A mansão parecia diferente depois da denúncia.
Mais silenciosa.
Mais fechada.
Como se as paredes tivessem ouvido demais.
Luna caminhava de um lado para o outro em seu quarto quando ouviu a batida na porta.
Uma única batida.
Controlada.
Ela já sabia quem era.
— Entra — disse, sem esconder a irritação.
Adrian abriu a porta devagar.
Sem paletó.
Camisa social aberta no primeiro botão.
O cabelo menos arrumado do que de costume.
Aquilo…
aquilo não deveria afetá-la tanto.
— Precisamos conversar — ele disse.
— Claro que precisamos — Luna respondeu. — Você quase me transformou em prova de um crime.
— Você poderia ter ido embora — ele rebateu, calmo. — E não foi.
— Não romantiza isso — ela disparou. — Eu fiquei porque quis evitar problemas.
Adrian fechou a porta atrás de si.
Não trancou.
Mas o som do clique ecoou no quarto.
— Você mentiu para a polícia — ele disse. — Por mim.
— Não foi por você. — Ela cruzou os braços. — Foi por mim.
— Foi por nós. — ele corrigiu.
Ela riu, sem humor.
— Não existe “nós”.
Adrian se aproximou apenas o suficiente para invadir o espaço emocional dela — não o físico.
— Existe um contrato — ele disse. — E agora existe algo mais.
— Não começa.
— Você sentiu também. — ele afirmou, não perguntou.
O coração de Luna acelerou.
— Sentir o quê?
— O risco.
— A escolha.
— O momento em que você percebeu que podia ir…
e ficou.
Ela desviou o olhar.
— Você está extrapolando.
— Estou sendo honesto. — Adrian respondeu. — Algo que você exige, lembra?
Luna respirou fundo.
— Você não pode usar isso contra mim.
— Não estou usando contra você. — Ele deu mais um passo, parando a centímetros dela. — Estou tentando entender.
Ela levantou o rosto, desafiadora.
— Entender o quê?
— Por que você ainda está aqui.
O silêncio caiu pesado entre os dois.
Luna sentiu o calor da presença dele.
A respiração controlada.
O autocontrole quase… forçado.
— Você gosta de controle — ela disse. — Mas isso aqui está fora do seu alcance.
— Está mesmo? — ele perguntou, a voz baixa.
Ela sentiu o arrepio percorrer a espinha.
— Não se aproxime mais — Luna avisou.
— Eu não toquei você. — Adrian respondeu, firme. — Ainda.
O “ainda” ficou no ar.
Perigoso.
Ela deu um passo para trás.
— Você está testando a cláusula.
— Não. — ele respondeu. — Estou testando você.
Luna sentiu a raiva e algo mais se misturarem.
— Sai do meu quarto.
Adrian hesitou.
Foi quase imperceptível.
Mas ela percebeu.
— Essa é uma ordem? — ele perguntou.
— É um limite. — ela respondeu. — E você disse que respeita limites.
Os olhos dele escureceram.
Ele respirou fundo.
Uma vez.
Duas.
Então deu um passo para trás.
— Muito bem. — ele disse. — Mas antes…
Ele tirou o relógio caro do pulso e colocou sobre a cômoda.
— O que é isso?
— Prova de confiança. — Adrian respondeu. — Não vou vigiar você esta noite.
— Você nunca vigiou—
— Vigiei sim. — ele interrompeu. — Sempre vigio tudo.
Luna engoliu seco.
— Boa noite, Luna. — ele disse, finalmente.
Quando estava prestes a sair, ela falou:
— Adrian.
Ele parou.
— Se você tivesse tocado em mim hoje… — ela começou, a voz mais baixa — eu teria quebrado tudo.
Ele virou o rosto lentamente.
— Eu sei.
— Então por que chegou tão perto?
Os olhos dele a prenderam com intensidade.
— Porque eu precisava saber… — ele respondeu — se você também sentiria dificuldade em me mandar embora.
O coração dela quase parou.
Adrian saiu do quarto.
A porta se fechou.
Luna ficou ali, sozinha, com a respiração irregular e a certeza incômoda de que:
Ela não o odiava tanto quanto queria.
E ele não era tão imune quanto fingia.
Do outro lado da porta, no corredor escuro, Adrian encostou a testa na parede por um breve segundo.
Apenas um.
Controle não era mais o maior problema.
Desejo era.