LINHA VERMELHA

397 Words
O silêncio voltou. Não o do passado. O do agora. Seco. Limpo. Controlado. Morgana saiu do banheiro com o cabelo ainda úmido, gotas escorrendo devagar pela pele como se nada tivesse pressa naquele mundo. A casa estava vazia. Ou parecia. Ela odiava a sensação de pausa. Porque pausa nunca era paz. Era espera. Ela foi até a cozinha sem olhar ao redor, preparou um café e um sanduíche. Nada elaborado. Nada que pedisse pensamento. Sentou. Comeu. Como se aquilo fosse suficiente pra manter o mundo no lugar. O celular vibrou. Uma vez. Ela ignorou. Mais uma. Agora os dedos pararam por um segundo. Não porque queria atender. Porque já sabia quem era. Leon. Ela atendeu sem pressa. — Fala. A voz dele veio antes da resposta emocional dele. Baixa. Controlada demais pra ser casual. — Você demorou. Morgana deu uma mordida lenta no pão. — Eu estava ocupada. Um silêncio curto. Do outro lado, ele respirou como se escolhesse não reagir a isso. — O trabalho não acabou. Ela encostou as costas na cadeira. Olhar vazio, mas atento. — Nunca acaba. — Esse acaba hoje. Agora o tom mudou. Não alto. Mas mais firme. Definitivo. Ela finalmente olhou pra frente, como se pudesse vê-lo do outro lado da linha. — O que você quer? Outro silêncio. Dessa vez mais pesado. Mais pessoal. — Tem alguém falando demais. Ela parou de mastigar por meio segundo. Depois voltou como se nada tivesse acontecido. — E? — E eu quero que você resolva. A palavra “você” ali não era casual. Era escolha. Sempre era escolha. Ela inclinou levemente a cabeça. — Mandou alguém antes de mim? — Não. Curto. Direto. Sem explicação. Isso dizia mais do que qualquer justificativa. Morgana sorriu sozinha. Pequeno. Frio. — Então agora eu virei teu primeiro recurso? Do outro lado, silêncio. Mas não vazio. Controle sendo pressionado. — Você sempre foi o único recurso que funciona. Aquilo não era elogio. Era problema. Ela ficou quieta por um segundo. O tipo de silêncio que não encerra conversa. Só muda o peso dela. — Onde? Leon respondeu de imediato. — Te mando a localização. — Claro que manda. Ela desligou antes da resposta dele. Sem esperar. Sem despedida. Sem necessidade. O celular caiu na mesa. E por um instante… o passado e o presente pareceram a mesma coisa. Sempre obedecendo o mesmo nome. Leon Gonzales.
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