Quando os primeiros raios de sol suavemente penetraram pelas delicadas cortinas, Astrea despertou de seu sono e esticou-se nos macios lençóis de cetim, seus olhos se abrindo para observar o ambiente ao seu redor.
Por alguns segundos, ela tinha certeza de que era um sonho, uma c***l alucinação que ela teve enquanto lentamente morria no fundo do poço de prata.
Não tinha como estar de volta ao seu antigo quarto na mansão do Professor. No entanto, arrepios percorreram sua pele quando ela se sentou e seus pés descalços tocaram o familiar tapete de pele macia.
Era real.
Desde que tinha cerca de dez anos, ela costumava chamar aquele lugar de lar. Parecia que os últimos meses não tinham acontecido, e apenas as marcas doloridas em sua pele a lembravam do que ela tinha passado.
Eu acho que estamos de volta, Nova observou ceticamente em sua mente, e ela não conseguiu encontrar uma boa resposta para isso. Sua loba era única, colocando tempero em tudo. Às vezes, isso tornava a vida mais saborosa e, às vezes...Era demais.
Astrea examinou rapidamente o quarto e um belo vestido preto com um bilhete pendurado nele, preso ao caro candelabro de cristal, chamou sua atenção imediatamente.
Ela estava acostumada com isso. O Professor adorava surpreendê-la com coisas assim. Coisas que ela jamais poderia recusar.
Ela caminhou em direção ao vestido, com os pés levemente trêmulos, surpresa por conseguir caminhar. Um colar de serpente cravejado de diamantes envolvia um cabide dourado e segurava algumas peças de tecido de seda preta que fluíam livremente até o chão, deixando as costas nuas.
Ela abriu o bilhete, que continha apenas uma frase: O jantar é às 20h.
Não havia dúvida de que o vestido era para ela usar. Ele sempre fazia isso. Vestir isto, fazer aquilo com o cabelo, usar esta adaga para aquela missão... O Professor adorava controlar tudo.
Mas ela estava cansada demais para discordar. Provavelmente, no final, ele ia acabar matando-a. Nada mudou. Pelo menos ela podia estar bonita e manter sua dignidade.
Somente agora, Astrea percebeu que uma toalha branca e macia estava enrolada em seu corpo, que não tinha mais feridas abertas. Ela caminhou em direção a um espelho alto com uma moldura dourada e se olhou atentamente. Seus cabelos prateados-cinzentos caíam em ondas suaves sobre seus ombros, como se ela não tivesse passado meses em um buraco sujo. Sua pele, no entanto, ainda estava marcada de vermelho onde as correntes de prata tinham tocado. Aquelas levariam um tempo para cicatrizar. Seus olhos azul-celestes, normalmente brilhantes, pareciam mais opacos agora, como se não houvesse mais vida dentro dela.
"Isso não vai ficar assim." Ela suspirou, cerrando os punhos. Ela se recusava a admitir a derrota.
Não assim.
Se ele quisesse que ela morresse, não deveria tê-la tirado.
Astrea tomou um longo banho, esfregando cada centímetro de seu corpo, apesar de já ter sido limpa por alguém. Em seguida, ela cuidou de suas unhas, maquiagem e cabelo, deixando tudo perfeito.
Não adiantou, e ela ainda não se sentia como antes.
Mas ela poderia fingir...
***
As portas do salão de jantar se abriram, e ela entrou na área de mármore cinza-prateado, os saltos de seus sapatos fazendo um barulho de clique e sua cabeça erguida. Se ela tivesse que encontrar a morte hoje, ela o faria com o máximo de confiança e auto-respeito possível. A qualquer custo.
O Professor estava sentado na cabeceira da longa mesa, e apenas duas cadeiras estavam postas para a refeição. A dele e a próxima.
Ele parecia exatamente o mesmo de sempre. Alto e de ombros largos, com traços nobres perfeitos, cabelos loiros escovados para o lado e olhos verdes penetrantes que a observaram lentamente. Não aparentava ter mais de trinta anos. E foi assim que ele parecia durante a década em que ela o conhecia.
"Finalmente." Joran Nathair, o mentor que a ensinou tudo o que ela sabia, indicou o assento vago. "Por favor, junte-se a mim."
Astrea não queria participar desse jogo e se moveu para sentar na cadeira oposta a ele, aquela na ponta dessa mesa tão longa e sem pratos e talheres prontos.
"Obrigado." Ela ofereceu a ele um sorriso sem humor.
Os lábios de Joran se apertaram em uma linha fina. Havia uma coisa que ele odiava mais que tudo.
Desafio.
Para não mencionar que ele não estava acostumado a receber isso dela. Mas ela já estava em apuros profundos e não poderia ficar pior do que aquilo. Depois do poço de prata, o que ele esperava?
"Eu preferiria que você se sentasse mais perto." Ele disse, a voz vazia de emoção, mas ela sabia que ele estava furioso por dentro.
"E eu preferiria tomar as minhas próprias decisões." Ela retrucou. "Já que eu vou morrer de qualquer maneira."
Ele batucava os dedos na superfície da mesa enquanto seus olhos ardiam nela.
"É isso que você pensa?" Ele levantou a sobrancelha questionando. "Astrea, se eu quisesse que você morresse, você já estaria morta há muito tempo."
"Mas você escolheu me torturar em vez disso!" Ela riu sombriamente.
"Para te educar. Você precisava de uma lição de humildade." Como sempre, ele via tudo através do prisma de sua própria perspectiva.
"Que lição maravilhosa." Astrea balançou a cabeça com um sorriso decepcionado. "Quanto tempo durou? Quatro meses? Cinco?"
"Quatro meses e meio." Ele informou, sem parecer culpado. "Eu pretendia fazer durar seis meses."
"Nossa, me sinto tão sortuda por ter sido liberada antes." Ela o encarou.
"Sente-se." Ele repetiu em um tom calmo que não a enganou.
"Eu estou bem aqui, obrigada." Ela tentou igualar o tom dele, os dois se encarando através da longa mesa naquela sala grande. Astrea sentiu que era outro teste, mas estava cansada demais para desempenhar o papel que ele queria que ela desempenhasse. Algo quebrou nela enquanto ela estava deitada no fundo daquele poço prateado, acorrentada com comida e água m*l o suficiente para sobreviver. Foi uma mudança irreversível, provavelmente mais profunda do que quando ela escolheu não matar a família real do Norte e seus amigos nas Provas Lunares.
"Eu tenho que dizer que estou realmente decepcionado com você." Ele tirou o anel do guardanapo, ainda não parecendo incomodado com o comportamento dela. "Depois de tudo que eu fiz por você, foi assim que você escolheu me retribuir!"
Ela sentiu uma onda de culpa tomar conta dela. Negar que esse homem a salvou da morte cedo em sua vida e lhe deu um lar, educação, treinamento e propósito seria uma mentira. Ela sabia que devia a ele, mas uma parte dela sentia que já o havia retribuído por tudo.
"Não estava certo." Ela abaixou a cabeça, não querendo elaborar. “Eles eram boas pessoas. Eles não mereciam morrer.”
“Às vezes, pessoas boas atrapalham o bem maior.” Joran suspirou pesadamente, recostando-se na cadeira. “Esse foi o caso aqui. Eles tiveram que morrer para que muitas outras pessoas pudessem viver bem.”
“Duvidoso!” As palavras saíram de sua boca mais rápido do que ela conseguia processá-las.
“Só porque você não conseguiu ver o quadro geral não significa que ele não esteja lá, Astrea. Achei que tinha te ensinado melhor do que isso.”
“Você ensinou.” Ela admitiu porque era a verdade. Seu treinamento foi duro, mas teve resultados impecáveis. Não foi seu treinamento que falhou. Foram as emoções que ela sentiu naquela missão. As pessoas que ela conheceu nas Provas Lunares se tornaram suas amigas. Ou pelo menos a coisa mais próxima que ela tinha de amigos.
“Então, por que você desafiou minha ordem? Por que você me traiu?” Joran ainda parecia calmo, frio até, mas isso não a enganou.
“Porque eu simplesmente não conseguia fazer isso! Não estava certo! A Rainha do Reino Ocidental estava grávida, pelo amor de Deus — ela era a pessoa mais gentil que já conheci. E o bebê dela... Eu não posso matar crianças! Eu já disse isso antes!" Ela retrucou.
"Você poderia ter envenenado todo mundo, menos ela. Eu teria perdoado isso!" O maxilar de Joran se apertou. "Mas você me fez acreditar que completou a missão, me preparando para o fracasso quando deixamos o Norte, e todos que eu pensava estarem mortos de repente apareceram vivos em um campo de batalha. Você sabia que perdi alguém com quem me importava por causa do que você fez?"
Ela não sabia disso. Ela nem sabia que havia alguém com quem ele se importava.
Joran continuou como se ouvisse seus pensamentos. "Havia apenas duas pessoas queridas ao meu coração. Uma morreu, e a outra é uma traidora agora."
Por algum motivo, isso doeu. Eles passaram muitos anos juntos para que ela não se importasse. No entanto, ela também não tinha ilusões.
"Então, para onde vamos a partir daqui?" Astrea perguntou calmamente.
“Sente-se e nós conversaremos.” Ele a interrompeu, ainda tentando dobrá-la à sua vontade.
“Estou bem aqui.” Ela cruzou os braços sobre o peito.
"Então, você escolheu continuar teimosa." Joran suspirou, e ela pôde sentir sua raiva perpassando o ar, mesmo que nada em sua aparência a mostrasse.
"E agora?" Ela perguntou, cansada de tudo isso. "Você vai me matar ou não?"
"Matar você?" O homem riu, sorriu sombriamente. "Astrea, por que você pensaria isso? Eu nunca faria m*l a você. Eu simplesmente não posso. Você é minha Libélula."
Ela quase quis rir disso, considerando que suas mãos e pescoço ainda tinham vestígios das correntes de prata.
"Precisamos de mais vinho aqui, por favor!" Joran levantou a voz, e Niki entrou com uma bandeja, fazendo a confiança de Astrea desaparecer.
Sua guardiã despejou o líquido rubi no copo de Joran e parou antes do segundo copo, na cadeira vazia.
"Com licença." Ela perguntou baixinho, conhecendo seu lugar muito bem. Ela ainda era uma aprendiz, e a Ascensão estava à sua frente. "Devo levar o copo para Astrea?"
"Claro que não!" Os lábios de Joran se arquearam, "Astrea vai se juntar a mim aqui. Não é, Libélula?"
Era uma ameaça. Um aviso. Niki estava ali por algum motivo, e cada célula do corpo de Astrea gritava que era uma nova armadilha doentia. Ele não podia abalar sua determinação, então ele encontrou uma alavanca... Ela pensou que ninguém sabia que eles estavam se aproximando. Ela tentou tornar isso parecido com uma relação comum entre mentor e pupilo para evitar essa exata situação.
É claro que ele descobriu. O Professor sempre soube de tudo. Ela foi estúpida ao pensar que poderia enganá-lo.
"Claro." Ela respondeu, tentando esconder o veneno em sua voz, se levantando elegantemente e escondendo a tempestade de emoções por dentro.
Assim que ela se sentou ao lado dele, o humor de Joran melhorou. As vitórias o afetavam assim, e Astrea já sabia que tinha perdido a primeira batalha entre eles em minutos. Quão estúpida ela foi pensando que poderia durar mais tempo? Ela não podia deixar Niki morrer ou se machucar em seu lugar. Ele encontrou sua única fraqueza.
A comida deles foi servida menos de um minuto depois, mas ela não conseguia encontrar forças para tocar em qualquer coisa. Ela se sentia presa novamente. Aquilo não era o fundo do poço de prata, mas de alguma forma, era tão r**m quanto.
"Coma alguma coisa." Joran disse preguiçosamente. "Você precisa recuperar suas forças. O bife parece especialmente bom hoje. Do jeito que você gosta."
"Eu não comi comida normal em meses." Ela respondeu bruscamente. "Se eu começar a empurrar carne para dentro do meu estômago, só vou me deixar doente."
Todos já foram embora, e eram apenas os dois novamente. Joran pegou a mão dela e a trouxe para perto de seu rosto, examinando as marcas em seus pulsos.
"Sinto muito que você tenha passado por isso. Você conhece as regras. Eu já estou quebrando elas ao deixar você viva, mas você é a única pessoa pela qual eu faria isso." Ele passou o polegar pela marca vermelha, e ela gemeu, pois ainda estava muito fresca. No entanto, ondas de alívio percorreram seu corpo no momento seguinte, aliviando a dor e fazendo as marcas desaparecerem. "Isso parece melhor. Agora coma."
Ela realmente se sentiu melhor, sua força física sendo reabastecida com um único toque dele. Ela sabia que ele não era apenas uma criatura metamorfa comum e tinha todo tipo de habilidades há anos, mas era raro ele demonstrar assim.
Eles comeram em silêncio, e ela estava perdida. Ele não ia matá-la; deixara isso claro. Mas também não podia mais confiar nela. Para que era aquele jantar? Qual era o plano dele para ela? Muitas perguntas que ela não podia fazer diretamente porque não tinha certeza se queria saber as respostas.
“Você acha que sou muito cruel." Ele disse do nada quando os pratos foram retirados. “Fico desapontado por você sentir assim, mas sinto que é parcialmente minha culpa. Ainda não consigo processar que você acreditava que eu deixaria você morrer.”
“Eu conheço as regras.” Ela respondeu tranquilamente, tentando não mexer as mãos para mostrar o quanto estava estressada com toda a situação. “Qualquer Primogênito que desobedece a você morre.”
“Mas você não é só mais uma Primogênita!” Ele bateu com o punho na mesa, fazendo os copos sobre ela se moverem e ameaçarem cair. “Você é minha Libélula! Minha única e verdadeira discípula. Por que você acha que eu te ensinei tudo o que podia?”
“Para me tornar sua arma.” Ela respondeu de forma direta, e ele atirou sua taça de vinho contra a parede oposta, fazendo-a se estilhaçar em pedaços. Niki apareceu imediatamente para limpar a bagunça, e Astrea não pôde deixar de se sentir nervosa. Ela não gostava que sua protegida estivesse tão perto quando o Professor não estava de bom humor.
“É isso que você acha?” Ele segurou a mão dela, fazendo-a olhar para ele.
“Por que mais você me treinaria?” Ela arrancou sua mão de seu aperto.
Seus olhos brilhavam com fogo.
“Para te tornar forte! Para te fazer o que você é hoje.” Sua resposta a chocou, mas ela tentou não ler muito nisso. “Não me diga que você nunca soube o quão especial você é para mim, Libélula.”
“Você teve mais quatro Libélulas.” Ela o lembrou, desviando o olhar de seu olhar intenso. “Eu não era tão especial assim.”
“Bem, agora são três, graças a você.” Ele a lembrou que ela matou uma durante sua rebelião. “Mas também — elas estão lá apenas para ser seu time quando você precisar delas. Eu as mantenho apenas para você e as chamo assim para que os de fora não saibam qual delas eu realmente me importo.”
Astrea não sabia o que fazer com essa informação.
Seu Professor não era um homem bom. Essa não era uma relação saudável, e se ele não a estava treinando para ser sua arma, então ela não queria saber por que ela estava ali em primeiro lugar e por que ele precisava que ela fosse tão forte.
“Eu quero sair.” Ela disse, sabendo que essa era a única decisão racional que poderia tomar. Ela não podia fingir que tudo estava bem; ela não podia agir como se fosse uma pequena Libélula obediente dele. Ela tinha mudado, e se ela tivesse que morrer por isso, pelo menos ela morreria sendo fiel a si mesma.
Ele ficou em silêncio por um tempo, e ela tinha medo que ele a repreendesse agora, a devolvesse à cela ou pior - matasse Niki na frente dela. A última opção seria a mais dolorosa, então ela se esforçou muito para não olhar na direção de sua protegida.
“Vamos fazer um acordo então.” Joran disse com uma voz calma que ecoou pelos salões de mármore, e seus olhos se fixaram nele, os lábios entreabertos em choque.
Ela sabia muito bem que os acordos de seu Professor nunca terminavam bem para aqueles que aceitavam. Todo o exército dos Primogênitos era uma prova disso. Eles não eram chamados de Primogênitos à toa. Um dia, cada um de seus pais fez um acordo onde prometiam seus filhos primogênitos para Joran em troca de algo, e seu Professor sempre cumpria sem demoras. A maioria deles foi trazida aqui com a idade de oito anos.
Astrea era a única exceção porque ele a salvou quando sua família morreu. Tecnicamente, não havia um acordo a prendendo a este lugar.
“Não.” Ela disse em um tom que não aceitava objeções. “Eu não quero nenhum acordo com você.”
“Isso significa que eu te ensinei bem.” Ele sorriu, colocando sua mão grande sobre a mão delicada dela na mesa. “No entanto, desta vez, é o acordo ou nada.”
“Eu escolho o nada então.” Ela o olhou desafiadoramente, o que apenas o divertiu ainda mais.
“Eu gostaria de mais vinho.” Ele enfatizou a última palavra, e Niki apareceu instantaneamente. Ele claramente deixou claro e lembrou-a de que ela já havia perdido aquela argumentação.
Niki desapareceu novamente, e Astrea o olhou irritada.
“Você sabe que ela é sua melhor aprendiz, não é?” A mulher arqueou a sobrancelha branca como a neve. “Ninguém cuida melhor de um aprendiz do que ela, e você nunca teve ninguém melhor desde–”
“Desde você. Eu sei.” Joran confirmou com indiferença, passando a mão pelos cabelos loiros-escuros.
“Ela deveria estar se preparando para a Ascensão, não servindo vinho em taças!” Astrea cuspiu as palavras, instantaneamente se arrependendo. Ela não precisava chamar ainda mais atenção para Niki.
“E ela vai. Assim que acabarmos com essa bobagem.” Seu Professor não se incomodou nem um pouco. “Está tudo nas suas mãos.”
“Então pare de fingir que eu tenho uma escolha!” Astrea estava perdendo a paciência rapidamente.
“Você tem uma escolha.” ele corrigiu. “Só que não é ilimitada.”
“Qual é o acordo então?” Ela decidiu não enrolar.
“Veja bem, isso não é tão difícil assim, né?” Joran soltou uma risada comemorativa, e quando ela não reagiu, o sorriso dele se alargou. “De qualquer forma, nada muito difícil desta vez. Não para você, pelo menos.”
Ela não acreditou. Ele não estaria pedindo isso a ela se fosse fácil. Em algum lugar, certamente havia uma pegadinha.
“Estou ouvindo.” Astrea queria encerrar essa conversa rapidamente.
“Você já sabe que, graças a você, meu plano anterior falhou e não conquistamos o Reino Licano do Norte.” Ele informou, e ela franziu o cenho, secretamente feliz. Na verdade, ela queria rir dele, mas sabia que não devia. Uma demonstração de emoções podia lhe custar caro. “Então, agora preciso que você conserte seu erro.”
“Você quer que eu conquiste um Reino?” Ela bufou alto. Aquilo era ridículo.
“Eu quero que você me ajude a terminar o que eu comecei.” Joran parecia tão sério quanto sempre. “Além disso, vou te dar o que você deseja desesperadamente.”
“Liberdade?” Ela provocou, ficando mais corajosa a cada minuto. Ele não ia matá-la, e ela estava começando a implicar com ele. Aquilo era a única alegria que restava a ela, estar presa em suas garras mais uma vez.
“Eu vou te dar a liberdade se você tiver sucesso.” Ele provocou de volta, e sua arrogância desvaneceu.
“Você está brincando!” Astrea tinha certeza de que não podia ser verdade.
“Eu não estou.” Ele a assegurou, um sorriso esboçando-se vagarosamente em seu rosto. “Interessada agora?”
“Eu e Niki.” Ela disse de uma vez. Ela não tinha muito a perder. Ela poderia tentar salvar sua protegida também.
“Não.” Joran respondeu firmemente. “O que você acha que isso é? Um leilão de caridade? Esse acordo é só para você e mais ninguém.”
Ela mordeu a parte interna da bochecha, tentando se acalmar. A adrenalina estava correndo em suas veias. Ela poderia pensar em salvar Niki em outro momento. Se ela conseguisse escapar e encontrasse Niki em uma de suas futuras missões, poderia ajudar sua protegida a fugir.
“Não me diga que isso vai ser um problema para você.” Seu Professor estava gostando disso. “Você já a deixou para trás uma vez. Qual é o problema em fazer isso de novo? Você nos abandonou com facilidade suficiente.”
Nós. Não só ela.
“Não foi nada fácil.” Astrea travou seu olhar com o dele, vendo um oceano de emoções neste homem geralmente frio.
“Ah?” ele inclinou a cabeça, observando-a com atenção. “Fico feliz em saber disso.”
“Quando eu não pude seguir sua ordem, eu sabia que estava condenada.” Ela confessou honestamente. “Eu apenas peguei a última chance que tive para sobreviver...”
“Você poderia ter vindo até mim.” Ele a interrompeu, mas uma risada escapou dela ao ouvir isso. Ele a encarou com raiva, e ela mordeu a língua. Não era hora de irritá-lo.
“No que consiste a missão de novo?” Ela decidiu voltar ao tópico original, evitando territórios perigosos.
“Eu quero que você vá para o Leste.” Ele respondeu de forma seca. “Era para onde você estava indo, certo? Bem, aqui está. Seu desejo foi atendido.”
“Por que você precisa de mim lá? Aquele reino já desapareceu faz tempo. Não há nada a conquistar, nada a ganhar. Só vivem lá pessoas fora da lei, os rene–” Ela parou de falar quando a realização a atingiu, os olhos voltados para seu mentor em choque.
“Vejo que você já está no caminho certo.” Joran assentiu para ela, com o canto dos lábios se curvando para cima. “Eu quero usar os renegados na próxima guerra. Eles devem lutar ao lado de nossa República Licana do Sul.”
Ela o encarou em choque, sem palavras.
“Vamos lá, Astrea, até você tem que admitir. O plano é perfeito. Renegados são dispensáveis. Eles serão nossos guerreiros perfeitos. Há apenas um problema.”
“Qual é?” Ela já não gostava dessa missão.
“Seu Rei é muito reservado, e eu quero que você descubra todos os segredos dele. Afinal de contas, eu preciso saber com quem estou trabalhando.”
“O que eles vão pensar que eu estou fazendo lá?” Ela perguntou.
“Oh, isso é fácil. A segunda parte da sua missão é preparar esses renegados para o Encontro Alfa daqui a alguns meses. Eles precisam saber o que dizer e, o mais importante, o que não fazer para que possamos formar uma aliança oficial com eles. Nem todo Alfa do Sul concorda com este projeto, e eu quero persuadi-los a todos.”
“Você quer que eu ensine etiqueta e brinque de se fantasiar com renegados?” Ela franziu a testa. Tudo isso ainda parecia uma piada.
“Depois de sua experiência nas Provas Lunares acho que você será perfeita para essa tarefa.” Ele provocou. “Mais alguma pergunta?”
Astrea deu um gole em seu vinho. De repente, ela sentiu que precisava.
“Você realmente vai me deixar ir?” Seus olhos se encontraram em uma resistência silenciosa.
“Uma vez que essa aliança for feita, eu vou te conceder a liberdade. Se você ainda quiser, é claro.” Os lábios de Joran se curvaram.
“Por que eu não iria querer?” Ela terminou seu copo e o colocou de volta na mesa.
“Qualquer coisa pode acontecer.” Ele parecia satisfeito por algum motivo, mas ela ainda não conseguia decifrá-lo completamente.
Ela nunca teria concordado com um acordo com ele se fosse uma escolha. No entanto, agora ela tinha que ser sábia. Isso era um jogo de sobrevivência e ela ainda estava nele. Enquanto estivesse viva, ainda não estava acabado. E quem sabe, talvez o Professor manteria sua palavra. Ele nunca havia quebrado uma única promessa que fez a ela até agora. Ela tinha que lhe dar isso.
Sem mencionar que escapar do Reino Perdido Oriental seria mais fácil do que desta ilha. Então, se tudo desse errado, ela tinha outras opções.
“Haverá mortes envolvidas?” Ela queria esclarecer.
“Isso dependerá do tipo de informação que você me trouxer.” Joran sorriu maliciosamente. “Isso é um problema para você?”
“Não.” Ela respondeu sem hesitação. Realmente não era. Ela poderia matar renegados se necessário. Pela sua liberdade e potencialmente pela vida de Niki.
“Fico feliz que estejamos na mesma página,” Joran levantou-se. “E agora, a parte importante. Sua tatuagem.”
Astrea estremeceu com o pensamento. As pessoas que chegavam à ilha treinavam por anos no acampamento e depois tinham que passar pela cerimônia da Ascensão. Na data auspiciosa do ano, eles eram enviados para a floresta cheia de feras mágicas mortais e armadilhas, e apenas aqueles que saíam vivos eram então chamados de Primogênitos e recebiam um presente especial de Joran. Fazia parte dos privilégios deles.
O tal presente era uma tatuagem cheia de magia divina. Ela multiplicava dez vezes os poderes deles e só funcionava no primeiro filho de pais mutáveis. Essa era a razão pela qual Joran só estava interessado neles.
A maneira perfeita de construir o exército mais forte, e uma vez que ele os afastou de suas famílias quando ainda eram jovens, eles eram dedicados a ele.
Quando Astrea fugiu depois de enganar a todos, ela queimou a tatuagem de libélula em sua pele para que Joran não pudesse rastreá-la usando sua magia em seu sistema. Infelizmente, os lobisomens se regeneravam rapidamente, e a tatuagem voltava após algum tempo, fazendo-a repetir a queimação várias vezes. Mesmo no poço de prata, ela conseguia se curar.
"E o que tem minha tatuagem?" Ela engoliu em seco quando ele já estava imponente ao seu lado, seus dedos percorrendo a tatuagem em suas costas, provocando arrepios.
"Você tentou destruí-la, e eu acho que você precisa de uma nova." Ele cogitou, e o sangue em suas veias gelou.
"Uma nova?" Ela se afastou, levantando-se de sua cadeira. Sua risada seca ecoou. "Por que uma nova? A antiga voltou como um amuleto!"
"Porque eu quero garantir que você não possa mais queimá-la ou cortá-la." Joran sorriu maliciosamente. "Venha aqui."
Ele se dirigiu ao seu escritório, e ela o seguiu, sabendo que era melhor não prolongar isso.
"Onde você quer que eu fique?" Ela perguntou distraída quando os dois já estavam dentro, e seus lábios se curvaram. Ela decidiu encarar isso como a soldado que era e terminar logo.
"Na janela." Ele disse, e ela obedeceu, com os joelhos trêmulos.
"Mãos no vidro." Joran se posicionou logo atrás. Sabendo que se tatuagens reais doíam, as divinas eram centenas de vezes piores. Era algo que alguns dos recrutas não conseguiam sobreviver.
Ela era diferente, no entanto, e poderia aguentar pela segunda vez.
Joran lentamente afastou seus longos cabelos de seu pescoço, entrelaçando os dedos neles e os empurrando para um lado.
"Quando eu toco seus fios, é como se estivesse tocando o céu estrelado." Ele murmurou, e ela não deu atenção a isso. Habilidosamente, ele desprendeu o colar de serpente de seu pescoço, fazendo o tecido cair. Ela o segurou com uma das mãos para se cobrir e preservar um pouco de dignidade.
"Agora, onde eu devo colocá-la?" Joran examinou sua pele como um mapa, parando para traçar a tatuagem de libélula brilhante em sua pele. Em seguida, seus dedos se moveram para o pescoço dela, a arrepiando ainda mais enquanto avançavam até se fecharem ao redor, apertando, fazendo-a jogar a cabeça para trás.
Joran estava completamente no controle.
"Lembre-se de que isso é necessário não apenas para rastreá-la, mas principalmente para sua proteção." Ele sussurrou em seu ouvido. "Quando te perdi a primeira vez e não sabia onde você estava, meu maior medo era que algo r**m acontecesse com você. Foi tão r**m que cometi erros cruciais na guerra. E eu nunca cometo erros. Você sabe disso, Astrea."
"Desculpe." Ela disse porque sabia que ele queria, não porque sentia isso.
"Está tudo bem agora." Joran suspirou, e sua segunda mão tocou a área disponível na parte de trás de seu pescoço. "Vamos consertar tudo juntos. E então... Então veremos como as coisas se desenrolam. Se você quiser me deixar e ser livre, tudo bem. Mas se você quiser voltar e ficar ao meu lado a qualquer momento durante ou depois dessa tarefa, eu sempre vou te receber de volta. Quero que você saiba disso. Você é muito especial para mim, Astrea. Então, este é o novo acordo entre nós. Fechado?" Sua respiração quente queimou sua pele.
"Fechado." Ela exalou, e no momento seguinte, um flash de dor ardente e intensa atravessou todo o seu corpo.