Capítulo 82

1235 Words
A Verdade Entre Quatro Paredes O escritório estava silencioso demais naquela tarde. Não o silêncio confortável de quando tudo corre bem, mas aquele outro, pesado, que faz o ar parecer mais denso. Adrian estava de pé, de costas para a janela, as mãos apoiadas na mesa, olhando para um ponto fixo que não dizia nada e, ao mesmo tempo, dizia tudo. Hugo entrou sem bater, como fazia desde sempre. O rosto sério já anunciava que não se tratava de conversa comum. Na mão, um envelope pardo. — Chegou — disse apenas. Adrian se virou devagar. O coração acelerou, embora ele já soubesse o que aquele envelope significava. Caminhou até Hugo e estendeu a mão. Por um segundo, hesitou antes de pegar. Não por medo do resultado — no fundo, ele já tinha certeza — mas pelo peso simbólico daquilo. — Abre — Hugo disse, cruzando os braços. Adrian abriu. Seus olhos correram rapidamente pelas linhas técnicas, números, termos médicos. Parou exatamente onde precisava parar. Probabilidade de paternidade: 0%. Ele fechou os olhos por um instante. Um suspiro longo escapou, carregado de alívio, mas também de algo mais amargo. — Eu sabia — murmurou. Hugo assentiu. — Mesmo assim, precisava confirmar. Adrian passou a mão pelo rosto, caminhou até a cadeira e se sentou, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Não era meu — repetiu, agora em voz alta, como se precisasse ouvir. — Nunca foi. — E agora? — Hugo perguntou. — Ela está na recepção. Quer falar com você. Adrian levantou o olhar de imediato. — Ela veio? — Veio. Assim que soube do resultado. Está esperando. O maxilar de Adrian se contraiu. Ele sentia uma mistura de indignação, decepção e um cansaço profundo. Não pelo susto que levara — esse já tinha passado — mas pelo que aquilo representava. Uma tentativa clara de manipulação. Um jogo sujo. — Manda entrar — disse, por fim. Hugo saiu, deixando a porta aberta. Poucos segundos depois, Sofia entrou. Ela estava diferente da mulher que Adrian lembrava. Mais cansada, talvez. Ou talvez fosse apenas a verdade finalmente aparecendo, tirando o brilho artificial que ela sempre gostara de exibir. Vestia-se bem, como sempre, mas havia algo quebrado no olhar. — Adrian… — começou, a voz baixa. Ele permaneceu em pé, com o envelope na mão. — O teste deu negativo — disse direto, sem rodeios. Sofia respirou fundo, desviando o olhar. — Eu sei. — Então por que veio até aqui? — perguntou ele, firme, sem elevar a voz. Ela deu alguns passos pelo escritório, nervosa. — Eu precisava tentar — respondeu. — Eu estava desesperada. Adrian soltou uma risada curta, sem humor. — Tentou me atribuir um filho que não é meu. — Eu achei que você pudesse ajudar — disse ela, defensiva. — Você sempre teve dinheiro, influência… pensei que… — Pensou errado — interrompeu ele. — E não foi só isso que você fez. Você tentou mexer com a minha família. Ela levantou os olhos, surpresa. — Família? — Minha esposa. Meu filho. — A voz dele endureceu. — Você sabia que eu estava casado. — Eu sabia — admitiu. — Mas achei que você não fosse mesmo assumir esse casamento. Você sempre foi… livre. Adrian se aproximou da mesa e colocou o envelope sobre ela, batendo com os dedos ao lado do papel. — Livre não é irresponsável, Sofia. E muito menos covarde. Ela engoliu em seco. — Eu precisava de dinheiro — confessou, enfim. — O pai da criança sumiu. Eu não tinha para onde correr. — E achou que usar meu nome era a solução — disse Adrian, sem piedade. — Você sabe o risco que isso trouxe para mim? — Eu não pensei que fosse dar nisso tudo… — Você pensou em você — corrigiu. — Só em você. Houve um silêncio pesado. Sofia parecia menor ali, encolhida sob o peso da verdade. — Não vou te denunciar — Adrian disse, depois de alguns segundos. — Mas isso acaba aqui. Ela levantou o rosto rapidamente. — Obrigada… — Não agradeça — cortou. — Faça o teste com o verdadeiro pai. Assuma suas escolhas. E nunca mais use meu nome para nada. — Eu não vou — prometeu, a voz falhando. — Eu juro. Adrian virou-se de costas, indicando que a conversa tinha terminado. — Hugo vai te acompanhar até a saída. Ela ainda hesitou, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas desistiu. Saiu em silêncio. Quando a porta se fechou, Adrian permaneceu parado por alguns instantes. Sentia o corpo tenso, como se só agora a adrenalina estivesse se dissipando. Passou a mão pelo cabelo, respirou fundo. A primeira imagem que veio à mente foi Lúcia. O sorriso dela. A forma como cuidava de Samuel. A confiança silenciosa que depositava nele, mesmo em meio a tantas mudanças. Aquilo tudo o atingiu com força. — Ela confiou em mim — murmurou. Se Lúcia não confiasse, nada daquilo teria sido possível. Ela não teria vindo para a cidade, não teria se exposto, não teria assumido um papel tão grande na vida dele. E ele sabia disso. Pegou o celular imediatamente. Hugo entrou novamente no escritório. — Vai contar para ela agora? — Agora — respondeu Adrian, sem hesitar. — Não escondo nada dela. — Ela está bem? — Está. Mas precisa ouvir de mim. Hugo assentiu. — Fez a coisa certa. Adrian saiu do escritório com passos firmes. No carro, ligou para Lúcia, mas a chamada caiu na caixa postal. Provavelmente ela estava com Samuel. Mandou uma mensagem curta. Adrian: Amor, está tudo resolvido. O teste deu negativo. Quero te contar pessoalmente. Te amo. Guardou o celular e apoiou a cabeça no encosto do banco por um momento. Um cansaço emocional o invadiu, mas também uma paz estranha. A verdade tinha vindo à tona. O perigo tinha passado. No caminho de volta para casa, pensou em tudo o que quase perdeu sem nem perceber. Pensou no quanto Lúcia tinha sido corajosa, no quanto ela tinha apostado neles. E sentiu algo que ia além do amor: responsabilidade. Quando chegou ao apartamento, encontrou Lúcia na sala, sentada no sofá, Samuel dormindo em seus braços. Ela levantou o olhar assim que ele entrou. — Chegou cedo — disse. Adrian caminhou até ela, ajoelhou-se à sua frente e segurou sua mão com cuidado para não acordar o bebê. — Está tudo resolvido — disse baixo. Lúcia franziu levemente a testa. — Resolvido como? — O teste deu negativo. A criança não é minha. Ela soltou um suspiro que parecia estar preso havia dias. — Eu sabia — disse, com um pequeno sorriso triste. — Mas precisava ouvir. — Desculpa por tudo isso — ele disse. — Mesmo sendo coisa do passado, eu trouxe um problema para dentro da nossa vida. Lúcia balançou a cabeça. — Você não trouxe. Você resolveu. E foi sincero comigo. Adrian engoliu em seco. — Se você não confiasse em mim… — Eu confio — interrompeu ela. — Foi por isso que fiquei. Ele fechou os olhos por um segundo, emocionado. Inclinou-se e beijou a testa dela com cuidado, depois olhou para Samuel. — Eu jamais colocaria vocês em risco — disse. — Nunca. Lúcia apertou a mão dele. — Eu sei. Naquele momento, Adrian teve absoluta certeza de que dinheiro nenhum, poder nenhum, passado nenhum valia mais do que aquela confiança. E que, dali em diante, faria de tudo para nunca quebrá-la.
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