O Silêncio da Varanda e a Certeza do Afeto
Lúcia deixou Adrian sentado na varanda com um sorriso calmo, daqueles que tranquilizam.
— Fica aí — disse ela. — Vou tomar um banho rapidinho. Já volto.
Adrian assentiu, observando enquanto ela se afastava em direção ao quarto. O som dos passos dela foi sumindo pela casa, misturado aos ruídos comuns do fim de tarde na fazenda: o vento passando pelas árvores, o canto distante de um pássaro, o mugido baixo do gado já acomodado.
Ele se recostou na cadeira de madeira, respirando fundo.
Estar ali, naquela varanda, tinha algo de especial. Não era apenas a casa simples, nem o cheiro de café que parecia morar nas paredes. Era o sentimento de pertencimento, de estar sendo aceito aos poucos em um mundo que não era o dele desde o nascimento, mas que começava a se tornar.
Pouco depois, Dona Alice apareceu com uma bandeja nas mãos.
— Achei que você ia gostar — disse, colocando o café e o bolo sobre a mesinha. — Deve estar com fome.
— Obrigado, Dona Alice — respondeu Adrian, sincero.
Ela sorriu, daquele jeito acolhedor que só mãe sabe ter, e ficou ali alguns segundos, observando-o em silêncio.
— A Lúcia gosta muito de você — disse por fim, com voz mansa. — Dá pra ver no jeito que ela fala, no cuidado.
Adrian sentiu o peito apertar de leve.
— Eu gosto muito dela também — respondeu. — E respeito demais tudo o que ela é.
Dona Alice assentiu, satisfeita, e voltou para dentro da casa, deixando-o sozinho novamente.
Adrian tomou um gole do café ainda quente. O sabor simples, forte, combinava com o ambiente. Comeu um pedaço do bolo devagar, pensando em tudo o que havia vivido nos últimos meses. Nunca tinha imaginado um namoro assim. Sem pressa. Sem excessos. Cheio de significados pequenos que, juntos, se tornavam enormes.
Quando ouviu passos se aproximando, levantou o olhar.
Lúcia voltava.
Ela tinha tomado banho, os cabelos ainda levemente úmidos caíam soltos sobre os ombros. Vestia uma calça confortável e uma blusa simples. Nada chamativo. Nada ensaiado. Ainda assim, para Adrian, ela parecia ainda mais bonita.
Talvez fosse a tranquilidade no rosto. Ou o brilho sereno nos olhos cor de mel.
Ela sentou-se ao lado dele, sem dizer nada por alguns segundos. Apenas ficou ali, compartilhando o silêncio.
Então, se aproximou e lhe deu um beijo suave, tranquilo, cheio de carinho.
Quando se afastou, sorriu de leve.
— Senti falta — confessou.
Adrian retribuiu o sorriso, sentindo o coração bater mais forte.
— Eu também — respondeu.
Ela passou a mão pelos próprios cabelos, ajeitando-os atrás da orelha.
— Engraçado… — disse pensativa. — Antes eu ficava toda sem jeito. Agora parece mais natural. Como se fosse parte do meu dia.
Ele a observou com atenção.
— Acho que é porque a gente se acostuma com o que faz bem — disse.
Lúcia concordou com um aceno de cabeça.
— Pode ser.
Ela olhou em volta, para a varanda, para o quintal, para o céu que começava a ganhar tons mais escuros.
— Eu não sou muito de vestido — comentou de repente, quase como se estivesse continuando um pensamento antigo. — Gosto de calça. Me sinto mais eu.
Adrian riu de leve.
— Eu percebi — disse. — E gosto disso. Gosto de você do jeito que é.
Ela abaixou o olhar por um instante, um pouco envergonhada, mas logo voltou a encará-lo.
— Às vezes as pessoas esperam que eu seja de um jeito — continuou. — Mais delicada, mais… feminina do jeito que elas imaginam. Mas eu sou assim. Calça, bota, cavalo, lida. E, ao mesmo tempo, gosto de sentar aqui, conversar, ouvir música, tomar café.
— Você não precisa escolher um lado — respondeu Adrian. — Você é inteira.
Ela respirou fundo, como se aquelas palavras aliviassem algo que carregava há muito tempo.
— Obrigada por entender — disse, sincera.
Ficaram ali mais um tempo, conversando sobre coisas simples: o dia na fazenda, os planos para a semana, pequenas histórias da infância. Adrian contou situações do escritório, e Lúcia ouviu com atenção, fazendo perguntas, curiosa.
Quando o céu já estava completamente escuro e as estrelas começavam a surgir, Lúcia se levantou.
— Vou ajudar minha mãe com o jantar — avisou. — Você fica mais um pouco?
— Claro — respondeu ele.
Antes de se afastar, ela se inclinou e lhe deu outro beijo rápido, carinhoso, como quem diz “fica”.
Adrian ficou ali, sorrindo sozinho.
Ele percebeu que não precisava de gestos grandiosos, nem de cenas extraordinárias. O que construía com Lúcia era feito de momentos assim: uma varanda, um café, uma conversa sincera, um beijo tranquilo.
E isso, para ele, já era tudo.