Capítulo 32

911 Words
O Tempo do Primeiro Beijo O mês passou mais rápido do que Lúcia imaginava. Os dias seguiram a rotina da fazenda, as manhãs cedo, a lida que nunca esperava, as tardes quentes e as noites tranquilas. Mas havia algo novo em tudo isso: Adrian. O namoro estava indo bem. Muito bem. Conversas longas, caminhadas curtas, tereré na varanda, mensagens simples trocadas no celular de botão. Nada de pressa, nada de cobranças. Adrian respeitava cada limite, cada silêncio, cada tempo de Lúcia. E isso, mais do que qualquer palavra bonita, fazia ela se sentir segura. Ainda assim, havia algo que rondava seus pensamentos. O beijo. Um mês de namoro, e ele ainda não tinha acontecido. Lúcia não se sentia frustrada. Apenas curiosa. Às vezes, observava Adrian falando, sorrindo, explicando algo com aquele jeito calmo e firme, e se perguntava como seria. Como seria um beijo. Como era sentir aquilo que tantas pessoas falavam com tanta certeza. Ela não tinha pressa, mas tinha perguntas. Em alguns momentos, pensava que talvez ele não a beijasse por causa da diferença de idade. Adrian tinha vinte e sete anos. Já tinha vivido muito. Ela, dezessete. Ainda estava descobrindo o mundo com cuidado. — Será que ele tem medo? — pensava, sentada na varanda, olhando o céu mudar de cor no fim da tarde. Do outro lado, Adrian também pensava. E pensava muito. Para ele, aquele mês tinha sido transformador. Nunca tinha namorado assim. Nunca tinha esperado. Nunca tinha segurado vontade por respeito. Não porque não quisesse beijá-la — queria —, mas porque queria que fosse certo. Que fosse quando ela estivesse pronta. Quando pedisse. Quando sentisse. Ele sabia da idade dela. Sabia da responsabilidade. E isso fazia com que cada gesto fosse pensado duas vezes. — Eu não posso errar com ela — dizia para si mesmo. Naquela tarde, Lúcia decidiu que não ficaria mais só imaginando. Queria perguntar. Do jeito dela. Sem drama, sem cobrança. Eles estavam sentados perto da cachoeira, como tantas outras vezes. A água corria calma, o vento era leve. Adrian jogava algumas pedrinhas no rio enquanto Lúcia mexia distraída nas folhas ao lado. — Adrian… — chamou ela, de repente. Ele virou o rosto na hora. — Oi. Ela respirou fundo. Não olhava diretamente para ele, mas a voz saiu firme. — Posso te perguntar uma coisa? — Claro — respondeu, sem hesitar. Ela demorou alguns segundos. — Você… — começou — você nunca me beijou. Adrian sentiu o coração acelerar. Não esperava aquilo de forma tão direta. Ficou em silêncio, esperando que ela continuasse. — Eu fiquei pensando se… — ela hesitou — se é por causa da nossa idade. Ele virou o corpo todo para ela. — Lúcia… — disse com cuidado — não é porque eu não quero. Ela finalmente olhou para ele. — Então por quê? Adrian respirou fundo. Escolheu as palavras com atenção. — Porque eu quero fazer tudo do jeito certo. No seu tempo. Eu nunca quis te pressionar, nem te confundir. Ela assentiu devagar. — Eu entendo. Mas… — mordeu o lábio, um pouco nervosa — eu queria saber como é um beijo. A frase saiu simples, quase inocente. Adrian sentiu os olhos arderem de emoção. Aquilo tocou fundo. Não era curiosidade vazia. Era confiança. — Você nunca beijou ninguém, né? — perguntou, mesmo já sabendo a resposta. — Nunca — respondeu ela, sem vergonha. — E… se for pra acontecer, eu queria que fosse com alguém que eu confio. O silêncio que se seguiu não foi pesado. Foi cheio de significado. Adrian passou a mão pelo rosto, emocionado. — Lúcia… — disse com a voz um pouco embargada — se eu for o primeiro, eu prometo que vai ser com respeito. Sem pressa. Do jeito que você se sentir bem. Ela sorriu, aliviada. — Então… — disse baixinho — eu posso pedir? Ele sorriu também. — Pode. — Você pode me beijar? Adrian assentiu devagar. — Posso. Ele se aproximou um pouco mais, mas parou antes de tocar nela. — Se em qualquer momento você não se sentir confortável, é só me dizer, tá? — Tá — respondeu ela. Adrian levantou a mão com cuidado e tocou de leve o rosto dela, pedindo permissão sem palavras. Lúcia não se afastou. Apenas fechou os olhos. O beijo foi simples. Calmo. Curto. Um toque leve de lábios, sem pressa, sem intensidade exagerada. Um beijo que dizia mais do que fazia. Quando ele se afastou, Lúcia abriu os olhos, surpresa. — É isso? — perguntou, com um sorriso tímido. Adrian riu baixo. — É isso. Ela ficou alguns segundos em silêncio, sentindo o coração bater forte. — É… — disse, por fim — é bom. Adrian sorriu, emocionado. — Fico feliz. Ela respirou fundo. — Obrigada por esperar. — Obrigado por confiar — respondeu ele. Ficaram ali mais um tempo, sentados lado a lado, sem necessidade de dizer mais nada. O primeiro beijo não tinha mudado tudo de uma vez. Mas tinha marcado algo importante: um passo dado juntos, no mesmo ritmo. Naquela noite, Lúcia voltou para casa com o coração tranquilo. Olhou-se no espelho antes de dormir e sorriu para si mesma. — Então é assim — pensou. Adrian, em casa, ficou olhando para o teto por longos minutos. Não lembrava de um beijo tão simples ter significado tanto. — Eu vou cuidar dela — prometeu em silêncio. E assim, sem pressa, sem excessos, o namoro seguia crescendo. No tempo certo. Do jeito certo.
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