Capítulo 33

1107 Words
Segredos e Surpresas Dona Margarete estava inquieta naquela manhã. Andava de um lado para o outro na cozinha da sede da fazenda, pensando em cada detalhe. O aniversário de Adrian se aproximava, e aquele seria diferente de todos os outros. Pela primeira vez, o filho estava vivendo um namoro de verdade, com intenção, com família envolvida, com futuro. E Lúcia fazia parte disso. Pegou o celular e digitou a mensagem com cuidado, escolhendo bem as palavras. Lúcia, preciso conversar com você. É importante. Pode vir até aqui quando conseguir? Do outro lado da fazenda, Lúcia estava no campo. O sol já estava alto, o trabalho seguia intenso. Ela usava a roupa de sempre para a lida: calça, bota, a faixa firme cobrindo o peito, a lace segurando o cabelo para não atrapalhar. Quando o celular vibrou, estranhou. Dona Margarete não costumava chamar assim, de repente. Leu a mensagem e sentiu um friozinho no estômago. — Deve ser coisa séria — murmurou. Mesmo no meio do trabalho, decidiu ir. Avisou rapidamente quem estava por perto, soltou o cavalo e seguiu para a sede. No caminho, apenas tirou a lace da cabeça, soltando o cabelo para não chegar de chapéu, mas manteve a faixa e a roupa de trabalho. Não tinha tempo — nem motivo — para trocar. Entrou pela cozinha, como sempre fazia. Dona Margarete a recebeu com um sorriso largo e abriu os braços. — Minha querida! — disse, abraçando-a com carinho. — Dona Margarete… — Lúcia respondeu, ainda um pouco confusa. — Senta aqui — pediu a mulher, puxando uma cadeira. — Preciso conversar com você. Lúcia sentou, as mãos ainda com marcas da lida. Dona Margarete reparou, mas não comentou. Em vez disso, foi direto ao ponto. — O aniversário do Adrian está chegando — disse. Os olhos de Lúcia se arregalaram levemente. — Está? — perguntou, surpresa. — Eu… eu não sabia a data ainda. E então sorriu. Um sorriso sincero, bonito, cheio de alegria. — Vai ser o primeiro aniversário dele comigo — completou, quase como um pensamento falado. Dona Margarete observou aquilo com ternura. — Pois é por isso mesmo que eu te chamei — disse. — Eu queria fazer algo especial. Pensei em um jantar aqui na sede. Lúcia pensou por um instante. — E se fosse no bar da cidade? — sugeriu. — Dá pra fazer algo simples, mas bonito. Dona Margarete balançou a cabeça devagar. — Até pensei nisso… mas queria uma surpresa maior. Aqui na sede dá pra chamar os funcionários da fazenda, fazer algo coletivo, sabe? Ele ia gostar. Lúcia assentiu. — Ia mesmo — concordou. — Ele gosta de estar com todo mundo. — Mas tem que ser surpresa — completou Dona Margarete, baixando um pouco a voz. — Adrian não pode desconfiar de nada. Lúcia sorriu. — Pode deixar. Eu ajudo no que for preciso. Foi nesse momento que passos ecoaram no corredor. Adrian tinha acabado de chegar. Entrou na sala e encontrou as duas sentadas, conversando baixo. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou, olhando primeiro para a mãe, depois para Lúcia. Lúcia se apressou em responder. — Não — disse com naturalidade. Dona Margarete levantou-se, sorrindo de forma tranquila demais. — Eu chamei a Lúcia para conversar, meu filho — falou. — Minha nora… e futura mãe dos meus netos. Lúcia arregalou os olhos, completamente pega de surpresa. O coração disparou. Antes que pudesse reagir, Dona Margarete piscou discretamente para ela, como quem diz não se preocupe. Adrian franziu a testa. — Mãe… — começou, sem saber o que dizer. — Relaxa — respondeu ela, rindo. — Estou brincando. Ou quase. Lúcia sorriu sem jeito, ainda tentando processar aquelas palavras. Adrian virou-se para Lúcia. — Vem — disse, estendendo a mão. — Vou te salvar da minha mãe. Ela aceitou a mão dele, sentindo o toque familiar e seguro. Subiram as escadas juntos. — É só pra te tirar dali — explicou ele em tom baixo. — Quando minha mãe começa, não tem fim. — Já percebi — respondeu Lúcia, rindo de leve. Ao abrir a porta do quarto, Lúcia entrou com cuidado. O quarto de Adrian era bonito, organizado, claro. Havia livros, algumas fotos antigas, uma janela grande por onde entrava a luz do fim da tarde. Tudo tinha o jeito dele: simples, mas bem cuidado. Adrian também estava bonito. Camisa limpa, cabelo arrumado, um ar tranquilo que sempre a fazia se sentir bem perto dele. Lúcia, por outro lado, sentiu-se um pouco deslocada. Olhou para as próprias mãos, ainda marcadas pelo trabalho, para a roupa simples. — Desculpa… — disse baixinho. — Eu tô suja da lida. Adrian a olhou com atenção e sorriu de um jeito doce. — Você tá linda — disse, sem hesitar. Ela corou. — Fala isso porque é meu namorado — respondeu, tentando brincar. — Falo porque é verdade — retrucou ele. Sentaram-se lado a lado na beira da cama, mantendo uma distância respeitosa. Adrian ficou em silêncio por alguns segundos, depois falou: — Minha mãe gosta muito de você. — Eu percebi — respondeu Lúcia, ainda meio sem jeito. — Às vezes até fico com vergonha. — Não fica — disse ele. — Ela só fala essas coisas porque gosta mesmo. E porque… — hesitou — ela me vê diferente desde que você entrou na minha vida. Lúcia levantou o olhar para ele. — Diferente como? — Mais calmo — respondeu. — Mais certo do que eu quero. Ela sorriu, tocada. — Eu também me sinto assim — confessou. — Mais tranquila. Ficaram ali conversando mais um pouco, sobre coisas simples, sobre o dia, sobre a fazenda. Em nenhum momento falaram do aniversário. O segredo precisava ser guardado. Quando Lúcia se levantou para ir embora, Adrian também se levantou. — Obrigado por vir — disse ele. — Mesmo no meio do trabalho. — Eu viria de qualquer jeito — respondeu ela. Na porta, ele segurou a mão dela com cuidado. — Você tá bem? — Tô — disse. — Só um pouco nervosa. — Por quê? Ela sorriu de canto. — Acho que sua mãe me pegou de surpresa. Adrian riu. — Ela faz isso mesmo. Antes que se separassem, ele falou: — Seja o que for que ela te chamou pra conversar… obrigada. Lúcia assentiu, guardando o segredo no peito. — Vai dar tudo certo. Desceu as escadas com o coração acelerado. Lá fora, o sol começava a se pôr, e ela respirou fundo antes de voltar para a lida. O aniversário de Adrian seria especial. E ela faria parte disso. Não só como namorada. Mas como alguém que já estava sendo acolhida como família.
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