Irina olhou a prima em segundo grau por sobre a borda da taça de vinho. Ela havia puxado a beleza da mãe, o que era uma sorte. Seus olhos e cabelos dourados, o frescor de sua juventude, davam-lhe uma áurea angelical. Sendo uma Mendonça, afastava que de anjo ela não tinha nada.
Rosana era uma Mendonça que foi agraciada com uma beleza incomum. Se levasse em conta a mãe dela, diriam que ela envelheceria muito bem.
Não gostava do pai da moça, seu primo-irmão. Não gostava quando era criança, não gostava quando adolescente e, uma vez adultos, quando ela teve a penosa experiência de conhecer a verdadeira face do parente, descobriu que preferiria mil vezes manter um oceano de distância entre os dois.
Por todo rancor que Irina guardava por aquela parte da família que sua agente estranhou o local para escolha do seu retiro.
— Mas eu pensei que você odiasse aquela parte da família.
— E odeio, mas adoro aquela casa e uma vez ali, não sou obrigada a confraternizar com ninguém. O lugar é perto da praia, no final da rua. Além de ficar no alto de um pequeno morro, tem muros altos, é grande o suficiente para que eu nem mesmo veja os empregados se não quiser.
— Parece o paraíso, mas aposto que estará entediada em pouco tempo. — Decretou a agente, que conhecia Irina muito bem.
— Eu não pretendo morar lá, apenas passar um tempo para colocar minha cabeça no lugar.
— Uma excelente ideia, se você fosse do tipo que curte a natureza, medita...
— Eu só quero descansar. No final das contas, eu trabalho desde os cinco anos de idade. Praticava até nas férias e elas nunca eram longas. Será interessante dormir e acordar sem um proposito.
— Um momento de ócio criativo. Pode ser uma boa.
— Só ócio. Ócio pelo ócio. Essa é minha meta.
— Queria ver você tentar.
Seis meses se passaram desde aquela conversa e cinco desde que se mudou para a casa de praia dos pais. Ela não estava aborrecida, ao contrário, encontrou coisas interessantes para fazer da vida. Nunca esteve tão sexualmente satisfeita como agora e, coisa que era muito surpreendente, estava adorando a companhia de sua assistente, uma jovem não apenas inteligente, charmosa e audaciosa. Trazer seu jovem amante para a cama das duas foi um presente muito inesperado e pior, apesar de todas as suas reservas iniciais, ter um caso sem amarras sentimentais pela primeira vez em muito tempo, essa era a melhor parte de sua vida nova. Sabia que quando decidisse retomar a sua própria história, teria uma outra perspectiva sobre tudo. Até mesmo sobre suas relações.
Mas agora precisava descobrir o que havia do primo estava fazendo ali.
— Eu aposto que você não veio aqui saber como anda a minha saúde.
— Mamãe se queixou que você não aceitou nosso convite para jantar. Ela gostaria de ter o privilégio de apresentá-la a sociedade, fazendo um jantar em sua homenagem.
— Eu não quero participar de qualquer festa, não quero confraternizar com os vizinhos. Pensei ter deixado isso bem claro da última vez ele veio fazer o convite.
— Passarei o recado, mas se aceita uma sugestão, ou você proíbe nossa entrada nessa casa, ou ela vai continuar tentando. E todas as vezes, vai me mandar encher o seu saco, por que é preguiçosa demais para tentar convencê-la.
— Bem, eu já proibi, mas parece que as pessoas tem medo de desafiar os Mendonça.
— Sim, mesmo sabendo que você também é uma Mendonça, se quer mesmo garantir que ninguém passe por aquela porta, contrate segurança de fora. Aliás, Traga todo a equipe que trabalhará para você de fora.
— Gostei do conselho. Vou providenciar.
— Muito bem, acho que terminamos.
— Por que? Está com pressa em voltar para casa?
— Não, deve saber que eu não tenho qualquer pressa de voltar para casa. Você é uma Mendonça, sabe que ninguém em sã consciência teria.
Irina observou a prima com cuidado.
— Bem, se for bom para você, podemos estreitar os nossos laços, digo a sua mãe que gostaria de companhia e pode até dormir aqui de vez em quando, ou dizer que vai dormir aqui.
— Você quer que eu lhe faça companhia?
— Não. Sei que sua mãe espera que eu abra portas para você, então vai gostar de saber se que fui com sua cara.
— Mas se eu quiser posso dormir aqui?
— Pode. E se for uma boa companhia podemos até conversar. A única regra é que avise antes, se for dormir aqui ou se for dizer que vai dormir aqui. Pode ser que seu pai não goste de nossa proximidade.
— Papai e mamãe tem um acordo. Matheus é dele, eu sou dela. Nenhum dos dois se mete na criação do outro. Na verdade, para o papai eu nem existo.
— Talvez não seja de todo r**m, se eu tivesse um pai como o seu, preferiria que ele me ignorasse.
— Isso por que você não conhece muito bem minha mãe, em certos aspectos ela é muito pior que ele.
— Queria sua mãe se casou e se manteve casada com seu pai por todo esse tempo. Eu não acredito que eles têm muito em comum, ou não estariam juntos por tanto tempo.
— Pode usar minha casa como se fosse seu porto seguro, mas nunca esqueça que a única regra...
— É avisar antes.
— Perfeito.
A mulher tomou mais um gole da bebida e então pareceu pensar melhor.
— Não, vamos institui mais uma regra, apenas mais uma. O que acontece aqui, fica aqui.
Rosana pareceu ficar incomodada com aquilo.
— Essa é uma regra implícita em qualquer casa de um Mendonça. O que acontece dentro de suas paredes sempre fica em suas paredes. Mesmo os empregados são bem pagos para não verem nada.
— É por isso que você vai casar tão jovem? Para fugir de casa?
— Como...?
— Sua mãe, na primeira visita ela me contou sobre seus grandes planos para o futuro. Um ano em Paris, depois casamento e se o marido permitir, cursar uma universidade. É realmente isso que você quer para a sua vida.
— É uma possibilidade.
— Pense melhor, por que essa parece uma história de terror.
— Eu sei. Acredite, eu realmente sei.
— Você já tem dezoito anos?
— Faço em alguns dias.
— Bem, acho que realmente precisamos conversar mais, talvez assim, seu leque de opções sejam ampliados.
— Eu já estou ampliando meu leque de opções.
— Toda garota tem que se garantir. Não feche qualquer opção, o mundo só é gentil com os homens.