Do Jeito Certo
Lúcia permaneceu sentada na pedra por alguns segundos depois da confissão de Adrian. O som da água correndo ajudava a organizar os pensamentos. Ela respirou fundo, virou o rosto para ele e falou com a calma de quem sabe exatamente o que quer.
— Adrian… você vai ter que pedir minha mão em namoro pro meu pai e pra minha mãe.
Ele piscou algumas vezes, tentando entender se tinha ouvido direito. Depois, soltou uma risada nervosa.
— Seu Raul vai querer me dar uma surra, isso sim.
Lúcia arregalou os olhos por um instante e depois riu, aquela risada leve que sempre quebrava qualquer tensão.
— Tá querendo desistir?
Adrian parou de rir na hora. Virou o corpo para ela, sério.
— Claro que não.
Ela o observou com atenção.
— Então por que essa cara?
— Porque eu tô nervoso — confessou. — Nunca fiz isso, sabe? Nunca pedi permissão pra ninguém pra namorar. Sempre foi tudo… simples demais.
Lúcia assentiu, compreensiva.
— Eu sei. Mas pro meu pai, namoro é moda antiga. Tudo nos conformes. Conversa, respeito, palavra dada.
Adrian passou a mão pelo cabelo, pensativo.
— Então… — disse devagar — vou ter que comprar um anel de compromisso?
A preocupação era sincera. Lúcia não aguentou e caiu na risada.
— Você fala isso como se fosse uma sentença — brincou.
— Não é? — respondeu ele, entrando na brincadeira. — Nunca pensei que fosse usar anel por causa de namoro.
— Não precisa ser nada caro — explicou ela. — Precisa ser sincero.
Ele relaxou um pouco ao ouvir aquilo.
— Tá bom… — disse. — Um anel sincero eu consigo.
Lúcia levantou-se da pedra, ajeitou a roupa e estendeu a mão para ele se levantar também. Quando Adrian ficou de pé, ela falou:
— Vou preparar um jantar lá em casa amanhã. Assim você conversa com eles. Pode ser?
Adrian engoliu seco.
— Amanhã? — perguntou. — Assim… direto?
— Meu pai não gosta de enrolação — respondeu ela. — Nem eu.
Ele respirou fundo, depois sorriu.
— Pode ser.
Andaram alguns passos lado a lado, seguindo o caminho de volta. O clima estava diferente agora. Mais leve, mas também mais sério. Havia algo acordado entre eles.
Adrian parou de repente.
— Lúcia… — chamou.
Ela virou-se.
— Mas você aceita namorar comigo?
O olhar dele estava atento, quase apreensivo. Não era um homem acostumado a pedir. Aquilo o deixava vulnerável.
Lúcia demorou alguns segundos antes de responder. Aproximou-se mais um passo, ficando frente a frente com ele.
— Adrian Santiago… — disse, usando o nome completo pela primeira vez.
Ele sorriu, nervoso.
— Eu vou aceitar — continuou ela — mas nas minhas condições.
— Do jeito que você quiser, Lúcia Ramires — respondeu ele, sem hesitar.
Ela sorriu ao ouvir o sobrenome que carregava tanta história.
— Então deixa eu ser clara — disse. — Eu não corro. Não pulo etapas. Não faço nada escondido. Quero respeito, paciência e verdade.
— Eu te dou isso — respondeu ele. — Tudo isso.
— Não quero pressa — continuou. — Nem promessas que não possam ser cumpridas.
— Eu aprendo o seu tempo — garantiu.
— E, acima de tudo — concluiu ela — eu quero continuar sendo quem eu sou. Lúcia. Do meu jeito.
Adrian levantou a mão devagar e segurou a dela, com cuidado, como se pedisse permissão mesmo sem palavras.
— Eu não quero te mudar — disse. — Quero te conhecer. Todos os seus jeitos.
Ela apertou a mão dele de leve.
— Então estamos combinados.
Caminharam até onde os cavalos estavam. O sol já tinha descido quase por completo, deixando o céu pintado de tons quentes. Antes de se separarem, ficaram frente a frente novamente.
— Amanhã eu vou lá — disse Adrian. — Falar com seus pais. Direitinho.
— Eles vão gostar de você — respondeu Lúcia.
— Você acha? — perguntou ele, inseguro.
— Meu pai respeita homem que fala olhando no olho — disse ela. — E você faz isso.
Adrian sorriu, mais confiante.
— Então até amanhã.
— Até amanhã.
Eles se afastaram sem beijo, sem toque além das mãos. E, ainda assim, ambos sentiram que algo importante tinha sido firmado ali.
Naquela noite, Lúcia voltou para casa com o coração tranquilo. Preparou as coisas do jantar do dia seguinte com cuidado, pensou no que faria, no que serviria. Não era apenas um jantar. Era um rito. Um passo adiante.
Seu Raul percebeu o silêncio pensativo da filha, mas não perguntou nada. Ele sabia esperar.
Adrian, por sua vez, passou na cidade antes de ir para casa. Entrou numa joalheria simples, observou os anéis com atenção. Não queria algo exagerado. Escolheu um discreto, firme, sem brilho demais. Um anel que parecia com ela.
Quando chegou em casa, sentou-se na cama e ficou olhando o pequeno estojo na mão.
— Eu vou fazer isso direito — disse para si mesmo.
Pela primeira vez, ele não sentia medo de compromisso.
Sentia respeito.
E expectativa.
O dia seguinte chegaria trazendo conversa séria, olhares atentos e a bênção de quem realmente importava.
E assim, sem pressa, sem atalhos, Adrian e Lúcia começavam algo raro.
Do jeito certo.