ORDEM E SANGUE

536 Words
O galpão parecia vazio até demais. Não era silêncio. Era ausência. A luz fraca do teto tremia como se até ela tivesse medo de cair no chão de concreto rachado. O cheiro era antigo: ferrugem, poeira e coisas que ninguém mais queria nomear. Ali dentro, o tempo não corria. Arrastava. E no centro disso tudo, ela. Morgana Salvatore. Mas ali, ninguém chamava pelo nome. Chamavam de Sombra. A executora que não deixava rastros. A presença que vinha depois do erro… e apagava o erro junto. Diziam que quem era levado por ela não voltava a existir. Não por morte simples. Mas por desaparecimento absoluto. Como se o mundo esquecesse de tentar lembrar. O homem na cadeira não sabia disso ainda. Mas já sentia. O metal sob ele rangia a cada respiração falha. O suor descia frio pela testa. Morgana o observava em silêncio, a cabeça levemente inclinada, como quem avalia algo sem valor. Na mão dela, a lâmina girava devagar. Sem pressa. Nunca pressa. — Por favor… eu só tenho família… Ela piscou devagar. E então sorriu. Um sorriso pequeno. Errado. Quase curioso. — Todos têm. A voz dela não tinha raiva. Não tinha nada. Era pior. Era normal. Ela deu um passo à frente. O suficiente pra ele perceber que implorar já tinha sido tarde há muito tempo. A lâmina encostou. Leve. Quase gentil. E foi exatamente aí que o homem começou a quebrar. Atrás dela, passos firmes cortaram o galpão. Leon. Ela não virou. Não precisava. A presença dele sempre chegava antes da voz. — Ele falou? — ele perguntou. Calmo. Controlado. Como se aquilo fosse só mais uma reunião. — Ainda não — Morgana respondeu, sem olhar. Silêncio. Denso. Leon se aproximou até parar ao lado dela. — Faz ele falar. Agora sim, ela virou o rosto. Devagar. E o sorriso voltou — menor ainda dessa vez. — Você fala como se eu não soubesse o que estou fazendo. Alguns homens ao fundo prenderam a respiração. Ninguém respondia assim pra ele. Ninguém além dela. Leon não reagiu de imediato. Mas o olhar dele mudou. Quase imperceptível. — Eu não estou pedindo. Ela voltou o olhar pro homem na cadeira. E girou a faca entre os dedos. — Engraçado… eu também não gosto de pedir nada. O homem chorou antes mesmo da primeira pressão. E ela viu isso acontecer como quem observa algo natural. Funcional. Útil. E… previsível. Atrás dela, Leon observava. Não o homem. Ela. Sempre ela. — Você ainda gosta disso — ele disse baixo. Morgana inclinou levemente a cabeça. — Do quê? — Do controle. Ela virou só o suficiente pra encará-lo de lado. — Estranho… eu ia dizer o mesmo sobre você. O ar mudou. Mais pesado. Mais íntimo. Leon deu um passo à frente. Perigoso. — Um dia você vai cruzar a linha, Morgana. Ela chegou um pouco mais perto também. Sem hesitar. Nunca hesitava. — Talvez eu já tenha cruzado. Silêncio. Um segundo inteiro onde o mundo inteiro pareceu prender a respiração junto. E então ela inclinou levemente o rosto, um sorriso quase preguiçoso surgindo no canto da boca. — Forse l’ho già attraversata. (Talvez eu já tenha cruzado.) E por um segundo… Leon esqueceu que precisava respirar.
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