O QUASE DESCONTROLE

491 Words
O ar estava pesado demais pra continuar sendo ignorado. Nenhum dos dois recuava. Nenhum avançava o suficiente. Milímetros. — Diferente… — ela repetiu, baixo — mas não tanto. Leon não respondeu. Mas dessa vez… ele parou de segurar tudo. Deu um passo. Agora não havia espaço. Nenhum. O olhar dele desceu. Lento. Sem disfarce. Os lábios dela. Voltou. Tarde demais. Morgana percebeu. Claro que percebeu. E não facilitou. Nem dificultou. Só ficou. — Ainda vai fingir que não sente? — ela murmurou. A mandíbula dele travou. Por um segundo inteiro. Como se estivesse decidindo entre duas versões de si mesmo. — Você não facilita — a voz saiu mais baixa. Mais áspera. Ela inclinou o rosto. Encurtando o nada que restava. — Nunca foi a ideia. Silêncio. Respiração próxima. Errada. E então… ele cedeu. A mão dele subiu. Sem cuidado agora. Segurou o rosto dela com firmeza. Quase brusco. Como se já estivesse irritado com o próprio controle. Morgana não provocou. Não sorriu. Não jogou. Só ficou. E isso… foi pior. Ele se inclinou. Dessa vez sem fingir que podia parar. Os lábios se encontraram. Não foi lento. Não foi suave. Foi contido à força. Como se tivesse sido segurado por tempo demais. Um segundo. Talvez dois. E estava prestes a deixar de ser controle. O celular vibrou. Alto. Cortando o momento como lâmina cega. Leon não se afastou de imediato. Erro. Um microsegundo a mais. Como se ainda pudesse ignorar. Vibrou de novo. Insistente. Impossível de ignorar. Ele se afastou abruptamente. Não suave. Não controlado. Arrancado. A respiração veio mais pesada do que deveria. E ele virou o rosto. Passou a mão pelo cabelo. Curto. Seco. Irritado. O celular vibrou outra vez. Ele pegou. Com força demais. — Fala. Do outro lado, a voz de Gianni. Rápida. Tensa. Falando alto demais pra ser boa notícia. Leon fechou os olhos por um segundo. Só um. Mas suficiente pra mostrar o peso. — Eu disse pra não mexer nisso agora. A voz saiu baixa. Mas cortante. Do outro lado, mais explicações. Mais problema. Mais caos. A mão dele apertou o celular. Quase até o limite. — Eu tô indo. Desligou sem esperar resposta. Silêncio. Mas não o mesmo. Agora tinha algo quebrado ali. Morgana não falou nada. Só observou. Registrando. Como sempre. Leon passou a mão pelo rosto. Devagar. Tentando voltar ao lugar de antes. Mas não voltando totalmente. Ele deu um passo pra longe. Depois outro. — Problema nos negócios — disse, sem olhar. Curto. Frio. Mas atrasado. Ela cruzou os braços. — Claro que é. Silêncio. Ele passou por ela. Sem encostar. Dessa vez evitando. Não por falta de vontade. Por excesso. Parou na porta. Por um segundo. Como se fosse dizer algo. Ou voltar. Não fez nenhum dos dois. — A gente termina isso depois. Saiu. A porta fechou. Morgana ficou parada. Um segundo. Dois. E então um sorriso leve apareceu. Frio. Mas não vazio. — Você já começou.
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