A Verdade Entre Quatro Paredes
O escritório estava silencioso demais naquela tarde. Não o silêncio confortável de quando tudo corre bem, mas aquele outro, pesado, que faz o ar parecer mais denso. Adrian estava de pé, de costas para a janela, as mãos apoiadas na mesa, olhando para um ponto fixo que não dizia nada e, ao mesmo tempo, dizia tudo.
Hugo entrou sem bater, como fazia desde sempre. O rosto sério já anunciava que não se tratava de conversa comum. Na mão, um envelope pardo.
— Chegou — disse apenas.
Adrian se virou devagar. O coração acelerou, embora ele já soubesse o que aquele envelope significava. Caminhou até Hugo e estendeu a mão. Por um segundo, hesitou antes de pegar. Não por medo do resultado — no fundo, ele já tinha certeza — mas pelo peso simbólico daquilo.
— Abre — Hugo disse, cruzando os braços.
Adrian abriu. Seus olhos correram rapidamente pelas linhas técnicas, números, termos médicos. Parou exatamente onde precisava parar.
Probabilidade de paternidade: 0%.
Ele fechou os olhos por um instante. Um suspiro longo escapou, carregado de alívio, mas também de algo mais amargo.
— Eu sabia — murmurou.
Hugo assentiu.
— Mesmo assim, precisava confirmar.
Adrian passou a mão pelo rosto, caminhou até a cadeira e se sentou, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Não era meu — repetiu, agora em voz alta, como se precisasse ouvir. — Nunca foi.
— E agora? — Hugo perguntou. — Ela está na recepção. Quer falar com você.
Adrian levantou o olhar de imediato.
— Ela veio?
— Veio. Assim que soube do resultado. Está esperando.
O maxilar de Adrian se contraiu. Ele sentia uma mistura de indignação, decepção e um cansaço profundo. Não pelo susto que levara — esse já tinha passado — mas pelo que aquilo representava. Uma tentativa clara de manipulação. Um jogo sujo.
— Manda entrar — disse, por fim.
Hugo saiu, deixando a porta aberta. Poucos segundos depois, Sofia entrou.
Ela estava diferente da mulher que Adrian lembrava. Mais cansada, talvez. Ou talvez fosse apenas a verdade finalmente aparecendo, tirando o brilho artificial que ela sempre gostara de exibir. Vestia-se bem, como sempre, mas havia algo quebrado no olhar.
— Adrian… — começou, a voz baixa.
Ele permaneceu em pé, com o envelope na mão.
— O teste deu negativo — disse direto, sem rodeios.
Sofia respirou fundo, desviando o olhar.
— Eu sei.
— Então por que veio até aqui? — perguntou ele, firme, sem elevar a voz.
Ela deu alguns passos pelo escritório, nervosa.
— Eu precisava tentar — respondeu. — Eu estava desesperada.
Adrian soltou uma risada curta, sem humor.
— Tentou me atribuir um filho que não é meu.
— Eu achei que você pudesse ajudar — disse ela, defensiva. — Você sempre teve dinheiro, influência… pensei que…
— Pensou errado — interrompeu ele. — E não foi só isso que você fez. Você tentou mexer com a minha família.
Ela levantou os olhos, surpresa.
— Família?
— Minha esposa. Meu filho. — A voz dele endureceu. — Você sabia que eu estava casado.
— Eu sabia — admitiu. — Mas achei que você não fosse mesmo assumir esse casamento. Você sempre foi… livre.
Adrian se aproximou da mesa e colocou o envelope sobre ela, batendo com os dedos ao lado do papel.
— Livre não é irresponsável, Sofia. E muito menos covarde.
Ela engoliu em seco.
— Eu precisava de dinheiro — confessou, enfim. — O pai da criança sumiu. Eu não tinha para onde correr.
— E achou que usar meu nome era a solução — disse Adrian, sem piedade. — Você sabe o risco que isso trouxe para mim?
— Eu não pensei que fosse dar nisso tudo…
— Você pensou em você — corrigiu. — Só em você.
Houve um silêncio pesado. Sofia parecia menor ali, encolhida sob o peso da verdade.
— Não vou te denunciar — Adrian disse, depois de alguns segundos. — Mas isso acaba aqui.
Ela levantou o rosto rapidamente.
— Obrigada…
— Não agradeça — cortou. — Faça o teste com o verdadeiro pai. Assuma suas escolhas. E nunca mais use meu nome para nada.
— Eu não vou — prometeu, a voz falhando. — Eu juro.
Adrian virou-se de costas, indicando que a conversa tinha terminado.
— Hugo vai te acompanhar até a saída.
Ela ainda hesitou, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas desistiu. Saiu em silêncio.
Quando a porta se fechou, Adrian permaneceu parado por alguns instantes. Sentia o corpo tenso, como se só agora a adrenalina estivesse se dissipando. Passou a mão pelo cabelo, respirou fundo.
A primeira imagem que veio à mente foi Lúcia.
O sorriso dela. A forma como cuidava de Samuel. A confiança silenciosa que depositava nele, mesmo em meio a tantas mudanças. Aquilo tudo o atingiu com força.
— Ela confiou em mim — murmurou.
Se Lúcia não confiasse, nada daquilo teria sido possível. Ela não teria vindo para a cidade, não teria se exposto, não teria assumido um papel tão grande na vida dele. E ele sabia disso.
Pegou o celular imediatamente.
Hugo entrou novamente no escritório.
— Vai contar para ela agora?
— Agora — respondeu Adrian, sem hesitar. — Não escondo nada dela.
— Ela está bem?
— Está. Mas precisa ouvir de mim.
Hugo assentiu.
— Fez a coisa certa.
Adrian saiu do escritório com passos firmes. No carro, ligou para Lúcia, mas a chamada caiu na caixa postal. Provavelmente ela estava com Samuel. Mandou uma mensagem curta.
Adrian: Amor, está tudo resolvido. O teste deu negativo. Quero te contar pessoalmente. Te amo.
Guardou o celular e apoiou a cabeça no encosto do banco por um momento. Um cansaço emocional o invadiu, mas também uma paz estranha. A verdade tinha vindo à tona. O perigo tinha passado.
No caminho de volta para casa, pensou em tudo o que quase perdeu sem nem perceber. Pensou no quanto Lúcia tinha sido corajosa, no quanto ela tinha apostado neles. E sentiu algo que ia além do amor: responsabilidade.
Quando chegou ao apartamento, encontrou Lúcia na sala, sentada no sofá, Samuel dormindo em seus braços. Ela levantou o olhar assim que ele entrou.
— Chegou cedo — disse.
Adrian caminhou até ela, ajoelhou-se à sua frente e segurou sua mão com cuidado para não acordar o bebê.
— Está tudo resolvido — disse baixo.
Lúcia franziu levemente a testa.
— Resolvido como?
— O teste deu negativo. A criança não é minha.
Ela soltou um suspiro que parecia estar preso havia dias.
— Eu sabia — disse, com um pequeno sorriso triste. — Mas precisava ouvir.
— Desculpa por tudo isso — ele disse. — Mesmo sendo coisa do passado, eu trouxe um problema para dentro da nossa vida.
Lúcia balançou a cabeça.
— Você não trouxe. Você resolveu. E foi sincero comigo.
Adrian engoliu em seco.
— Se você não confiasse em mim…
— Eu confio — interrompeu ela. — Foi por isso que fiquei.
Ele fechou os olhos por um segundo, emocionado. Inclinou-se e beijou a testa dela com cuidado, depois olhou para Samuel.
— Eu jamais colocaria vocês em risco — disse. — Nunca.
Lúcia apertou a mão dele.
— Eu sei.
Naquele momento, Adrian teve absoluta certeza de que dinheiro nenhum, poder nenhum, passado nenhum valia mais do que aquela confiança. E que, dali em diante, faria de tudo para nunca quebrá-la.