O silêncio caiu como uma lâmina.
Luna sentiu o estômago despencar quando percebeu que todos os olhares na sala estavam voltados para ela.
— Mantida contra a vontade…? — ela repetiu, a voz mais baixa do que pretendia.
O funcionário parecia querer desaparecer.
Adrian não disse nada de imediato.
Isso foi o pior.
Ele apenas virou o rosto lentamente para Luna, os olhos escuros, avaliando cada reação dela como se estivesse reconstruindo o quebra-cabeça inteiro em segundos.
— Foi você? — ele perguntou.
Não havia raiva na voz.
Havia algo muito mais perigoso: controle absoluto.
— Eu não fiz denúncia nenhuma — Luna respondeu rápido. — Nem sabia que isso era possível.
Adrian a observou por mais alguns segundos.
Então, virou-se para o funcionário.
— Quem fez a denúncia?
— Foi… foi anônima, senhor. Mas as autoridades estão a caminho. Disseram que precisam verificar as condições em que a senhora Vale está vivendo.
Luna arregalou os olhos.
— Senhora Vale… — ela murmurou, engolindo seco.
Adrian respirou fundo.
Uma única vez.
Depois disso, ele entrou em ação.
— Esvaziem a casa. — ele ordenou. — Agora.
— O quê? — Luna reagiu. — Você vai me esconder?!
Ele se virou para ela num movimento rápido.
— Não. — disse, firme. — Eu vou te proteger.
— Eu não pedi—
— Não importa. — Adrian cortou. — Isso não é sobre você desafiar regras ou bancar a rebelde.
Isso é sério.
— E quando alguma coisa não é séria pra você? — ela retrucou.
Ele se aproximou dela, a voz baixa, urgente.
— Quando envolve meu nome, minha empresa…
e você… tudo é sério.
A palavra você ficou no ar tempo demais.
Luna sentiu o impacto.
— Você está com medo? — ela perguntou, provocando por reflexo.
Adrian inclinou o rosto, os olhos cravados nos dela.
— Não. — ele respondeu. — Estou com raiva.
— De mim?
— De quem ousou usar você contra mim.
Aquilo a desarmou.
Antes que pudesse responder, vozes ecoaram do lado de fora da mansão.
Sirene distante.
O coração de Luna começou a bater rápido demais.
— Eles estão chegando… — ela sussurrou.
Adrian segurou o braço dela.
Não forte.
Não violento.
Mas firme o suficiente para que ela parasse.
Ela olhou para a mão dele em seu braço.
— Você acabou de quebrar a cláusula — ela disse.
Ele não soltou.
— Não. — Adrian respondeu, calmo. — Eu não toquei você sem consentimento.
Ela engoliu seco.
— Então solta.
— Diga para eu soltar.
Silêncio.
Ela percebeu o jogo tarde demais.
— Adrian…
— Diga.
A sirene ficou mais próxima.
Luna fechou os olhos por um segundo.
— …Solta.
Ele soltou imediatamente.
O olhar dele mudou.
Algo que parecia… satisfação.
— Ótimo. — ele disse. — Ainda estamos dentro do contrato.
Ele virou-se para o funcionário:
— Levem-na para o escritório interno. — ordenou. — Ninguém entra lá sem minha permissão.
— Você não manda em mim! — Luna protestou.
Adrian voltou-se para ela.
— Hoje, manda sim. — ele disse. — Porque, se você abrir a boca na frente deles sem entender o jogo, vai destruir tudo.
— Tudo o quê?!
— Sua liberdade.
A minha empresa.
E o pouco controle que ainda existe entre nós.
As portas da frente se abriram.
Dois oficiais entraram.
— Senhor Adrian Vale? — um deles perguntou.
— Sou eu. — ele respondeu, impecável, frio outra vez. — Em que posso ajudar?
— Recebemos uma denúncia de cárcere privado envolvendo sua esposa.
Luna sentiu o chão sumir sob seus pés.
Ela olhou para Adrian.
Ele não desviou o olhar dos oficiais.
— Isso é um m*l-entendido. — disse. — Minha esposa está aqui por livre e espontânea vontade.
Os olhos do policial se moveram para Luna.
— Senhora Vale… isso é verdade?
O coração dela martelava.
Ela podia acabar com aquilo ali.
Podia dizer não.
Podia destruir o contrato.
Podia ir embora.
Ou…
Podia mentir.
Ela respirou fundo.
Olhou para Adrian.
Pela primeira vez, ele parecia… vulnerável.
Apenas por um segundo.
— É verdade. — Luna disse, enfim. — Eu estou aqui porque quero.
O silêncio foi absoluto.
Adrian virou o rosto para ela lentamente.
Surpresa.
Pura.
Os policiais trocaram olhares.
— Nesse caso, precisamos apenas registrar algumas informações. — disse um deles. — Senhora, se quiser sair, é livre para isso.
Luna engoliu seco.
Ela sentiu o peso da escolha.
E respondeu:
— Eu sei.
Os policiais assentiram e começaram a anotar.
Quando eles finalmente se retiraram, a casa voltou ao silêncio.
Luna soltou o ar que estava prendendo.
— Pronto. — ela disse. — Feliz? Salvei seu império.
Adrian aproximou-se dela devagar.
— Você não salvou meu império. — ele disse.
— Então o quê?
Ele parou diante dela, a poucos centímetros, os olhos intensos.
— Você escolheu ficar.
O coração dela falhou uma batida.
— Não confunda as coisas — ela respondeu rápido. — Eu só não quis criar um circo.
— Claro. — ele disse, mas havia algo novo em sua voz. — Foi exatamente isso.
Ela deu um passo para trás.
— Isso não muda nada.
Adrian inclinou levemente a cabeça.
— Muda tudo, Luna.
Ela sentiu um arrepio percorrer o corpo.
— Agora eu sei que você poderia ir embora… — ele continuou. — E mesmo assim ficou.
— Não tire conclusões.
— Já tirei.
Ele se virou para sair, mas parou na porta.
— A partir de hoje, — disse sem olhar para trás — a cláusula continua valendo.
Luna cruzou os braços.
— Ótimo.
Ele completou:
— Mas as consequências… também mudaram.
Ela engoliu seco.
— Que consequências?
Adrian olhou por cima do ombro, o olhar escuro, intenso.
— Agora, eu não vou apenas tentar te controlar.
Vou proteger você.
E isso…
era muito mais perigoso.