Segredos e Surpresas
Dona Margarete estava inquieta naquela manhã. Andava de um lado para o outro na cozinha da sede da fazenda, pensando em cada detalhe. O aniversário de Adrian se aproximava, e aquele seria diferente de todos os outros. Pela primeira vez, o filho estava vivendo um namoro de verdade, com intenção, com família envolvida, com futuro.
E Lúcia fazia parte disso.
Pegou o celular e digitou a mensagem com cuidado, escolhendo bem as palavras.
Lúcia, preciso conversar com você. É importante. Pode vir até aqui quando conseguir?
Do outro lado da fazenda, Lúcia estava no campo. O sol já estava alto, o trabalho seguia intenso. Ela usava a roupa de sempre para a lida: calça, bota, a faixa firme cobrindo o peito, a lace segurando o cabelo para não atrapalhar. Quando o celular vibrou, estranhou. Dona Margarete não costumava chamar assim, de repente.
Leu a mensagem e sentiu um friozinho no estômago.
— Deve ser coisa séria — murmurou.
Mesmo no meio do trabalho, decidiu ir. Avisou rapidamente quem estava por perto, soltou o cavalo e seguiu para a sede. No caminho, apenas tirou a lace da cabeça, soltando o cabelo para não chegar de chapéu, mas manteve a faixa e a roupa de trabalho. Não tinha tempo — nem motivo — para trocar.
Entrou pela cozinha, como sempre fazia. Dona Margarete a recebeu com um sorriso largo e abriu os braços.
— Minha querida! — disse, abraçando-a com carinho.
— Dona Margarete… — Lúcia respondeu, ainda um pouco confusa.
— Senta aqui — pediu a mulher, puxando uma cadeira. — Preciso conversar com você.
Lúcia sentou, as mãos ainda com marcas da lida. Dona Margarete reparou, mas não comentou. Em vez disso, foi direto ao ponto.
— O aniversário do Adrian está chegando — disse.
Os olhos de Lúcia se arregalaram levemente.
— Está? — perguntou, surpresa. — Eu… eu não sabia a data ainda.
E então sorriu. Um sorriso sincero, bonito, cheio de alegria.
— Vai ser o primeiro aniversário dele comigo — completou, quase como um pensamento falado.
Dona Margarete observou aquilo com ternura.
— Pois é por isso mesmo que eu te chamei — disse. — Eu queria fazer algo especial. Pensei em um jantar aqui na sede.
Lúcia pensou por um instante.
— E se fosse no bar da cidade? — sugeriu. — Dá pra fazer algo simples, mas bonito.
Dona Margarete balançou a cabeça devagar.
— Até pensei nisso… mas queria uma surpresa maior. Aqui na sede dá pra chamar os funcionários da fazenda, fazer algo coletivo, sabe? Ele ia gostar.
Lúcia assentiu.
— Ia mesmo — concordou. — Ele gosta de estar com todo mundo.
— Mas tem que ser surpresa — completou Dona Margarete, baixando um pouco a voz. — Adrian não pode desconfiar de nada.
Lúcia sorriu.
— Pode deixar. Eu ajudo no que for preciso.
Foi nesse momento que passos ecoaram no corredor. Adrian tinha acabado de chegar. Entrou na sala e encontrou as duas sentadas, conversando baixo.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, olhando primeiro para a mãe, depois para Lúcia.
Lúcia se apressou em responder.
— Não — disse com naturalidade.
Dona Margarete levantou-se, sorrindo de forma tranquila demais.
— Eu chamei a Lúcia para conversar, meu filho — falou. — Minha nora… e futura mãe dos meus netos.
Lúcia arregalou os olhos, completamente pega de surpresa. O coração disparou. Antes que pudesse reagir, Dona Margarete piscou discretamente para ela, como quem diz não se preocupe.
Adrian franziu a testa.
— Mãe… — começou, sem saber o que dizer.
— Relaxa — respondeu ela, rindo. — Estou brincando. Ou quase.
Lúcia sorriu sem jeito, ainda tentando processar aquelas palavras.
Adrian virou-se para Lúcia.
— Vem — disse, estendendo a mão. — Vou te salvar da minha mãe.
Ela aceitou a mão dele, sentindo o toque familiar e seguro. Subiram as escadas juntos.
— É só pra te tirar dali — explicou ele em tom baixo. — Quando minha mãe começa, não tem fim.
— Já percebi — respondeu Lúcia, rindo de leve.
Ao abrir a porta do quarto, Lúcia entrou com cuidado. O quarto de Adrian era bonito, organizado, claro. Havia livros, algumas fotos antigas, uma janela grande por onde entrava a luz do fim da tarde. Tudo tinha o jeito dele: simples, mas bem cuidado.
Adrian também estava bonito. Camisa limpa, cabelo arrumado, um ar tranquilo que sempre a fazia se sentir bem perto dele.
Lúcia, por outro lado, sentiu-se um pouco deslocada. Olhou para as próprias mãos, ainda marcadas pelo trabalho, para a roupa simples.
— Desculpa… — disse baixinho. — Eu tô suja da lida.
Adrian a olhou com atenção e sorriu de um jeito doce.
— Você tá linda — disse, sem hesitar.
Ela corou.
— Fala isso porque é meu namorado — respondeu, tentando brincar.
— Falo porque é verdade — retrucou ele.
Sentaram-se lado a lado na beira da cama, mantendo uma distância respeitosa. Adrian ficou em silêncio por alguns segundos, depois falou:
— Minha mãe gosta muito de você.
— Eu percebi — respondeu Lúcia, ainda meio sem jeito. — Às vezes até fico com vergonha.
— Não fica — disse ele. — Ela só fala essas coisas porque gosta mesmo. E porque… — hesitou — ela me vê diferente desde que você entrou na minha vida.
Lúcia levantou o olhar para ele.
— Diferente como?
— Mais calmo — respondeu. — Mais certo do que eu quero.
Ela sorriu, tocada.
— Eu também me sinto assim — confessou. — Mais tranquila.
Ficaram ali conversando mais um pouco, sobre coisas simples, sobre o dia, sobre a fazenda. Em nenhum momento falaram do aniversário. O segredo precisava ser guardado.
Quando Lúcia se levantou para ir embora, Adrian também se levantou.
— Obrigado por vir — disse ele. — Mesmo no meio do trabalho.
— Eu viria de qualquer jeito — respondeu ela.
Na porta, ele segurou a mão dela com cuidado.
— Você tá bem?
— Tô — disse. — Só um pouco nervosa.
— Por quê?
Ela sorriu de canto.
— Acho que sua mãe me pegou de surpresa.
Adrian riu.
— Ela faz isso mesmo.
Antes que se separassem, ele falou:
— Seja o que for que ela te chamou pra conversar… obrigada.
Lúcia assentiu, guardando o segredo no peito.
— Vai dar tudo certo.
Desceu as escadas com o coração acelerado. Lá fora, o sol começava a se pôr, e ela respirou fundo antes de voltar para a lida.
O aniversário de Adrian seria especial.
E ela faria parte disso.
Não só como namorada.
Mas como alguém que já estava sendo acolhida como família.