Entre a Razão e o Coração
Hugo estava inquieto desde cedo. Andava de um lado para o outro no escritório improvisado da casa de Adrian, olhando o celular, guardando no bolso, tirando de novo. Não era comum vê-lo assim. Sempre fora o mais racional, o homem que colocava números, contratos e lógica acima de qualquer coisa. Mas, naquela manhã, nada disso parecia funcionar.
Adrian percebeu logo.
— Você vai gastar o chão se continuar andando assim — disse, sem levantar os olhos dos papéis que analisava. — Aconteceu alguma coisa?
Hugo parou, respirou fundo e finalmente se sentou de frente para o amigo.
— Aconteceu — respondeu. — E eu não sei lidar com isso.
Adrian levantou o olhar, atento agora.
— Desde quando você não sabe lidar com alguma coisa?
Hugo soltou um meio sorriso nervoso.
— Desde que isso envolve sentimento.
Adrian recostou-se na cadeira, cruzando os braços.
— Então fala.
Hugo demorou alguns segundos, como se estivesse organizando as palavras.
— É a Margarida.
O nome pairou no ar por um instante. Adrian franziu levemente a testa.
— A Margarida da padaria?
— Ela mesma — confirmou Hugo. — Eu tentei ignorar, juro. Pensei que fosse só atração, curiosidade… mas não é.
Adrian observava o amigo com atenção. Havia algo diferente no jeito dele falar, algo mais vulnerável.
— O que você está sentindo? — perguntou.
Hugo respirou fundo outra vez.
— Eu penso nela o tempo todo. No jeito simples, no sorriso, na força que ela tem. Aquela mulher acorda de madrugada, trabalha o dia inteiro, ajuda a família, ainda sonha grande… — ele balançou a cabeça. — E eu aqui, com tudo, me sentindo pequeno perto disso.
Adrian ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo.
— Você falou com ela? — perguntou.
— Não do jeito que eu queria — respondeu Hugo. — A gente conversa, ri, mas eu sei que, se eu não fizer nada agora, vou embora e isso vai virar arrependimento.
Adrian suspirou.
— Você vai voltar pra Belo Horizonte, né?
— Vou — confirmou Hugo, com um tom resignado. — Tenho trabalho, compromissos… minha vida é lá.
Ele passou a mão pelo rosto e então falou, quase de improviso:
— Bem que sua esposa poderia contratar a Margarida para ser babá do Samuel. Assim ela iria junto.
Adrian arregalou os olhos, surpreso com a sugestão direta.
— Você pensou nisso rápido — comentou.
— Eu pensei nisso a noite inteira — confessou Hugo. — Não só por mim. Ela merece uma oportunidade melhor. E vocês confiam nela, não confiam?
Adrian apoiou os cotovelos na mesa, sério.
— Hugo, eu não posso te prometer nada — disse com firmeza. — A decisão não é minha.
— Eu sei — respondeu Hugo rapidamente. — Por isso estou falando com você primeiro. Não quero pressionar ninguém.
Adrian assentiu.
— Eu vou falar com a Lúcia — disse. — Mas só isso. A decisão vai ser dela.
Hugo soltou o ar que parecia estar prendendo havia minutos.
— Já é mais do que eu esperava.
Lúcia estava no quarto de Samuel, trocando a roupa dele, quando Adrian entrou. O bebê balbuciava, mexendo as perninhas, completamente alheio às complexidades do mundo adulto.
— Amor — chamou Adrian, encostando no batente da porta.
— Oi — respondeu Lúcia, sorrindo ao vê-lo. — Já terminou?
— Mais ou menos — disse ele, se aproximando. — Posso falar com você um instante?
Ela percebeu o tom diferente na voz dele.
— Claro.
Lúcia colocou Samuel no berço e se virou para Adrian, limpando as mãos no pano que sempre deixava por perto.
— O que foi?
Adrian respirou fundo.
— O Hugo veio falar comigo.
— Aconteceu alguma coisa no escritório? — perguntou ela, automaticamente.
— Não exatamente — respondeu ele. — É pessoal.
Lúcia arqueou levemente a sobrancelha.
— Pessoal?
— Ele está sentindo algo pela Margarida — explicou Adrian.
Os olhos de Lúcia se suavizaram imediatamente.
— Eu imaginei — disse ela. — Aqueles dois se olham diferente.
Adrian sorriu de canto.
— Pois é. Ele vai voltar pra Belo Horizonte e está com medo de deixar isso pra trás.
— E o que ele sugeriu? — perguntou Lúcia, já antecipando.
— Que você contratasse a Margarida para ser babá do Samuel — respondeu Adrian, direto. — Assim ela iria com a gente.
Lúcia ficou em silêncio por alguns segundos. Sentou-se na cama, pensativa.
— E você? — perguntou. — O que acha?
Adrian sentou-se ao lado dela.
— Eu acho que você é quem decide isso — respondeu com sinceridade. — O Samuel é nosso. A casa é nossa. E eu confio no seu julgamento.
Lúcia sorriu de leve.
— Eu gosto da Margarida — disse. — Ela é responsável, carinhosa… e eu vejo como ela olha pro Samuel. Não é forçado.
— Mas? — incentivou Adrian.
— Mas não quero que pareça que estamos fazendo isso só por causa do Hugo — completou ela. — Nem quero tirar ela daqui sem pensar no que é melhor pra ela.
Adrian assentiu.
— Justo.
Lúcia olhou na direção do berço, onde Samuel dormia tranquilo.
— Também tem outro ponto — continuou. — Em Belo Horizonte, eu vou estudar. Você vai trabalhar. Ter alguém de confiança com o Samuel seria bom.
— Eu pensei nisso também — confessou Adrian.
Ela respirou fundo, como se tomasse uma decisão.
— Eu quero falar com ela — disse. — Sem promessas. Só conversar. Ver o que ela quer.
O rosto de Adrian se iluminou.
— Eu achei que você diria isso.
Lúcia sorriu.
— Não por causa do Hugo — reforçou. — Pelo Samuel… e por ela.
Margarida estava na padaria, como sempre, quando Lúcia apareceu. O cheiro de pão fresco preenchia o ambiente, trazendo aquela sensação de aconchego.
— Lúcia! — exclamou Margarida, limpando as mãos no avental. — Que surpresa boa.
— Posso falar com você um instante? — perguntou Lúcia.
Margarida assentiu, curiosa, e as duas foram para um cantinho mais reservado.
— Eu vou ser direta — começou Lúcia. — Em breve, eu e o Adrian vamos nos mudar para Belo Horizonte.
— Eu soube — respondeu Margarida. — O pessoal comenta.
— Eu estou pensando em contratar alguém de confiança para cuidar do Samuel — continuou Lúcia. — E pensei em você.
Os olhos de Margarida se arregalaram.
— Eu?
— Você — confirmou Lúcia. — Mas só se isso fizer sentido pra você. Não é uma obrigação, nem favor.
Margarida ficou em silêncio, claramente emocionada.
— Eu nunca saí de Formosura — disse ela, por fim. — Sempre tive vontade de conhecer a cidade grande… mas também tenho medo.
— Medo é normal — respondeu Lúcia com suavidade. — Eu também tenho.
Margarida sorriu, meio tímida.
— Eu precisaria pensar — disse. — Conversar com minha família.
— Claro — concordou Lúcia. — Pense com calma. Não tem pressa.
Naquela noite, Adrian encontrou Hugo sentado na varanda, olhando o céu escuro.
— Falei com a Lúcia — disse Adrian, sentando ao lado dele.
Hugo virou-se imediatamente.
— E?
— Ela vai conversar com a Margarida — respondeu Adrian. — Sem promessas.
Hugo fechou os olhos por um instante, aliviado.
— Já é muito.
Adrian observou o amigo.
— Mas saiba de uma coisa — acrescentou. — Se isso acontecer, não é por sua causa apenas. É porque faz sentido pra todos.
— Eu sei — respondeu Hugo. — E, se não acontecer… vou respeitar.
Adrian deu um leve sorriso.
— Engraçado como a vida funciona — disse. — A gente passa anos achando que controla tudo… até alguém aparecer e bagunçar tudo.
Hugo riu baixo.
— Você está falando da Lúcia ou da Margarida?
— Das duas — respondeu Adrian. — Cada uma do seu jeito.
O silêncio confortável se instalou entre eles. Em algum lugar da casa, Samuel se mexeu no berço, e Lúcia apareceu na porta, observando os dois homens.
Ela sorriu. Porque, no fundo, sabia: algumas histórias estavam apenas começando.