O PASSADO

531 Words
O galpão ficou pra trás como se nunca tivesse existido. Morgana saiu sem pressa. Não havia sangue nela. Não visível. Ela evitava desperdício. Sempre. A faca foi guardada como quem encerra uma tarefa doméstica. Simples. Rápida. Sem peso. Do lado de fora, a noite de Nápoles respirava quente e indiferente. Ninguém olhava pra ela duas vezes ou sobrevivia pra contar. Era assim que ela gostava. Na casa, o silêncio tinha outra forma. Não era vazio. Era controle. Ela entrou, fechando a porta sem força demais. Tirou o casaco devagar, como se estivesse deixando uma versão dela mesma no chão. Depois foi pro banheiro. no chuveiro... Água quente. Constante. Caindo. E ali… sem aviso… o passado abriu. O cheiro era diferente naquela época. Não tinha ferro. Não tinha pólvora. Tinha casa. Tinha pão. Tinha vida que ainda não tinha sido quebrada. Ela tinha oito anos. E um dia comum que não era comum de verdade. Os homens chegaram sem pedir licença ao mundo. Uniformes escuros. Olhar pesado. Silêncio treinado. A menina não entendeu de imediato. Não viu o pai entrar. Só viu o jeito como a sala mudou de temperatura sem tocar nada. Um deles falou. Calmo demais pra ser humano. — Ele morreu. Só a frase. Seca. Inteira. Irreversível. E foi isso. O mundo não quebrou em pedaços. Ele simplesmente deixou de fazer sentido. O homem continuou. — Você vai vir comigo. Ela não respondeu. Não porque entendeu. Mas porque não tinha onde encaixar aquilo ainda. Ele observou por um instante. Como se esperasse alguma reação que não fosse infantilidade. Depois completou: — Você vai ser cuidada. Vai ter uma casa. Vai ter segurança. Palavras que não pertenciam mais a ela. Casa. Segurança. Nada daquilo tinha o mesmo formato agora. E então ele virou levemente o corpo, como quem encerra algo já decidido. — A partir de hoje… você vai morar em uma nova casa. Sem escolha. Sem despedida que fizesse sentido. Sem tempo pra ser criança mais uma vez. Sem preparação. Sem explicação que coubesse numa criança. O mundo simplesmente… acabou ali. Depois veio a mudança. A casa nova. Grandes portas. Vozes desconhecidas. Regras sem nome. Um homem mais jovem do que deveria parecer , importante a recebeu. Don Giuseppe. Olhos firmes. Postura de quem não estava surpreso com o acontecido. Ele não sorriu. Mas falou com cuidado. — Você vai ficar aqui agora. Ela não respondeu. Não sabia o que aquilo significava ainda. Só sabia que nada mais era dela. Naquela casa, ela conheceu nomes novos. Anna — observadora e curiosa. Gianni — pequeno demais pra entender tudo, mas a olhou como se ela fosse algo que ele ainda não sabia nomear. E Leon… Leon não olhou como os outros. Ele encarou. Leon não desviou o olhar. Foi o único que não desviou. O chuveiro continuava caindo. Mas Morgana não estava mais lá. Estava de volta naquele dia. Naquela versão dela que ainda não sabia que seria apagada e reconstruída. E então veio o retorno. Seco. Cru. Real. O celular vibrou na bancada. Uma vez. Depois outra. O presente chamando ela de volta como uma lâmina encostando na pele. Ela piscou. E o passado foi embora. Como sempre fazia.
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