Sob o Mesmo Céu
A noite parecia conspirar a favor deles. O caminho de volta da cidade era silencioso, embalado apenas pelo som constante dos pneus sobre a estrada e pela música baixa que tocava no rádio. Lúcia observava pela janela, ainda sentindo o eco do baile, das luzes, dos olhares. Mas tudo aquilo já parecia distante. O que importava agora era estar ali, ao lado de Adrian.
Ele a olhou de relance, com um sorriso tranquilo, desses que nascem quando o coração está em paz.
— A noite tá perfeita — disse ele, quebrando o silêncio. — E não é por causa do baile.
Lúcia virou o rosto devagar para ele.
— Eu sei — respondeu, suave. — É porque a gente tá junto.
Adrian respirou fundo, como quem toma coragem para dizer algo que já vinha pensando desde que saíram do salão.
— Lúcia… posso te pedir uma coisa?
— Pode.
— Posso passar na fazenda antes de te levar pra casa? — perguntou, com cuidado. — Só pra gente ficar um pouco… olhar as estrelas. Longe dos olhos dos outros. Queria um tempo só nosso.
Ela sentiu o coração acelerar de leve. Não havia pressão na voz dele, apenas um desejo sincero de estar perto, de dividir silêncio e presença.
— Pode sim — respondeu, sorrindo. — Eu também queria isso.
O carro mudou de direção, seguindo por uma estrada de terra conhecida por ambos. A poeira subia leve, e o céu, aos poucos, se abria diante deles. Longe da cidade, as estrelas apareciam com uma nitidez impressionante, como se o universo tivesse decidido se mostrar inteiro naquela noite.
Adrian estacionou próximo a uma cerca, em um ponto alto da fazenda. Desligou o carro e, por alguns segundos, nenhum dos dois se mexeu. O silêncio ali não era vazio. Era cheio.
— Faz tempo que eu não paro pra olhar o céu assim — ele disse, saindo do carro.
Lúcia fez o mesmo, ajeitando o vestido com cuidado. O vento noturno tocava de leve sua pele, e ela respirou fundo, sentindo o cheiro da terra, do campo, da casa.
— Aqui é diferente — disse ela. — Parece que o tempo anda mais devagar.
Eles caminharam alguns passos até a cerca de madeira. Adrian tirou o paletó e colocou sobre os ombros de Lúcia com um gesto natural.
— Pra você não sentir frio.
— Obrigada — disse ela, envolvendo-se no tecido que ainda carregava o cheiro dele.
Ficaram lado a lado, olhando para cima. O céu estava absurdamente estrelado. A Via Láctea parecia um caminho luminoso atravessando a escuridão.
— Sabe — Adrian começou —, no meio de tanta gente hoje, de tanta conversa, eu só conseguia pensar em como eu queria te trazer pra cá.
— Por quê? — ela perguntou, sem tirar os olhos do céu.
— Porque aqui… eu posso ser só eu. E você também.
Lúcia sorriu, sentindo o peso bom daquelas palavras.
— Eu gostei do baile — disse ela. — Mas gosto mais disso aqui.
Ele virou o rosto para ela.
— Eu também.
Houve um silêncio breve, quebrado apenas pelo canto distante de um inseto noturno. Adrian apoiou os braços na cerca, depois olhou novamente para Lúcia.
— Você ficou linda hoje — disse, com sinceridade calma. — Mas o que mais me deixou… mexido foi ver como você se manteve você mesma.
— Eu fiquei com medo de não me encaixar — confessou ela. — Mas aí eu pensei… se eu tentar ser outra pessoa, aí sim eu vou estar fora do lugar.
— Exatamente — ele concordou. — E foi isso que mais chamou atenção. Inclusive a minha.
Ela o olhou, os olhos cor de mel refletindo as estrelas.
— Adrian… você percebeu os olhares?
Ele sorriu de leve.
— Percebi.
— Não me incomodou tanto quanto eu pensei que incomodaria — ela continuou. — Acho que porque… você nunca me fez sentir pequena.
O sorriso dele sumiu por um instante, substituído por algo mais sério, mais profundo.
— Lúcia, eu nunca faria isso. Você é grande demais pra caber na insegurança de alguém.
Ela sentiu o peito aquecer.
— Eu sei.
Adrian se aproximou um pouco mais. Não invadiu o espaço dela, apenas diminuiu a distância, como quem pede permissão sem palavras. Lúcia não recuou. Pelo contrário, virou o corpo para ele.
— Posso segurar sua mão? — ele perguntou, ainda cuidadoso.
— Pode.
As mãos se encontraram, dedos entrelaçados. O toque era quente, firme, tranquilo. Nada apressado. Nada exigente.
— Eu queria que você soubesse — ele disse — que estar com você assim… me faz bem de um jeito que eu nunca senti antes.
Lúcia engoliu em seco.
— Eu também sinto isso — confessou. — Às vezes fico até sem saber explicar.
— Não precisa explicar — respondeu ele. — Só sentir.
Eles ficaram assim por alguns minutos, apenas sentindo. O vento, o céu, a presença um do outro.
Adrian soltou uma risada baixa.
— Sabe o que é engraçado?
— O quê?
— Eu já vi esse céu centenas de vezes. Mas hoje ele parece diferente.
— Porque você não tá olhando sozinho — ela respondeu.
Ele assentiu.
— Exatamente.
Adrian ergueu a mão livre e apontou para uma constelação.
— Aquela ali é o Cruzeiro do Sul. Meu pai me ensinou quando eu era pequeno.
— Meu pai também — disse Lúcia, sorrindo com a lembrança. — Ele dizia que enquanto a gente conseguisse ver aquelas estrelas, a gente nunca estaria perdido.
— Seu Raul é um homem sábio.
— É — ela concordou. — Às vezes duro, mas justo.
Adrian respirou fundo, como quem guarda aquele momento dentro de si.
— Eu quero fazer tudo certo com você, Lúcia.
Ela o olhou com atenção.
— Eu sei. E isso me dá tranquilidade.
O silêncio voltou, mas agora era ainda mais confortável. Adrian se virou completamente para ela.
— Posso te abraçar?
— Pode.
Ele a envolveu com cuidado, sem pressa, como se aquele gesto fosse um compromisso silencioso. Lúcia apoiou a cabeça no peito dele, ouvindo o coração que batia firme.
— Aqui tá bom — ela murmurou.
— Muito — ele respondeu.
Ficaram assim, abraçados sob o céu estrelado, longe dos olhares curiosos, das expectativas alheias, do barulho do mundo. Ali, só existiam eles, o campo e as estrelas.
Quando, enfim, Adrian se afastou um pouco, ainda mantendo as mãos dela entre as suas, sorriu.
— Obrigado por essa noite.
— Eu que agradeço — disse ela. — Vou guardar esse momento pra sempre.
Ele se inclinou levemente e depositou um beijo calmo na testa dela. Um gesto simples, mas carregado de significado.
— Vamos? — perguntou. — Te levo pra casa.
— Vamos — respondeu.
Enquanto caminhavam de volta para o carro, Lúcia olhou mais uma vez para o céu e pensou que, dali em diante, sempre que visse estrelas, lembraria daquela noite. Daquele silêncio. Daquele amor que começava a se mostrar não em grandes gestos, mas em pequenos momentos compartilhados sob o mesmo céu.