eu quero ir para Inglaterra. Mesmo que eu vá para a equipe principal, o que é improvável, não é algo que eu realmente queira. Aqui a pressão já é grande, imagina na seleção?
— Você aguenta bem pressão, de todos os seus colegas, é o mais preparado para lidar com isso.
— Eu sei, mas não quero. Agradeço muito tudo o que o senhor fez por nós, mas eu realmente quero outra coisa.
— Eu espero que não vá se arrepender. Você é uma inegável, talento, meu filho, vai ser triste vê-lo fora das quadras.
— Não fique. Eu estou muito feliz e ansioso pelos próximos desafios, eu só não quero que eles sejam em uma quadra.
O homem observou o aluno. Ele conhecia poucos com a determinação daquele rapaz. Apostava que se daria bem em qualquer coisa que se propusesse a fazer.
— Muito bem, mas faltam poucas semanas para o fim das aulas, em seu lugar, eu guardaria essa informação o máximo que possa. Vai ter muita gente tentando convencê-lo a mudar de ideia. Você é o cartão postal do colégio e da cidade.
— Meu pai disse a mesma coisa.
— Por que seu pai é esperto.
Naquela manhã, após deixar a quadra, Marcelo foi direto para o estacionamento. Decidiu fugir da aula e de suas fãs.
— Aconteceu alguma coisa? — O pai perguntou ao vê-lo tão cedo em casa.
Marcelo era um bom aluno, com notas excelentes, maior de idade e dono do próprio nariz, logo quando ele queria tirar uma folga dos estudos, o pai não o incomodava.
— Aparentemente, eu sou namorado de seis garotas da cidade. — Marcelo informou com ironia.
— E você fugiu da escola por isso? Até onde sei, você não é do tipo que foge de mulher.
— Elas fizeram uma aposta. Aparentemente querem me marcar como delas.
— Você sabe que estamos mudando antes do fim do ano, certo? Por favor, não me apareça com uma namorada grávida até lá.
— Eu sou cuidadoso, pai. Também não quero me prender a nada nessa cidade. — Era uma mentira deslavada, mas Marcelo sabia que deveria apresentar Rosana ao pai como um assunto definido, ou ele faria de tudo para impedir aquele namoro.
O desembargador importunou o Chaveiro por anos, mandando a polícia o vigiar de perto. Chegou até mesmo a mandar investigar suas contas. Por causa dessa vigilância cerrada, ele foi o primeiro a descobrir sobre as patentes e os sócios que o homem tinha. As famílias eram inimigas não declaradas, então, ele esperava ganhar tempo para mostrar que Rosana era diferente dos parentes.
— Você entende que para muitas dessas garotas você é um passaporte para fora dessa cidade? Não estou dizendo que você não seja um cara bacana e que elas possam de fato gostar de você, mas lembre-se como o tratavam quando pensavam que você era pobre.
— Eu sei pai. Sei perfeitamente o que sou para essas garotas.
— E o que você é?
Marcelo suspirou. Sabia que o pai apenas gostaria que ele listasse verbalmente tudo o que sabia, para que tivesse consciência da situação. Encarar os próprios problemas era um exercício que sempre praticavam.
— Quando pensavam que eu era pobre, era só uma aventura que elas escondiam uma das outras. — Ele começou a recitar. — Depois, quando virei o craque do basquete, um troféu a ser exibido. Sei que todas que ficaram comigo se gabaram nos vestiários. Agora, que têm alguma noção de quanto dinheiro eu valho, e com meu nome na equipe que vai disputar o mundial, meu sou melhor prémio para qualquer uma.
— Exatamente. Isso significa que você vai manter a p***a desse pênis dentro da calça. Até o final dos anos, se por um acaso decidir se arriscar, vai levar sua própria camisinha, vai se livrar pessoalmente delas.
— Eu sempre faço isso, pai. — O rapaz falou, mas no fundo, sentiu que mentia. Algumas vezes era um tanto afoito com Rosana, mas sabia que ela se cuidava. E além do mais, na maioria das vezes eles usavam camisinhas. Não estava nos planos dos dois uma gravidez precoce.
— Muito bem, você não vai poder fugir da escola. Já tem alguma ideia para controlar o fã clube?
— Na verdade, já pensei em algo sim.
— Não brinque com a situação. Eu não o criei para ficar fazendo joguinhos com as mulheres. Deixe bem claro que não tem planos de se prender a ninguém.
— Isso vai fazê-las me encararem como um desafio.
— Você já é um desafio desde o momento em que não demonstrou interesse em ter um compromisso com nenhuma delas. Seja gentil, mas seja sincero. Apenas isso.
— Eu já deixei bem claro minha posição, mesmo assim, vou fazer algo que vai reforça isso.
No dia seguinte, quando chegou ao colégio estava sendo aguardado no estacionamento. Vanessa foi a primeira a se aproximar.
— Você faltou ontem.
— Meu pai está na cidade, fomos resolver alguns detalhes para minha viagem.
— Sei, férias na Europa. Convenci meus pais a me darem o mesmo presente. Também vou para Europa, poderíamos combinar de nos encontrar lá.
— Ah, não, curta suas férias. Essa é uma viagem que combinei há muitos anos com o Edgar. Será um programa de garotos.
— Ora, isso não impedi que você tire um tempinho...
— Não. Não vou fazer isso. — Marcelo foi firme, a moça ficou sem graça, mas ela logo se recuperou.
— Certo, eu entendo, vão aprontar juntos e não me querem atrapalhando. Muito bem, eu trouxe um presente para você.
— Não precisava.
— Claro que sim, você é o novo campeão.
— Todos nós somos.
— Mas se não fosse você...
— Não seja injusta, eu não jogo sozinho.
— Acho tão fofo quando você é modesto. Tome o seu presente. — Quando a moça entregou a caixa, ele apenas devolveu.
— Desculpe, mas eu não posso aceitar.
— Ora, não seja bobo.
— Não se trata de ser bobo. Eu apenas não posso aceitar o presente de uma garota porque minha namorada é muito ciumenta.
[1] A National Basketball Association (em português: Associação Nacional de Basquetebol; abreviação oficial: NBA) é a principal liga de basquetebol profissional da América do Norte. Com 30 franquias (29 nos Estados Unidos e 1 no Canadá), a NBA também é considerada a principal liga de basquete do mundo. É um m****o ativo da USA Basketball (USAB), que é reconhecida pela FIBA (a Federação Internacional de Basquetebol) como a entidade máxima e organizadora do basquetebol nos Estados Unidos. A NBA é uma das 4 'major leagues' de esporte profissional na América do Norte. Os jogadores da NBA são os mais bem pagos esportistas do mundo, por salário médio anual. Fonte: Wikipédia.