O carro preto brilhou sob as luzes da portaria enquanto Luna encarava a mansão Vale pela primeira vez.
Ela imaginava algo grande.
Mas aquilo?
Aquilo parecia um monumento ao ego.
Vidro, mármore, colunas altas, jardins perfeitos… nada fora do lugar.
Tudo milimetricamente calculado.
— Ridículo — ela murmurou.
Adrian abriu a porta para ela. Não por educação, mas como quem cumpre um protocolo.
— Entre.
Luna cruzou os braços.
— Não pedi pra você abrir a porta.
Ele nem piscou.
— Eu não abro portas por pedidos. Eu abro porque quero.
— Então feche. Não vou entrar.
A sobrancelha dele arqueou devagar.
— Você assinou um contrato, Luna.
— Eu não assinei minha alma pra você.
— Às vezes, parece que assinou. — Adrian respondeu, secamente.
Ela respirou fundo, pronta para uma resposta venenosa, mas algo dentro dela sussurrou que ele queria que ela brigasse.
Que ele esperava isso dela.
Então ela fez o contrário.
Ela sorriu.
— Tudo bem.
E entrou na mansão sem olhar pra ele.
Adrian ficou parado por um segundo.
Surpreso.
Muito surpreso.
Ela percebia nos olhos dele quando sua rebeldia o deixava irritado.
Mas quando ela não reagia…
isso mexia ainda mais com ele.
Bom saber.
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O hall era gigantesco, com um lustre de cristais que parecia custar o preço de um apartamento.
Luna olhou para cima e soltou:
— Se isso cair, te mata na hora. Seria uma pena.
— Você está ameaçando minha vida? — Adrian perguntou, tirando o paletó com precisão irritante.
— Não. — ela respondeu. — Só estou fazendo uma observação otimista.
Ele a encarou por um segundo que pareceu longo demais.
— Venha comigo.
— Já começou com ordens? — Luna provocou.
— Não. — Adrian disse, aproximando-se a passos lentos. — Só estou poupando seu tempo. Você vai querer ver seu quarto.
— Meu quarto? — Luna riu. — Claro. Porque não vou dormir no mesmo que você.
— Óbvio. — o tom dele foi seco. — Casamento não implica convivência… física.
Luna piscou, surpresa por um momento.
Ele realmente não pretendia tocá-la.
A cláusula não era apenas um truque.
— Por aqui. — Ele fez um gesto curto com a mão.
Ela bufou, mas o seguiu. Não por obediência — mas porque queria conhecer o território do inimigo.
Ele abriu a porta do quarto dela.
Era lindo.
Espaçoso.
Luxuoso.
E completamente frio.
Não tinha cor, não tinha vida, não tinha alma.
— Você decora a casa inteira, mas deixa meu quarto igual a uma funerária minimalista?
— Achei que você preferisse algo simples — Adrian disse.
Luna se virou devagar.
— Simples ou impessoal?
— Funcional.
— Ou sem qualquer coisa que lembre… humanidade?
Adrian encarou-a de um modo que fez sua respiração travar por um segundo.
— Não sabia que você se preocupava com a minha humanidade, Luna.
Ela deu de ombros.
— Não me preocupo. Mas me preocupa morar na casa de alguém que não parece ter um coração batendo.
Adrian deu um passo, aproximando-se.
Outro.
Mais um.
Luna ficou imóvel.
Ele parou a poucos centímetros dela.
— Você gosta de provocar, não é?
— Eu gosto de ser sincera — ela respondeu. — Algo que você deveria tentar.
A mandíbula dele tensionou.
— Muito bem. — Adrian disse, a voz baixa. — Já que quer sinceridade, aqui vai sua primeira ordem oficial como minha esposa contratual.
Luna cruzou os braços, encarando-o.
— Manda.
Ele inclinou levemente o rosto, como se estivesse estudando cada reação dela.
— Você vai jantar comigo esta noite.
— Formalmente.
— Na mesa principal.
— E vai se comportar.
Luna soltou um riso curto e descrente.
— Eu? Sentar em uma mesa de dez metros com você na outra ponta? Isso não é jantar. É uma aula de eco.
Ele não reagiu ao sarcasmo.
— Vista algo adequado. Minha equipe deixou opções no closet.
Luna ergueu as sobrancelhas.
— Você escolheu minhas roupas?
— Eu escolho tudo que está sob minha proteção.
Ela chegou perto o suficiente para encará-lo de igual para igual.
— Eu não estou sob a sua proteção.
Adrian aproximou-se mais um pouco.
A respiração dele roçou a dela — sem tocar.
— Está, sim.
E quanto mais cedo aceitar isso…
menos difícil será para você.
O olhar dela queimou.
— Eu não vou obedecer você.
— Então quebre a cláusula — ele desafiou, a voz baixa, quase um convite perigoso.
— Vamos ver o que acontece.
Silêncio.
Ar elétrico.
Tensão quase física.
Luna engoliu seco.
Droga.
Ele sabia jogar.
— O jantar é às oito. — Adrian disse, voltando ao controle absoluto em um piscar de olhos. — Se você atrasar… será sua primeira infração contratual.
Luna apertou os punhos.
— E o que você vai fazer se eu atrasar?
Adrian deu um meio sorriso.
O primeiro que ela viu.
Perigoso.
Controlado.
Lindo.
Odiável.
— Às vezes, é melhor descobrir por si mesma.
Ele estava prestes a sair do quarto quando ela disparou:
— Adrian.
Ele parou.
— Eu posso não seguir regras — ela disse — mas eu não sou sua funcionária. Nem sua marionete.
Ele olhou por cima do ombro, sem virar o corpo.
— Não.
Você é minha esposa.
Aquilo a atingiu como um soco.
E então, antes que ela pudesse responder, Adrian terminou:
— E esposas… obedecem.
A porta se fechou suavemente atrás dele.
Luna ficou sozinha no quarto grande demais, frio demais, silencioso demais.
E só conseguiu pensar em uma coisa:
— Eu vou destruir esse homem.