Capítulo 18

849 Words
A Primeira Cuiada O fim de tarde caía lento sobre a casa simples de Lúcia. O céu começava a ganhar tons alaranjados, e o vento morno carregava o cheiro da terra úmida, tão familiar quanto reconfortante. Ela estava sentada na varanda, em uma cadeira de madeira já gasta pelo tempo, os pés descalços tocando o chão frio. Na mão, a cuia de tereré. Tomava devagar, em silêncio, como fazia desde os tempos em que era apenas Ramires aos olhos do mundo. Aquela era uma daquelas pequenas coisas que nunca precisara fingir. O gosto amargo, a água gelada, o ritual simples — tudo aquilo sempre fora real. Quando ouviu o barulho do carro se aproximando, não se assustou. Apenas levantou os olhos e soube, antes mesmo de ver, que era Adrian. Ele desceu do carro com passos contidos, sem a postura dura de outros dias. Havia algo diferente em seu jeito, como se cada movimento fosse pensado com cuidado. Parou por um instante, observando-a na varanda. Era Lúcia. Inteira. Sem disfarces. E, ainda assim, ali estavam traços de Ramires — na postura relaxada, no jeito tranquilo de segurar a cuia, na paz silenciosa que parecia envolvê-la. Adrian se aproximou devagar e sentou-se no banco de madeira ao lado dela. O silêncio entre os dois não era pesado, apenas cheio de coisas não ditas. — Quer? — Lúcia ofereceu a cuia automaticamente, estendendo a mão. Ela então sorriu de leve e puxou a cuia de volta. — Desculpa… esqueci que você não gosta. Adrian olhou para a cuia, depois para ela. Aquela cena simples o atingiu mais do que qualquer discussão no escritório. Era ali, naquele gesto, que tudo fazia sentido. — Antes de você falar — Lúcia disse, quebrando o silêncio — posso te fazer uma pergunta? Ele virou o rosto e a encarou de frente, sustentando o olhar dela com atenção sincera. — Claro que pode, Lúcia. Ela respirou fundo, mas não havia medo em sua voz. Apenas curiosidade. — Você… já experimentou tereré? Adrian arqueou levemente a sobrancelha. Olhou novamente para a cuia, como se fosse um objeto desconhecido, depois voltou o olhar para ela. — Você já ouviu de mim alguma coisa que eu não falaria para uma mulher? — respondeu, meio sério, meio defensivo. Lúcia piscou por um segundo… e então riu. Mas não foi um riso qualquer. Foi um riso solto, gostoso, daqueles que nascem do peito e aliviam tudo ao redor. Um riso que não zombava, apenas provocava com leveza. — Já ouvi, sim — disse ela, ainda sorrindo. — E também já ouvi algumas coisas de homens que acham que sugerir bebida é a única coisa que uma mulher sabe… chupar bem. Ela fez uma pausa breve, com o olhar firme, mas sem agressividade. — Mas o tereré é só uma bebida. E o resto… é coisa que vocês gostam de sugerir. — Não termina, Lúcia — Adrian disse rápido, levantando a mão em rendição, agora sorrindo de verdade. Ela inclinou a cabeça, divertida. — Tudo bem. Adrian respirou fundo, estendeu a mão e disse, com um meio sorriso: — Eu aceito uma cuiada do seu tereré. Lúcia arqueou as sobrancelhas, surpresa genuína, e então lhe entregou a cuia. — Olha que isso é um momento histórico — brincou. — Não espalha — ele respondeu. Antes de beber, Adrian ficou sério por um instante. Baixou o olhar para a cuia, depois voltou a encará-la. — E, a propósito… me desculpa. Lúcia ficou imóvel. — Por ter sido um i****a — ele continuou, sem rodeios. — Por não ter enxergado antes. Por ter duvidado de você. Ela não respondeu de imediato. Apenas observou o rosto dele, buscando ali qualquer sinal de julgamento. Não encontrou. — Seu segredo está guardado — ele concluiu. — Comigo. Sempre. Algo dentro de Lúcia cedeu. Não foi um choro, nem um suspiro dramático. Foi só um peso antigo saindo do lugar. — Obrigada — disse ela, com simplicidade. Adrian levou a cuia à boca e tomou o primeiro gole. Fez uma careta quase imperceptível, como quem tenta entender o gosto. — E então? — ela perguntou, divertida. Ele tomou mais um gole, agora com menos hesitação. — Não é r**m… — admitiu. — Na verdade… é até bom. Lúcia sorriu, satisfeita. — Viu só? Ramires sempre teve bom gosto. Adrian devolveu a cuia. — Acho que agora entendo muita coisa — disse ele, olhando para o horizonte. — Não era só eficiência. Era identidade. Você nunca deixou de ser você, só mudou a forma como o mundo te via. — Eu só fiz o que precisava — respondeu Lúcia. — Nem todo mundo nasce com espaço para errar. Ele assentiu. — Mas agora tem. O sol já se escondia quando ficaram em silêncio novamente, dividindo aquele momento simples, quase íntimo. Não havia promessas, nem decisões grandiosas ditas em voz alta. Mas algo havia mudado. Naquela varanda, entre uma cuia de tereré e verdades finalmente ditas, Adrian percebeu que não estava apenas diante de uma funcionária extraordinária. Estava diante de uma mulher que nunca precisara fingir força. Ela sempre foi.
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