Capítulo 96

1338 Words
Entre a Razão e o Coração Hugo estava inquieto desde cedo. Andava de um lado para o outro no escritório improvisado da casa de Adrian, olhando o celular, guardando no bolso, tirando de novo. Não era comum vê-lo assim. Sempre fora o mais racional, o homem que colocava números, contratos e lógica acima de qualquer coisa. Mas, naquela manhã, nada disso parecia funcionar. Adrian percebeu logo. — Você vai gastar o chão se continuar andando assim — disse, sem levantar os olhos dos papéis que analisava. — Aconteceu alguma coisa? Hugo parou, respirou fundo e finalmente se sentou de frente para o amigo. — Aconteceu — respondeu. — E eu não sei lidar com isso. Adrian levantou o olhar, atento agora. — Desde quando você não sabe lidar com alguma coisa? Hugo soltou um meio sorriso nervoso. — Desde que isso envolve sentimento. Adrian recostou-se na cadeira, cruzando os braços. — Então fala. Hugo demorou alguns segundos, como se estivesse organizando as palavras. — É a Margarida. O nome pairou no ar por um instante. Adrian franziu levemente a testa. — A Margarida da padaria? — Ela mesma — confirmou Hugo. — Eu tentei ignorar, juro. Pensei que fosse só atração, curiosidade… mas não é. Adrian observava o amigo com atenção. Havia algo diferente no jeito dele falar, algo mais vulnerável. — O que você está sentindo? — perguntou. Hugo respirou fundo outra vez. — Eu penso nela o tempo todo. No jeito simples, no sorriso, na força que ela tem. Aquela mulher acorda de madrugada, trabalha o dia inteiro, ajuda a família, ainda sonha grande… — ele balançou a cabeça. — E eu aqui, com tudo, me sentindo pequeno perto disso. Adrian ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo. — Você falou com ela? — perguntou. — Não do jeito que eu queria — respondeu Hugo. — A gente conversa, ri, mas eu sei que, se eu não fizer nada agora, vou embora e isso vai virar arrependimento. Adrian suspirou. — Você vai voltar pra Belo Horizonte, né? — Vou — confirmou Hugo, com um tom resignado. — Tenho trabalho, compromissos… minha vida é lá. Ele passou a mão pelo rosto e então falou, quase de improviso: — Bem que sua esposa poderia contratar a Margarida para ser babá do Samuel. Assim ela iria junto. Adrian arregalou os olhos, surpreso com a sugestão direta. — Você pensou nisso rápido — comentou. — Eu pensei nisso a noite inteira — confessou Hugo. — Não só por mim. Ela merece uma oportunidade melhor. E vocês confiam nela, não confiam? Adrian apoiou os cotovelos na mesa, sério. — Hugo, eu não posso te prometer nada — disse com firmeza. — A decisão não é minha. — Eu sei — respondeu Hugo rapidamente. — Por isso estou falando com você primeiro. Não quero pressionar ninguém. Adrian assentiu. — Eu vou falar com a Lúcia — disse. — Mas só isso. A decisão vai ser dela. Hugo soltou o ar que parecia estar prendendo havia minutos. — Já é mais do que eu esperava. Lúcia estava no quarto de Samuel, trocando a roupa dele, quando Adrian entrou. O bebê balbuciava, mexendo as perninhas, completamente alheio às complexidades do mundo adulto. — Amor — chamou Adrian, encostando no batente da porta. — Oi — respondeu Lúcia, sorrindo ao vê-lo. — Já terminou? — Mais ou menos — disse ele, se aproximando. — Posso falar com você um instante? Ela percebeu o tom diferente na voz dele. — Claro. Lúcia colocou Samuel no berço e se virou para Adrian, limpando as mãos no pano que sempre deixava por perto. — O que foi? Adrian respirou fundo. — O Hugo veio falar comigo. — Aconteceu alguma coisa no escritório? — perguntou ela, automaticamente. — Não exatamente — respondeu ele. — É pessoal. Lúcia arqueou levemente a sobrancelha. — Pessoal? — Ele está sentindo algo pela Margarida — explicou Adrian. Os olhos de Lúcia se suavizaram imediatamente. — Eu imaginei — disse ela. — Aqueles dois se olham diferente. Adrian sorriu de canto. — Pois é. Ele vai voltar pra Belo Horizonte e está com medo de deixar isso pra trás. — E o que ele sugeriu? — perguntou Lúcia, já antecipando. — Que você contratasse a Margarida para ser babá do Samuel — respondeu Adrian, direto. — Assim ela iria com a gente. Lúcia ficou em silêncio por alguns segundos. Sentou-se na cama, pensativa. — E você? — perguntou. — O que acha? Adrian sentou-se ao lado dela. — Eu acho que você é quem decide isso — respondeu com sinceridade. — O Samuel é nosso. A casa é nossa. E eu confio no seu julgamento. Lúcia sorriu de leve. — Eu gosto da Margarida — disse. — Ela é responsável, carinhosa… e eu vejo como ela olha pro Samuel. Não é forçado. — Mas? — incentivou Adrian. — Mas não quero que pareça que estamos fazendo isso só por causa do Hugo — completou ela. — Nem quero tirar ela daqui sem pensar no que é melhor pra ela. Adrian assentiu. — Justo. Lúcia olhou na direção do berço, onde Samuel dormia tranquilo. — Também tem outro ponto — continuou. — Em Belo Horizonte, eu vou estudar. Você vai trabalhar. Ter alguém de confiança com o Samuel seria bom. — Eu pensei nisso também — confessou Adrian. Ela respirou fundo, como se tomasse uma decisão. — Eu quero falar com ela — disse. — Sem promessas. Só conversar. Ver o que ela quer. O rosto de Adrian se iluminou. — Eu achei que você diria isso. Lúcia sorriu. — Não por causa do Hugo — reforçou. — Pelo Samuel… e por ela. Margarida estava na padaria, como sempre, quando Lúcia apareceu. O cheiro de pão fresco preenchia o ambiente, trazendo aquela sensação de aconchego. — Lúcia! — exclamou Margarida, limpando as mãos no avental. — Que surpresa boa. — Posso falar com você um instante? — perguntou Lúcia. Margarida assentiu, curiosa, e as duas foram para um cantinho mais reservado. — Eu vou ser direta — começou Lúcia. — Em breve, eu e o Adrian vamos nos mudar para Belo Horizonte. — Eu soube — respondeu Margarida. — O pessoal comenta. — Eu estou pensando em contratar alguém de confiança para cuidar do Samuel — continuou Lúcia. — E pensei em você. Os olhos de Margarida se arregalaram. — Eu? — Você — confirmou Lúcia. — Mas só se isso fizer sentido pra você. Não é uma obrigação, nem favor. Margarida ficou em silêncio, claramente emocionada. — Eu nunca saí de Formosura — disse ela, por fim. — Sempre tive vontade de conhecer a cidade grande… mas também tenho medo. — Medo é normal — respondeu Lúcia com suavidade. — Eu também tenho. Margarida sorriu, meio tímida. — Eu precisaria pensar — disse. — Conversar com minha família. — Claro — concordou Lúcia. — Pense com calma. Não tem pressa. Naquela noite, Adrian encontrou Hugo sentado na varanda, olhando o céu escuro. — Falei com a Lúcia — disse Adrian, sentando ao lado dele. Hugo virou-se imediatamente. — E? — Ela vai conversar com a Margarida — respondeu Adrian. — Sem promessas. Hugo fechou os olhos por um instante, aliviado. — Já é muito. Adrian observou o amigo. — Mas saiba de uma coisa — acrescentou. — Se isso acontecer, não é por sua causa apenas. É porque faz sentido pra todos. — Eu sei — respondeu Hugo. — E, se não acontecer… vou respeitar. Adrian deu um leve sorriso. — Engraçado como a vida funciona — disse. — A gente passa anos achando que controla tudo… até alguém aparecer e bagunçar tudo. Hugo riu baixo. — Você está falando da Lúcia ou da Margarida? — Das duas — respondeu Adrian. — Cada uma do seu jeito. O silêncio confortável se instalou entre eles. Em algum lugar da casa, Samuel se mexeu no berço, e Lúcia apareceu na porta, observando os dois homens. Ela sorriu. Porque, no fundo, sabia: algumas histórias estavam apenas começando.
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