A casa estava em silêncio.
Não o silêncio controlado de agora.
Mas aquele silêncio de madrugada… onde tudo parece suspenso.
A janela rangeu baixo.
Quase nada.
Mas o suficiente.
Morgana não se mexeu de imediato.
Deitada, olhando pro teto.
Esperando.
Porque já sabia.
Um segundo depois…
ele estava lá.
Leon.
Entrando como se não fosse errado.
Como se nunca tivesse sido proibido.
— Você demora — ela murmurou, sem olhar.
— Você conta — ele respondeu, fechando a janela com cuidado.
Ela virou o rosto então.
E sorriu.
Diferente do de agora.
Mais leve.
Mas ainda… perigoso.
— Eu poderia não abrir.
Ele se aproximou.
Sem pressa.
Sem medo.
— Você sempre abre.
Silêncio.
Mas não pesado.
Não ainda.
Ele parou perto da cama.
Olhando pra ela de cima.
Como se estivesse tentando entender até onde aquilo ia.
Ou até onde ele iria.
— Se pegarem você aqui… — ela começou
— Não vão — ele cortou.
Confiança.
Ou teimosia.
Ela sentou devagar.
Agora mais perto.
Muito mais perto.
— Você não tem medo?
Ele inclinou levemente a cabeça.
— De você?
Um segundo.
E então ele deu um meio sorriso.
— Nunca tive.
Mentira.
E os dois sabiam.
Ela chegou mais perto.
Sem pedir.
Sem aviso.
— Devia.
O espaço entre eles desapareceu.
Não rápido.
Mas inevitável.
Ali não tinha regra.
Não tinha nome.
Não tinha permissão.
Só escolha.
E pela primeira vez…
nenhum dos dois tentou evitar.
VOLTA AO PRESENTE
O ar voltou.
Pesado.
Denso.
Real.
Leon piscou uma vez.
Como se tivesse saído de um lugar onde não deveria ter ido.
Morgana ainda estava ali.
Perto.
Muito perto.
— Diferente… — ela repetiu, baixo
— mas não tanto.
Silêncio.
E dessa vez…
ele não respondeu.
Mas também não se afastou.