O Pedido
Lúcia tinha feito um verdadeiro banquete. A cozinha estava tomada por cheiros bons, daqueles que abraçam a gente por dentro. Massa caseira descansava coberta por um pano limpo, o molho apurava no fogão em fogo baixo, carnes já estavam separadas, saladas prontas, pão aquecido. Dona Alice ajudava com calma, observando a filha de canto de olho.
— Caprichou, hein, minha filha — comentou a mãe, mexendo o molho. — Parece até jantar de festa grande.
Lúcia sorriu, nervosa.
— É uma noite importante, mãe.
Dona Alice não perguntou mais nada. Apenas sorriu também. Mãe sente.
Quando tudo ficou pronto, Lúcia respirou fundo e foi tomar banho. A água morna escorreu pelos ombros, ajudando a aliviar um pouco da tensão. Escolheu uma roupa simples, mas que a deixava bonita. Nada exagerado. Do jeito dela. Deixou o cabelo solto, caindo em ondas pelas costas. Olhou-se no espelho por um instante a mais do que de costume.
— Vai dar tudo certo — disse para si mesma.
Do outro lado, Adrian já tinha encerrado o expediente no escritório. Trabalhara o dia inteiro, mas a cabeça não parava no trabalho. O nervosismo crescia conforme a hora se aproximava. Antes de ir para a fazenda e depois ir para casa de Seu Raul, passou pela cidade.
Entrou numa floricultura pequena, simples, mas bem cuidada. Olhou ao redor sem saber exatamente o que procurar. A dona, uma senhora simpática, percebeu a indecisão.
— Procurando algo especial? — perguntou.
— Sim… — respondeu ele, pensativo. — Pra uma moça diferente.
Ele pensou em Lúcia. No jeito simples, no olhar firme, no riso fácil. Ela não era de exageros.
— Queria um buquê com várias flores — decidiu. — Um pouco de cada. Algo grande, mas delicado.
A florista sorriu, entendendo.
— E pra mãe dela?
— Uma orquídea — respondeu sem hesitar.
Quando saiu dali, Adrian carregava um buquê grande e bonito, cheio de cores, e uma orquídea embrulhada com cuidado. Respirou fundo antes de seguir viagem.
Na casa de Seu Raul, tudo já estava organizado. Lúcia terminava de ajeitar a mesa quando ouviu o barulho da porta. O coração disparou. Caminhou até a entrada e abriu.
Lá estava ele.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Dona Margarete entrou logo atrás e a abraçou forte.
— Minha afilhada! Que felicidade te ver!
— Dona Margarete! — Lúcia respondeu, surpresa e emocionada.
Logo depois, Seu Santiago apertou a mão dela com firmeza.
— É uma honra, minha filha.
Por fim, Adrian estendeu o buquê.
— Pra você.
Lúcia ficou alguns segundos sem reação. O buquê era lindo. Colorido, vivo, diferente — como ele tinha pensado. Pegou com cuidado.
— Obrigada, Adrian.
Ela se afastou um pouco para dar passagem.
— Entrem… a sala já tá com todo mundo.
Adrian cumprimentou Seu Raul, Dona Alice, os demais presentes. Entregou a orquídea à Dona Alice, que ficou encantada.
— Que coisa mais linda! — disse, emocionada.
Todos se sentaram. O clima era de expectativa, mas também de respeito. Antes que a comida fosse servida, Adrian pigarreou levemente.
— Já que estamos todos aqui… — começou, com a voz firme apesar do nervosismo — eu queria pedir a mão da Lúcia em namoro.
O silêncio tomou a sala.
Seu Raul olhou primeiro para Adrian, depois para a filha. Lúcia sustentou o olhar do pai, tranquila. Ela estava de acordo. Muito de acordo.
— E então? — perguntou Seu Raul, sério.
— Sim, pai — respondeu Lúcia com suavidade.
Seu Raul respirou fundo.
— Eu dou permissão — disse por fim. — Mas vai certo. Com respeito.
Adrian assentiu imediatamente.
— Vai ser certo, Seu Raul.
Ele então tirou do bolso uma pequena caixinha. Abriu. Dentro, um par de alianças simples e bonitas.
Adrian pegou uma, com cuidado, e colocou no dedo de Lúcia. As mãos dela estavam geladas. Ele percebeu, mas não comentou. Apenas segurou a mão dela por um segundo a mais.
Lúcia pegou a outra aliança e colocou no dedo dele. Foi o primeiro toque verdadeiro entre os dois. Simples. Profundo.
O jantar seguiu leve, cheio de conversa e risadas. Todos elogiaram a comida.
— Tá tudo maravilhoso — disse Seu Santiago.
— Minha filha manda bem demais na cozinha — completou Dona Alice, orgulhosa.
Ela estava especialmente feliz. A orquídea repousava perto da janela, como um símbolo daquela noite.
Depois do café, Lúcia e Adrian foram para a varanda. O ar da noite estava fresco. Sentaram lado a lado.
— Você cozinha muito — disse ele. — Sua comida é maravilhosa.
— Obrigada — respondeu ela. — E… é linda a aliança.
— Combina com você.
Ele ficou alguns segundos em silêncio, depois perguntou:
— Posso pegar sua mão?
Lúcia estendeu a mão devagar.
Adrian segurou com cuidado, passou o dedo por cima da aliança.
— Ficou linda mesmo.
Levou a mão dela até os lábios e beijou com delicadeza.
O coração de Lúcia quase saltou do peito.
Ela sorriu, sem conseguir dizer nada.
Naquela noite, sem pressa, sem excessos, eles começaram algo raro.
Um amor que nascia com respeito, verdade e intenção.
Do jeito certo.