O silêncio voltou.
Não o do passado.
O do agora.
Seco. Limpo. Controlado.
Morgana saiu do banheiro com o cabelo ainda úmido, gotas escorrendo devagar pela pele como se nada tivesse pressa naquele mundo.
A casa estava vazia.
Ou parecia.
Ela odiava a sensação de pausa.
Porque pausa nunca era paz.
Era espera.
Ela foi até a cozinha sem olhar ao redor, preparou um café e um sanduíche. Nada elaborado. Nada que pedisse pensamento.
Sentou.
Comeu.
Como se aquilo fosse suficiente pra manter o mundo no lugar.
O celular vibrou.
Uma vez.
Ela ignorou.
Mais uma.
Agora os dedos pararam por um segundo.
Não porque queria atender.
Porque já sabia quem era.
Leon.
Ela atendeu sem pressa.
— Fala.
A voz dele veio antes da resposta emocional dele.
Baixa.
Controlada demais pra ser casual.
— Você demorou.
Morgana deu uma mordida lenta no pão.
— Eu estava ocupada.
Um silêncio curto.
Do outro lado, ele respirou como se escolhesse não reagir a isso.
— O trabalho não acabou.
Ela encostou as costas na cadeira.
Olhar vazio, mas atento.
— Nunca acaba.
— Esse acaba hoje.
Agora o tom mudou.
Não alto.
Mas mais firme.
Definitivo.
Ela finalmente olhou pra frente, como se pudesse vê-lo do outro lado da linha.
— O que você quer?
Outro silêncio.
Dessa vez mais pesado.
Mais pessoal.
— Tem alguém falando demais.
Ela parou de mastigar por meio segundo.
Depois voltou como se nada tivesse acontecido.
— E?
— E eu quero que você resolva.
A palavra “você” ali não era casual.
Era escolha.
Sempre era escolha.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Mandou alguém antes de mim?
— Não.
Curto.
Direto.
Sem explicação.
Isso dizia mais do que qualquer justificativa.
Morgana sorriu sozinha.
Pequeno.
Frio.
— Então agora eu virei teu primeiro recurso?
Do outro lado, silêncio.
Mas não vazio.
Controle sendo pressionado.
— Você sempre foi o único recurso que funciona.
Aquilo não era elogio.
Era problema.
Ela ficou quieta por um segundo.
O tipo de silêncio que não encerra conversa.
Só muda o peso dela.
— Onde?
Leon respondeu de imediato.
— Te mando a localização.
— Claro que manda.
Ela desligou antes da resposta dele.
Sem esperar.
Sem despedida.
Sem necessidade.
O celular caiu na mesa.
E por um instante…
o passado e o presente pareceram a mesma coisa.
Sempre obedecendo o mesmo nome.
Leon Gonzales.