O galpão parecia vazio até demais.
Não era silêncio. Era ausência.
A luz fraca do teto tremia como se até ela tivesse medo de cair no chão de concreto rachado. O cheiro era antigo: ferrugem, poeira e coisas que ninguém mais queria nomear.
Ali dentro, o tempo não corria. Arrastava.
E no centro disso tudo, ela.
Morgana Salvatore.
Mas ali, ninguém chamava pelo nome.
Chamavam de Sombra.
A executora que não deixava rastros.
A presença que vinha depois do erro… e apagava o erro junto.
Diziam que quem era levado por ela não voltava a existir.
Não por morte simples.
Mas por desaparecimento absoluto.
Como se o mundo esquecesse de tentar lembrar.
O homem na cadeira não sabia disso ainda.
Mas já sentia.
O metal sob ele rangia a cada respiração falha. O suor descia frio pela testa.
Morgana o observava em silêncio, a cabeça levemente inclinada, como quem avalia algo sem valor.
Na mão dela, a lâmina girava devagar.
Sem pressa. Nunca pressa.
— Por favor… eu só tenho família…
Ela piscou devagar.
E então sorriu.
Um sorriso pequeno. Errado. Quase curioso.
— Todos têm.
A voz dela não tinha raiva.
Não tinha nada.
Era pior.
Era normal.
Ela deu um passo à frente.
O suficiente pra ele perceber que implorar já tinha sido tarde há muito tempo.
A lâmina encostou.
Leve.
Quase gentil.
E foi exatamente aí que o homem começou a quebrar.
Atrás dela, passos firmes cortaram o galpão.
Leon.
Ela não virou.
Não precisava.
A presença dele sempre chegava antes da voz.
— Ele falou? — ele perguntou.
Calmo. Controlado.
Como se aquilo fosse só mais uma reunião.
— Ainda não — Morgana respondeu, sem olhar.
Silêncio.
Denso.
Leon se aproximou até parar ao lado dela.
— Faz ele falar.
Agora sim, ela virou o rosto.
Devagar.
E o sorriso voltou — menor ainda dessa vez.
— Você fala como se eu não soubesse o que estou fazendo.
Alguns homens ao fundo prenderam a respiração.
Ninguém respondia assim pra ele.
Ninguém além dela.
Leon não reagiu de imediato.
Mas o olhar dele mudou.
Quase imperceptível.
— Eu não estou pedindo.
Ela voltou o olhar pro homem na cadeira.
E girou a faca entre os dedos.
— Engraçado… eu também não gosto de pedir nada.
O homem chorou antes mesmo da primeira pressão.
E ela viu isso acontecer como quem observa algo natural.
Funcional.
Útil.
E… previsível.
Atrás dela, Leon observava.
Não o homem.
Ela.
Sempre ela.
— Você ainda gosta disso — ele disse baixo.
Morgana inclinou levemente a cabeça.
— Do quê?
— Do controle.
Ela virou só o suficiente pra encará-lo de lado.
— Estranho… eu ia dizer o mesmo sobre você.
O ar mudou.
Mais pesado.
Mais íntimo.
Leon deu um passo à frente.
Perigoso.
— Um dia você vai cruzar a linha, Morgana.
Ela chegou um pouco mais perto também.
Sem hesitar.
Nunca hesitava.
— Talvez eu já tenha cruzado.
Silêncio.
Um segundo inteiro onde o mundo inteiro pareceu prender a respiração junto.
E então ela inclinou levemente o rosto, um sorriso quase preguiçoso surgindo no canto da boca.
— Forse l’ho già attraversata. (Talvez eu já tenha cruzado.)
E por um segundo…
Leon esqueceu que precisava respirar.