A rua era estreita demais pra erro.
Prédios antigos comprimiam o ar.
Luzes falhando.
Som de passos que não pertenciam a ninguém.
Morgana parou antes da esquina.
Sem olhar pra trás.
— A partir daqui, você respira baixo.
Gianni assentiu.
Mais sério agora.
Menos impulso.
Ou tentando.
— Dois na porta. Um no fundo — ela continuou
— você pega o fundo.
Ele franziu o cenho.
— Sozinho?
Ela virou o rosto.
Olhar frio.
— Quer ajuda pra andar também?
Silêncio.
— Segue o plano — ela finalizou.
E então sumiu na esquina.
Gianni ficou um segundo.
Só um.
Respirou fundo.
E foi.
Dentro, o ar era pesado.
Cheiro de cigarro.
Metal.
Tensão.
O primeiro homem caiu antes de entender.
Morgana não fez barulho.
Nunca fazia.
O segundo tentou reagir.
Tarde.
Ela limpou a lâmina na própria roupa dele.
Calma.
Precisa.
E então…
parou.
Algo estava errado.
Silêncio demais.
O tipo de silêncio que não é ausência.
É espera.
Do outro lado, Gianni avançava.
Passos mais rápidos do que deveriam.
Respiração mais pesada.
Ele abriu a porta do fundo com impulso.
Erro.
O homem já estava esperando.
— Tarde — o russo disse.
Sotaque carregado.
Arma levantada.
O disparo veio rápido.
Gianni desviou por pouco.
O tiro pegou de raspão no ombro.
Dor.
Quente.
Imediata.
Ele avançou mesmo assim.
Raiva tomando frente.
Corpo contra corpo.
Impacto.
Queda.
E então… silêncio.
Mas não vitória.
Morgana ouviu.
Um único disparo.
Ela não correu.
Mas acelerou.
Quando chegou…
viu.
Gianni encostado na parede.
Respiração irregular.
Sangue começando a manchar a camisa.
E um corpo no chão.
— Eu mandei você não entrar assim.
A voz dela saiu fria.
Controlada.
Mas os olhos…
não.
Gianni deu um meio sorriso.
Forçado.
— Funcionou.
Ela se aproximou.
Rápido agora.
A mão dela foi direto no ferimento.
Pressão.
Sem delicadeza.
— Isso não é funcionar.
Ele travou o maxilar.
Dor subindo.
— Eu matei.
Ela olhou pra ele.
Direto.
— E quase morreu junto.
Silêncio.
Ela rasgou um pedaço da própria roupa.
Amarrou firme.
Contenção rápida.
Eficiente.
— Você não segue ordem — ela disse
— você reage.
— Eu resolvo.
Ela aproximou o rosto.
Mais perto.
Mais baixo.
— Você complica.
Silêncio.
E então…
passos.
Mais gente.
Morgana levantou na hora.
Olhar mudando.
Frio de novo.
— Levanta.
— Tô bem.
Mentira.
Ela puxou ele pelo braço.
Sem perguntar.
— Anda.
Agora não era mais missão.
Era saída.
Eles saíram pelos fundos.
Rápido.
Limpo.
Mas não invisíveis.
De longe…
alguém observava.
Sem intervir.
Sem se mostrar.
Só assistindo.
Aprendendo.
No carro, o silêncio voltou.
Mas agora tinha dor no meio.
Gianni encostou a cabeça.
Respiração pesada.
Morgana dirigia.
Foco total.
— Você vai precisar de ponto — ela disse
— Já tive pior.
Ela não respondeu.
Só dirigiu.
Mais rápido.
Do outro lado da cidade…
Leon olhava o celular.
Uma mensagem.
Curta.
“Deu contato.”
E outra logo depois.
“Ele se feriu.”
O maxilar dele travou.
Silêncio.
E então…
ele pegou as chaves.
Porque agora…
não era mais só guerra.
Era pessoal.