Luna encarou o relógio pela quinta vez.
7h58.
Ela estava vestida — mas não do jeito que ele queria.
Não com os vestidos luxuosos que ele mandou.
Não com salto.
Não com joias.
Ela escolheu a roupa mais simples do closet:
um vestido preto justo, sem brilho, sem “sofisticação”, sem nada que combinasse com a mesa de dez metros que a aguardava.
Para piorar — ou melhorar — ela fez um r**o de cavalo bagunçado e passou gloss. Só.
Era o tipo de provocação mínima que ele perceberia.
7h59.
— Ótimo. — ela murmurou. — Vou chegar no limite do tolerável.
Então saiu do quarto.
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A mansão estava silenciosa.
Silêncio de quem podia comprar paz com dinheiro.
Silêncio de quem nunca teve vizinhos brigando, ou televisão alta, ou vida de verdade.
Luna desceu as escadas devagar, preparando mentalmente todas as respostas afiadas, todos os olhares desafiadores, todos os “não” que pretendia dizer.
Quando virou o corredor, viu a mesa.
Enorme.
Intimidadora.
Ridiculamente exagerada.
E no final dela…
Adrian Vale.
Sentado.
Impecável.
Imóvel.
Observando a porta como se soubesse exatamente o segundo em que ela apareceria.
Luna parou na entrada do salão de jantar.
7h59 e 50 segundos.
Adrian olhou seu relógio.
Depois olhou para ela.
— Pontual. — ele disse. — Surpreendentemente.
Ela caminhou até a cadeira — não a que estava ao lado dele, mas a mais distante possível.
Adrian arqueou uma sobrancelha.
— A refeição fica mais difícil quando você está a um quilômetro de distância.
— Ah, que pena — Luna disse, sentando-se graciosamente. — E eu aqui achando que distância ajudava na digestão.
O olhar dele escureceu.
Não de raiva…
de diversão.
Perigosa.
— Venha para mais perto. — Adrian ordenou, com a voz calma demais.
Luna cruzou as pernas.
— Não.
Adrian encostou-se na cadeira, relaxado, como se tivesse previsto cada passo da rebeldia dela.
— Entendo. — ele disse. — É sua escolha.
Mas, se não vier até aqui, vou considerar isso… sua primeira infração.
Luna congelou por um segundo.
Ele esperou.
Calmo.
Paciente.
No controle absoluto.
Droga.
Ele sabia exatamente onde apertar.
Luna cerrou os dentes, levantou-se e caminhou até a cadeira ao lado dele — mas parou um pouco antes, sem sentar.
— Assim está bom? — ela perguntou, quase cuspindo as palavras.
Adrian levantou o olhar devagar, seus olhos se encontrando com os dela.
— Não. — ele respondeu suavemente. — Sente-se.
Ela sentou.
Mas não suavemente — ela bateu um pouco a cadeira no chão de propósito.
Ele percebeu.
É claro que percebeu.
Adrian serviu vinho para os dois.
Com movimentos perfeitos, silenciosos, irritantes.
— Não bebo. — Luna disse.
— Bebe hoje.
— Então vai ter que me forçar.
Ele colocou o copo diante dela.
— Eu não posso tocar em você sem permissão. — Adrian disse. — Lembra?
Ela franziu o rosto, surpresa com a franqueza dele.
Ele continuou:
— Mas posso insistir.
— E eu posso negar. — Luna rebateu.
Adrian inclinou apenas um centímetro para mais perto.
— Mas você não vai.
Por um segundo, apenas um, ela sentiu a respiração falhar.
Ele estava… tão perto.
A voz dele tinha um timbre baixo, quase íntimo.
O perfume, quente e caro, a envolvia.
A presença dele… impossível ignorar.
Luna pegou o copo.
E bebeu um gole.
Não porque ele mandou.
Mas porque ela queria provar que podia cumprir uma ordem sem estar sendo domada.
Adrian observou cada movimento.
— Interessante. — ele disse. — Você escolhe obedecer apenas quando isso me tira a vitória.
— Não tenho culpa se você gosta de perder.
— Eu gosto do desafio.
Luna corou involuntariamente.
Droga.
Droga.
Droga.
— Vamos comer? — ela disse, mudando de assunto.
— Vamos.
Os dois começaram a jantar em silêncio.
Mas não era um silêncio confortável.
Era um silêncio carregado, como se cada garfada fosse uma batalha particular.
Até que Adrian disse, sem olhar para ela:
— Você não escolheu nenhum dos vestidos que preparei.
— Não gosto de fantasia de boneca rica.
— Não eram fantasias.
— Para você, tudo é uniforme.
Tudo é controle.
Tudo tem que ser do seu jeito.
Adrian pousou os talheres com precisão perfeita.
— Você usa simplicidade como forma de rebelião.
Interessante.
— Não estou tentando ser interessante.
— Consegue mesmo assim.
Luna engoliu seco.
— Não flerta comigo — ela rosnou. — Isso não faz parte do contrato.
Adrian virou o rosto para ela, finalmente, seus olhos prendendo os dela numa intensidade absurda.
— Não estou flertando.
Estou observando.
— Observando o quê?
— Você.
O coração dela batia rápido demais.
Ela odiava isso.
Odiava.
— Pare de me analisar. — ela disse.
— Não posso. — Adrian respondeu. — Preciso entender o que estou controlando.
Ela se levantou tão rápido que a cadeira arrastou no chão.
— Você não me controla.
Adrian levantou-se devagar, como um predador que não tem pressa, porque sabe que pode alcançar a presa a qualquer momento.
— Então prove, Luna.
— Como?
— Quebre a cláusula.
O mundo dela ficou em silêncio por um segundo.
Ele estava desafiando.
Provocando.
Tentando ver até onde ela iria.
— Isso é um jogo pra você? — ela perguntou.
— Não.
É um teste.
— De quê?
Adrian deu um passo.
Depois outro.
Parou perto o suficiente para olhar dentro da alma dela.
— De até onde você aguenta…
antes de quebrar primeiro.
Luna abriu a boca para responder—
Mas, naquele exato momento…
A porta do salão se abriu.
Um funcionário correu para dentro, pálido, nervoso.
— S-senhor Vale… desculpe interromper, mas…
Aconteceu algo.
É urgente.
Adrian virou-se imediatamente.
— O que houve?
O funcionário respirou fundo, tremendo.
— É sobre sua… esposa, senhor.
Alguém… alguém fez uma denúncia.
Luna congelou.
Adrian ficou completamente imóvel.
— Que denúncia? — ele perguntou, a voz perigosamente baixa.
O funcionário engoliu seco.
— Disseram que… ela está sendo mantida aqui contra a vontade.
Silêncio.
Tensão.
Um olhar mortal entre os dois.
E então…
Adrian virou-se para Luna devagar, muito devagar.
Os olhos dele não eram mais frios.
Eram fogo.