No Alto da Cidade
A noite tinha caído sobre Belo Horizonte com um brilho diferente, daqueles que só uma cidade grande sabe ter. Da cobertura de Adrian, as luzes se espalhavam como um tapete dourado, carros passando lá embaixo, vidas seguindo seus próprios ritmos, enquanto ali em cima o tempo parecia correr mais devagar.
Lúcia estava na cozinha, de frente para a dispensa aberta, olhando as prateleiras quase vazias com uma expressão entre a surpresa e a dúvida.
— Adrian… — chamou, ainda encarando o pouco que havia ali. — Acho que a gente esqueceu de combinar uma coisa importante.
Ele apareceu encostado no batente da porta, com um sorriso tranquilo no rosto.
— O quê, princesa?
— Que aqui não tem praticamente nada pra fazer jantar — ela respondeu, fechando a porta da dispensa devagar. — Nem arroz direito.
Adrian riu baixo.
— Relaxa. A gente pede comida.
Lúcia virou o rosto para ele, arqueando uma sobrancelha, como se ele tivesse acabado de dizer algo completamente improvável.
— Pedir… comida?
— Pelo aplicativo — completou, já pegando o celular.
Ela cruzou os braços, desconfiada.
— Você está falando sério mesmo?
— Muito sério — disse ele, aproximando-se e mostrando a tela do celular. — Olha aqui. Tem de tudo. Massa, comida mineira, japonesa, o que você quiser.
Lúcia se aproximou, curiosa. Os olhos cor de mel percorreram a tela com atenção, como se estivesse descobrindo um mundo novo.
— Gente… — murmurou. — Isso chega mesmo aqui em cima?
— Chega quentinho — garantiu ele, divertido. — Escolhe.
Ela mordeu o lábio inferior, pensativa.
— Tá… mas você escolhe comigo. Nunca fiz isso antes.
Adrian se sentou ao lado dela no sofá da sala, o celular entre os dois. O contraste entre o luxo da cobertura e a simplicidade encantada de Lúcia diante daquela novidade fez o coração dele aquecer ainda mais.
— O que você está com vontade de comer? — perguntou.
— Algo simples… mas gostoso — respondeu. — Talvez uma massa. Você gosta também, né?
— Gosto. E hoje eu topo qualquer coisa que você escolher.
Ela sorriu, aquele sorriso que sempre parecia iluminar o ambiente.
Depois de alguns minutos, decidiram juntos: uma massa artesanal, pão de alho, uma sobremesa leve. Adrian confirmou o pedido, e Lúcia observou tudo com atenção, como se estivesse participando de um pequeno ritual moderno.
— Pronto — disse ele. — Agora é só esperar.
— Isso é mágico — ela comentou, ainda surpresa. — Na fazenda a gente planeja o jantar desde cedo. Aqui… é só apertar um botão.
— A cidade tem dessas facilidades — respondeu. — Mas confesso que gosto mais do jeito que você vive. Isso aqui é prático, mas lá… lá tem alma.
Ela o olhou com carinho.
— Eu fico feliz de ouvir isso.
O silêncio confortável se instalou entre eles. Lúcia caminhou até a grande janela de vidro que tomava boa parte da sala e ficou observando a cidade lá embaixo. Adrian foi até ela, ficando ao seu lado.
— É bonito daqui — ela disse. — Mas é diferente. Não é melhor nem pior… só diferente.
— Eu sei — concordou ele. — Por isso gosto quando você está comigo. Você me lembra que nem tudo precisa ser correria.
Ela virou-se para ele, apoiando as mãos no parapeito.
— Adrian…
— Hm?
— Depois do jantar… — começou, hesitante. — A gente pode… namorar um pouco?
Ele sorriu de imediato, um sorriso calmo, cheio de ternura.
— Seu desejo é uma ordem, princesa.
Lúcia sentiu o rosto esquentar e desviou o olhar, rindo baixo.
— Eu falo sério.
— Eu também — respondeu, aproximando-se mais. — Namorar, conversar, ficar juntos. É tudo o que eu quero hoje.
Ela assentiu, sentindo o coração bater mais forte.
O interfone tocou algum tempo depois. Lúcia se assustou com o som.
— É rápido assim? — perguntou.
— Viu só? — disse Adrian, indo atender. — Eu falei.
Ele voltou com as sacolas nas mãos, e os dois organizaram tudo sobre a mesa da sala de jantar, que tinha uma vista ampla da cidade. Adrian fez questão de ajeitar os pratos, enquanto Lúcia observava, sentada, ainda encantada com cada detalhe.
— Você faz tudo parecer simples — ela comentou.
— Só quando estou com você — respondeu ele.
Jantaram devagar, conversando sobre coisas leves: a infância de Adrian, histórias da fazenda, Samuel, planos para quando voltassem. Lúcia ria com facilidade, e Adrian se pegava observando cada gesto dela, cada expressão, como se quisesse guardar tudo na memória.
— A comida é boa mesmo — ela disse, provando mais um pouco. — Mas confesso que prefiro quando sou eu que faço.
— Um dia você cozinha aqui pra mim — falou ele. — Do seu jeito.
— Um dia — concordou, sorrindo.
Depois da sobremesa, recolheram os pratos juntos. Lúcia lavou, Adrian secou, os dois se esbarrando de leve, trocando olhares e sorrisos tímidos.
Quando terminaram, voltaram para a sala. A cidade continuava viva lá fora, mas ali dentro o clima era de calma.
Lúcia se sentou no sofá, e Adrian sentou ao lado dela, com cuidado, respeitando aquele espaço que sempre existiu entre eles, feito de carinho e promessa.
Ele passou o braço ao redor dos ombros dela, e Lúcia se acomodou, apoiando a cabeça no peito dele. Ficaram assim por alguns instantes, apenas ouvindo a própria respiração.
— Obrigada por hoje — ela disse, baixinho.
— Eu que agradeço — respondeu ele. — Por estar aqui comigo.
Ele beijou o topo da cabeça dela, um gesto simples, cheio de significado. Lúcia fechou os olhos, sentindo-se segura, tranquila, como se aquele fosse exatamente o lugar onde deveria estar.
Naquela noite, em meio às luzes de Belo Horizonte, não foi o luxo da cobertura nem a modernidade do aplicativo que marcou o momento, mas a certeza silenciosa de que, independentemente do lugar, o que tornava tudo especial era apenas o fato de estarem juntos.