Capítulo 46

1199 Words
Onde o Coração Encontra Paz Adrian passou o restante do dia trabalhando, mas trabalhar era quase um ato mecânico. O corpo estava presente, a mente não. Assinava papéis, participava de reuniões, respondia perguntas, mas tudo parecia distante, como se estivesse olhando a própria rotina de fora. A imagem não saía da cabeça dele. Ramires no meio de uma briga. Uma faca. Uma arma. E por trás de tudo isso, Lúcia. Ele confiava nela, sabia da força que ela tinha, da cabeça fria, do senso de responsabilidade. Mas amor não era racional. Amor não obedecia lógica. Amor tinha medo. Quando finalmente conseguiu encerrar o expediente, já era final de tarde. Adrian saiu do escritório com passos apressados, entrou no carro e dirigiu direto para casa. Precisava de um banho rápido, trocar de roupa, mas, acima de tudo, precisava vê-la. Precisava do que nenhuma ligação, nenhuma chamada de vídeo tinha conseguido dar: a certeza física, real, palpável de que ela estava ali, inteira. Em casa, deixou a pasta sobre a mesa, tirou o paletó quase jogando de lado. O banho foi rápido, água fria no rosto para espantar o cansaço e a ansiedade. Vestiu uma camiseta simples, jeans, pegou a chave do carro e saiu de novo, como se temesse que, se demorasse mais, o coração fosse sair do lugar. O caminho até a casa de Lúcia parecia mais longo naquela noite. Cada curva, cada trecho de estrada trazia junto o pensamento: “E se eu tivesse chegado tarde demais?” — mesmo sabendo que isso já não fazia sentido. Quando estacionou em frente à casa, viu a luz da varanda acesa. E ali, sentada como sempre, estava ela. Lúcia. O tereré apoiado ao lado, o copo entre as mãos, o corpo relaxado, mas o olhar atento. Quando o viu descer do carro, ela sorriu. Não foi um sorriso qualquer. Foi aquele sorriso que só ela tinha. Aquele que desmontava tudo dentro dele. Naquele instante, o mundo de Adrian voltou ao lugar. Toda a angústia do dia escorreu pelo chão como água depois da chuva. O peito, que esteve apertado por horas, finalmente se abriu para respirar. A certeza de que ela estava bem, ali, viva, tranquila, era tudo o que ele precisava. — Oi — ela disse, levantando-se devagar. Ele não respondeu de imediato. Apenas se aproximou, os olhos passeando pelo rosto dela como se estivesse conferindo, um por um, cada detalhe. Sem perceber, segurou o rosto dela com as duas mãos. — Você tá aqui… — murmurou. Lúcia sorriu mais ainda. — Tô — respondeu com doçura. — Inteira, como eu te disse. Ele a puxou para um abraço forte, daqueles que não pedem permissão. Apertou-a contra o peito, fechou os olhos e respirou fundo, sentindo o cheiro dela, sentindo o corpo dela ali. Lúcia correspondeu ao abraço sem pressa. Passou os braços pelas costas dele, apoiou o rosto no ombro de Adrian e ficou ali, deixando que ele encontrasse o que precisava. Ela sabia. Sabia que, mesmo depois da ligação, mesmo depois do vídeo, ele só ficaria em paz quando a visse com os próprios olhos. Sabia que o ocorrido na fazenda tinha mexido com ele mais do que ele queria admitir. — Eu sabia que você vinha — ela disse baixinho. — Eu precisava — respondeu ele, ainda sem soltá-la. — Eu tentei ficar tranquilo… juro que tentei. Mas não deu. Ela se afastou um pouco, apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. — Eu sei — disse. — Você me ligou preocupado. E mesmo eu dizendo que tava tudo bem, eu sabia que isso ia ficar martelando aí dentro — tocou de leve o peito dele. Ele soltou um meio sorriso, envergonhado. — Sou péssimo em disfarçar. — Não é isso — corrigiu ela. — É que você se importa. Eles se sentaram na varanda. Lúcia pegou o tereré, preparou outro copo e estendeu para ele. — Toma — disse. — Vai te acalmar. Adrian riu de leve. — Você cuida de mim até nisso. — Alguém tem que cuidar — respondeu ela, brincando. Ele tomou um gole, sentindo o amargo gelado descer pela garganta. Ficou alguns segundos em silêncio, olhando para o quintal, para a noite que chegava tranquila, tão diferente do turbilhão que tinha sido o dia. — Quando eu vi aquelas mensagens no grupo… — começou, a voz baixa — eu fiquei apavorado. Foi uma coisa tão automática… eu só pensei em você. Lúcia apoiou o cotovelo no braço da cadeira e o olhou com atenção. — Eu sei que parece assustador — disse. — Mas aquilo não começou comigo. Eu só cheguei no meio. — Mesmo assim — ele insistiu — você podia ter se machucado. — Adrian — ela falou com firmeza suave —, se eu não entro, alguém podia morrer. E isso eu não ia carregar na consciência. Ele abaixou a cabeça por um instante. — É isso que me dá medo — confessou. — Você é forte demais. Corajosa demais. Às vezes parece que o mundo é perigoso demais pra alguém como você. Ela riu baixo. — O mundo é perigoso pra todo mundo — disse. — A diferença é que eu aprendi cedo a não virar o rosto. Ele levantou os olhos para ela. — Eu admiro isso — disse. — De verdade. Mas também tenho medo. Porque te amar me deixou vulnerável. Ela se aproximou mais, tocou o rosto dele com cuidado. — Amar faz isso mesmo — disse. — E eu não quero que você mude por isso. Não quero que você viva com medo. Quero que confie em mim. — Eu confio — respondeu sem hesitar. — Confio em você mais do que em mim mesmo. Mas hoje… hoje eu só precisava te ver. Ela se inclinou e deixou um beijo leve na testa dele. — Então valeu a pena você vir. Ele sorriu, fechando os olhos por um segundo. — Valeu. Ficaram ali, conversando de coisas simples. Lúcia contou como o dia tinha seguido depois da confusão, como o pai tinha resolvido a situação, como a fazenda tinha voltado à rotina. Adrian ouviu tudo com atenção, mas agora sem aquele nó no estômago. A presença dela fazia tudo parecer mais manejável. — Você sabe — ele disse em dado momento — que eu nunca tinha me preocupado assim com alguém. — Eu sei — respondeu ela. — E isso não te faz fraco. — Me faz humano — completou ele. Ela sorriu. Quando a noite já estava mais avançada, Adrian se levantou. — Eu precisava vir só pra isso — disse. — Pra te ver, te abraçar, ter certeza. — E agora tá tudo certo? — perguntou ela. Ele se inclinou e deu um beijo nela, um beijo calmo, seguro, daqueles que não pedem pressa. — Agora tá — respondeu. — Meu mundo voltou pro lugar. Ela sorriu, encostando a testa na dele. — Sempre que você precisar, eu vou estar aqui — disse. — Eu sei — respondeu. — E isso muda tudo. Ao sair, Adrian olhou para trás uma última vez. Lúcia estava ali, na varanda, com o tereré na mão e aquele sorriso que agora ele sabia: era casa.
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