Capítulo 30

850 Words
O Pedido Lúcia tinha feito um verdadeiro banquete. A cozinha estava tomada por cheiros bons, daqueles que abraçam a gente por dentro. Massa caseira descansava coberta por um pano limpo, o molho apurava no fogão em fogo baixo, carnes já estavam separadas, saladas prontas, pão aquecido. Dona Alice ajudava com calma, observando a filha de canto de olho. — Caprichou, hein, minha filha — comentou a mãe, mexendo o molho. — Parece até jantar de festa grande. Lúcia sorriu, nervosa. — É uma noite importante, mãe. Dona Alice não perguntou mais nada. Apenas sorriu também. Mãe sente. Quando tudo ficou pronto, Lúcia respirou fundo e foi tomar banho. A água morna escorreu pelos ombros, ajudando a aliviar um pouco da tensão. Escolheu uma roupa simples, mas que a deixava bonita. Nada exagerado. Do jeito dela. Deixou o cabelo solto, caindo em ondas pelas costas. Olhou-se no espelho por um instante a mais do que de costume. — Vai dar tudo certo — disse para si mesma. Do outro lado, Adrian já tinha encerrado o expediente no escritório. Trabalhara o dia inteiro, mas a cabeça não parava no trabalho. O nervosismo crescia conforme a hora se aproximava. Antes de ir para a fazenda e depois ir para casa de Seu Raul, passou pela cidade. Entrou numa floricultura pequena, simples, mas bem cuidada. Olhou ao redor sem saber exatamente o que procurar. A dona, uma senhora simpática, percebeu a indecisão. — Procurando algo especial? — perguntou. — Sim… — respondeu ele, pensativo. — Pra uma moça diferente. Ele pensou em Lúcia. No jeito simples, no olhar firme, no riso fácil. Ela não era de exageros. — Queria um buquê com várias flores — decidiu. — Um pouco de cada. Algo grande, mas delicado. A florista sorriu, entendendo. — E pra mãe dela? — Uma orquídea — respondeu sem hesitar. Quando saiu dali, Adrian carregava um buquê grande e bonito, cheio de cores, e uma orquídea embrulhada com cuidado. Respirou fundo antes de seguir viagem. Na casa de Seu Raul, tudo já estava organizado. Lúcia terminava de ajeitar a mesa quando ouviu o barulho da porta. O coração disparou. Caminhou até a entrada e abriu. Lá estava ele. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Dona Margarete entrou logo atrás e a abraçou forte. — Minha afilhada! Que felicidade te ver! — Dona Margarete! — Lúcia respondeu, surpresa e emocionada. Logo depois, Seu Santiago apertou a mão dela com firmeza. — É uma honra, minha filha. Por fim, Adrian estendeu o buquê. — Pra você. Lúcia ficou alguns segundos sem reação. O buquê era lindo. Colorido, vivo, diferente — como ele tinha pensado. Pegou com cuidado. — Obrigada, Adrian. Ela se afastou um pouco para dar passagem. — Entrem… a sala já tá com todo mundo. Adrian cumprimentou Seu Raul, Dona Alice, os demais presentes. Entregou a orquídea à Dona Alice, que ficou encantada. — Que coisa mais linda! — disse, emocionada. Todos se sentaram. O clima era de expectativa, mas também de respeito. Antes que a comida fosse servida, Adrian pigarreou levemente. — Já que estamos todos aqui… — começou, com a voz firme apesar do nervosismo — eu queria pedir a mão da Lúcia em namoro. O silêncio tomou a sala. Seu Raul olhou primeiro para Adrian, depois para a filha. Lúcia sustentou o olhar do pai, tranquila. Ela estava de acordo. Muito de acordo. — E então? — perguntou Seu Raul, sério. — Sim, pai — respondeu Lúcia com suavidade. Seu Raul respirou fundo. — Eu dou permissão — disse por fim. — Mas vai certo. Com respeito. Adrian assentiu imediatamente. — Vai ser certo, Seu Raul. Ele então tirou do bolso uma pequena caixinha. Abriu. Dentro, um par de alianças simples e bonitas. Adrian pegou uma, com cuidado, e colocou no dedo de Lúcia. As mãos dela estavam geladas. Ele percebeu, mas não comentou. Apenas segurou a mão dela por um segundo a mais. Lúcia pegou a outra aliança e colocou no dedo dele. Foi o primeiro toque verdadeiro entre os dois. Simples. Profundo. O jantar seguiu leve, cheio de conversa e risadas. Todos elogiaram a comida. — Tá tudo maravilhoso — disse Seu Santiago. — Minha filha manda bem demais na cozinha — completou Dona Alice, orgulhosa. Ela estava especialmente feliz. A orquídea repousava perto da janela, como um símbolo daquela noite. Depois do café, Lúcia e Adrian foram para a varanda. O ar da noite estava fresco. Sentaram lado a lado. — Você cozinha muito — disse ele. — Sua comida é maravilhosa. — Obrigada — respondeu ela. — E… é linda a aliança. — Combina com você. Ele ficou alguns segundos em silêncio, depois perguntou: — Posso pegar sua mão? Lúcia estendeu a mão devagar. Adrian segurou com cuidado, passou o dedo por cima da aliança. — Ficou linda mesmo. Levou a mão dela até os lábios e beijou com delicadeza. O coração de Lúcia quase saltou do peito. Ela sorriu, sem conseguir dizer nada. Naquela noite, sem pressa, sem excessos, eles começaram algo raro. Um amor que nascia com respeito, verdade e intenção. Do jeito certo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD