capítulo 2- A primeira ordem

917 Words
O carro preto brilhou sob as luzes da portaria enquanto Luna encarava a mansão Vale pela primeira vez. Ela imaginava algo grande. Mas aquilo? Aquilo parecia um monumento ao ego. Vidro, mármore, colunas altas, jardins perfeitos… nada fora do lugar. Tudo milimetricamente calculado. — Ridículo — ela murmurou. Adrian abriu a porta para ela. Não por educação, mas como quem cumpre um protocolo. — Entre. Luna cruzou os braços. — Não pedi pra você abrir a porta. Ele nem piscou. — Eu não abro portas por pedidos. Eu abro porque quero. — Então feche. Não vou entrar. A sobrancelha dele arqueou devagar. — Você assinou um contrato, Luna. — Eu não assinei minha alma pra você. — Às vezes, parece que assinou. — Adrian respondeu, secamente. Ela respirou fundo, pronta para uma resposta venenosa, mas algo dentro dela sussurrou que ele queria que ela brigasse. Que ele esperava isso dela. Então ela fez o contrário. Ela sorriu. — Tudo bem. E entrou na mansão sem olhar pra ele. Adrian ficou parado por um segundo. Surpreso. Muito surpreso. Ela percebia nos olhos dele quando sua rebeldia o deixava irritado. Mas quando ela não reagia… isso mexia ainda mais com ele. Bom saber. --- O hall era gigantesco, com um lustre de cristais que parecia custar o preço de um apartamento. Luna olhou para cima e soltou: — Se isso cair, te mata na hora. Seria uma pena. — Você está ameaçando minha vida? — Adrian perguntou, tirando o paletó com precisão irritante. — Não. — ela respondeu. — Só estou fazendo uma observação otimista. Ele a encarou por um segundo que pareceu longo demais. — Venha comigo. — Já começou com ordens? — Luna provocou. — Não. — Adrian disse, aproximando-se a passos lentos. — Só estou poupando seu tempo. Você vai querer ver seu quarto. — Meu quarto? — Luna riu. — Claro. Porque não vou dormir no mesmo que você. — Óbvio. — o tom dele foi seco. — Casamento não implica convivência… física. Luna piscou, surpresa por um momento. Ele realmente não pretendia tocá-la. A cláusula não era apenas um truque. — Por aqui. — Ele fez um gesto curto com a mão. Ela bufou, mas o seguiu. Não por obediência — mas porque queria conhecer o território do inimigo. Ele abriu a porta do quarto dela. Era lindo. Espaçoso. Luxuoso. E completamente frio. Não tinha cor, não tinha vida, não tinha alma. — Você decora a casa inteira, mas deixa meu quarto igual a uma funerária minimalista? — Achei que você preferisse algo simples — Adrian disse. Luna se virou devagar. — Simples ou impessoal? — Funcional. — Ou sem qualquer coisa que lembre… humanidade? Adrian encarou-a de um modo que fez sua respiração travar por um segundo. — Não sabia que você se preocupava com a minha humanidade, Luna. Ela deu de ombros. — Não me preocupo. Mas me preocupa morar na casa de alguém que não parece ter um coração batendo. Adrian deu um passo, aproximando-se. Outro. Mais um. Luna ficou imóvel. Ele parou a poucos centímetros dela. — Você gosta de provocar, não é? — Eu gosto de ser sincera — ela respondeu. — Algo que você deveria tentar. A mandíbula dele tensionou. — Muito bem. — Adrian disse, a voz baixa. — Já que quer sinceridade, aqui vai sua primeira ordem oficial como minha esposa contratual. Luna cruzou os braços, encarando-o. — Manda. Ele inclinou levemente o rosto, como se estivesse estudando cada reação dela. — Você vai jantar comigo esta noite. — Formalmente. — Na mesa principal. — E vai se comportar. Luna soltou um riso curto e descrente. — Eu? Sentar em uma mesa de dez metros com você na outra ponta? Isso não é jantar. É uma aula de eco. Ele não reagiu ao sarcasmo. — Vista algo adequado. Minha equipe deixou opções no closet. Luna ergueu as sobrancelhas. — Você escolheu minhas roupas? — Eu escolho tudo que está sob minha proteção. Ela chegou perto o suficiente para encará-lo de igual para igual. — Eu não estou sob a sua proteção. Adrian aproximou-se mais um pouco. A respiração dele roçou a dela — sem tocar. — Está, sim. E quanto mais cedo aceitar isso… menos difícil será para você. O olhar dela queimou. — Eu não vou obedecer você. — Então quebre a cláusula — ele desafiou, a voz baixa, quase um convite perigoso. — Vamos ver o que acontece. Silêncio. Ar elétrico. Tensão quase física. Luna engoliu seco. Droga. Ele sabia jogar. — O jantar é às oito. — Adrian disse, voltando ao controle absoluto em um piscar de olhos. — Se você atrasar… será sua primeira infração contratual. Luna apertou os punhos. — E o que você vai fazer se eu atrasar? Adrian deu um meio sorriso. O primeiro que ela viu. Perigoso. Controlado. Lindo. Odiável. — Às vezes, é melhor descobrir por si mesma. Ele estava prestes a sair do quarto quando ela disparou: — Adrian. Ele parou. — Eu posso não seguir regras — ela disse — mas eu não sou sua funcionária. Nem sua marionete. Ele olhou por cima do ombro, sem virar o corpo. — Não. Você é minha esposa. Aquilo a atingiu como um soco. E então, antes que ela pudesse responder, Adrian terminou: — E esposas… obedecem. A porta se fechou suavemente atrás dele. Luna ficou sozinha no quarto grande demais, frio demais, silencioso demais. E só conseguiu pensar em uma coisa: — Eu vou destruir esse homem.
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