Capítulo 72

1063 Words
O Caminho de Volta Adrian ajeitou a cadeirinha de Samuel no banco de trás do carro com um cuidado quase solene. Conferiu uma vez. Depois outra. Puxou as tiras, ajustou o encaixe, testou a firmeza como se daquele gesto dependesse tudo o que realmente importava no mundo. A viagem seria longa. E ele sabia disso. Não apenas pelos quilômetros até Formosura, mas porque aquela estrada marcava uma transição definitiva. Não estavam apenas voltando para casa. Estavam começando uma nova vida. — Princesa, está pronta? — perguntou, fechando a porta do carro com suavidade. Lúcia apareceu na porta da casa, Samuel nos braços, envolto numa manta azul-clara. O bebê dormia tranquilo, alheio a tudo, como se confiasse plenamente que os braços que o carregavam jamais o deixariam cair. — Sim, tudo certo — respondeu ela. Adrian se aproximou, abriu a porta traseira e, com a ajuda de Lúcia, acomodou Samuel na cadeirinha. Ajustou o cinto, passou a mão de leve pelo rosto do filho e sentiu o coração apertar de novo, daquele jeito estranho e bom que só acontecia desde que Samuel tinha chegado. — As malas já estão no carro — disse ele, tentando manter a voz firme. — A bolsa do Samuel e a pasta de documentos vão na frente. Lúcia assentiu, observando cada movimento dele. Ainda se surpreendia com a naturalidade com que Adrian assumia tudo. Não havia medo nos gestos dele, nem hesitação. Só responsabilidade. Só presença. Ela sorriu. — Já disse que te amo hoje? Adrian levantou o olhar, encontrou os olhos dela e sorriu de volta, daquele jeito calmo que sempre a desarmava. — Hoje ainda não, princesa. Lúcia se aproximou, ficou na ponta dos pés e beijou o rosto dele, bem próximo do canto da boca. — Então fica dito. Adrian fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, como se quisesse guardar aquele momento em algum lugar intocável dentro de si. — Eu também te amo — respondeu. — Mais do que sei explicar. Eles entraram no carro. Adrian ligou o motor, ajustou o retrovisor e, antes de arrancar, olhou mais uma vez para trás, conferindo Samuel. O bebê dormia. Sereno. Seguro. A estrada se estendia à frente, longa, silenciosa, cercada de campos abertos. O sol começava a descer, pintando o céu de tons dourados e alaranjados. Lúcia apoiou a cabeça no encosto do banco, sentindo um cansaço profundo, daqueles que vêm depois de dias intensos, noites sem dormir e emoções acumuladas. Mas, diferente de outras vezes, aquele cansaço vinha acompanhado de uma paz estranha, quase inédita. — Ele dorme bem no carro — comentou ela, olhando pelo retrovisor. — Parece que gosta de viajar — Adrian respondeu. — Deve puxar a nós dois. Lúcia riu baixinho. — Tomara que puxe sua calma… porque a minha ansiedade não ajuda muito. Adrian sorriu, sem tirar os olhos da estrada. — Você está indo muito bem, Lúcia. Melhor do que imagina. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo aquelas palavras. Depois falou, num tom mais baixo, quase inseguro: — Às vezes eu penso se vou dar conta… se vou ser uma boa mãe de verdade. Adrian respirou fundo antes de responder. — Você já é — disse com firmeza. — Desde o momento em que decidiu ficar. Desde o momento em que escolheu amar sem obrigação, sem cobrança. Isso não se aprende. Ou se tem… ou não se tem. Lúcia sentiu os olhos marejarem, mas conteve as lágrimas. Não queria chorar. Queria guardar aquele instante como algo forte, não frágil. — Obrigada — murmurou. A estrada seguia tranquila. Passaram por pequenas cidades, postos de gasolina, placas que anunciavam distâncias e destinos. O rádio tocava baixo, uma música antiga que falava de casa, de amor e de promessas silenciosas. Adrian reduziu a velocidade ao passar por um trecho esburacado, como se cada solavanco pudesse incomodar Samuel, mesmo ele dormindo profundamente. — Você percebe como tudo mudou rápido? — Lúcia comentou, depois de um tempo. — Parece que foi ontem que eu estava só pensando em estudar, trabalhar… e agora… Ela olhou para trás, para o filho. — Agora isso. Adrian assentiu. — Mudou rápido. Mas mudou certo. Lúcia sorriu com a palavra. — Certo… — Certo — ele repetiu. — Nem tudo precisa ser fácil para ser verdadeiro. O céu escurecia aos poucos, e as primeiras estrelas começavam a aparecer. Adrian ligou os faróis, sentindo aquele silêncio confortável se instalar dentro do carro. Não era o silêncio do vazio. Era o silêncio de quem não precisa preencher nada, porque tudo já está ali. Samuel se mexeu um pouco, fez um som baixinho, depois voltou a dormir. — Ele parece tão tranquilo… — Lúcia disse, emocionada. — Como se soubesse que está indo para casa. Adrian sentiu um nó na garganta. — Ele está. Quando finalmente avistaram as luzes de Formosura ao longe, Lúcia sentiu o coração acelerar. A casa nova os esperava. Os móveis escolhidos por ela, os detalhes pensados por ele, o quarto do bebê montado com cuidado quase obsessivo. Tudo os esperava. — Chegamos — Adrian disse, com um sorriso contido. — Chegamos… — Lúcia repetiu. Ao estacionar, Adrian desligou o carro e ficou alguns segundos parado, respirando fundo. Depois desceu, abriu a porta de trás e, com todo cuidado do mundo, soltou Samuel da cadeirinha. — Bem-vindo para casa, filho — murmurou. Lúcia observava a cena com o coração cheio. Aproximou-se, encostou a mão no braço de Adrian e sussurrou: — Obrigada por tudo. Ele virou para ela. — Não me agradeça — respondeu. — Isso aqui é vida. E vida se constrói junto. Entraram na casa. O silêncio do lugar era diferente agora. Não era mais um espaço vazio. Era um lar prestes a ser preenchido por choros, risadas, noites m*l dormidas e manhãs cheias de sentido. Adrian colocou Samuel no berço do quarto, ajustou a manta e ficou observando o filho por alguns segundos. Lúcia se aproximou, entrelaçou os dedos nos dele. — Adrian… — Hum? — Eu te amo. Ele sorriu, olhou para ela e respondeu sem hesitar: — Eu sei. E te amo todos os dias. Mesmo quando você não diz. Ela riu baixinho, emocionada. E ali, naquela casa recém-habitada, com o bebê dormindo no quarto ao lado e a estrada ficando para trás, eles entenderam: o amor não era mais promessa. Era rotina. Era escolha. Era o caminho de volta.
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