Vozes Que Ainda Não Chegam
Naquele dia, a fazenda acordou diferente.
Ou melhor, Lúcia não acordou no horário de sempre.
O sol já estava alto quando ela abriu os olhos, sentindo o corpo pesado, como se tivesse corrido uma longa distância durante a noite. Olhou para o relógio simples na parede e arregalou os olhos.
— Meu Deus… onze horas…
Aquilo nunca acontecia.
Ramires — que era Lúcia na lida, no campo, no papel que o mundo conhecia — jamais deixava de sair cedo. Mas naquele dia, o corpo pediu pausa. A madrugada no veterinário, o susto com Diana, a tensão acumulada, tudo cobrou seu preço.
Ela se sentou devagar na cama, respirou fundo e passou a mão pelo rosto. O quarto estava silencioso, iluminado pela luz clara do fim da manhã. Pela primeira vez em muito tempo, ela não se sentiu culpada por descansar.
— Eu precisava disso — murmurou para si mesma.
Na cozinha, Dona Alice percebeu.
— Deixa a menina dormir — disse ao marido quando ele comentou. — Ela passou por muita coisa ontem.
E assim, Ramires não foi para a lida naquele dia. A fazenda seguiu seu ritmo sem ela, como se entendesse que até os mais fortes precisam parar.
Quando Lúcia finalmente se levantou, tomou um banho demorado, vestiu uma roupa confortável e foi ver como Diana estava. Ainda não podia trazê-la de volta, mas o veterinário havia ligado mais cedo dizendo que ela estava melhorando. Aquilo trouxe um alívio imediato ao coração.
Sentou-se na varanda com seu tereré, o rádio ligado baixo, o vento morno passando pelos cabelos. Pensou em Adrian.
No jeito como ele atendeu o telefone na madrugada.
No silêncio atento ao lado dela.
No “tô chegando” dito sem perguntas.
Pegou o celular de botão. Os dedos hesitaram um pouco, mas ela sorriu sozinha antes de começar a digitar.
Bom dia, Adrian.
Espero que você esteja bem.
Obrigada por ontem… de verdade.
Você fez toda a diferença.
Tenha um ótimo dia 🤍
Ela enviou a mensagem às onze da manhã.
Não esperava resposta imediata. Sabia que ele trabalhava muito. Mesmo assim, sentir que tinha escrito já deixava o coração mais leve.
Do outro lado da cidade, Adrian dormia profundamente.
Tinha chegado em casa com o corpo exausto e a mente cheia. Dormiu como não dormia havia semanas, um sono pesado, sem sonhos, sem interrupções.
Quando acordou, o sol já invadia o quarto com força.
Ele piscou algumas vezes, confuso, e pegou o celular na mesa de cabeceira. Eram duas da tarde.
— Eu apaguei… — murmurou, passando a mão no rosto.
Antes mesmo de se levantar, desbloqueou o telefone. A primeira coisa que viu foi o nome dela na tela.
Lúcia.
O coração acelerou imediatamente.
Abriu a mensagem e leu devagar, como se quisesse absorver cada palavra. Um sorriso nasceu espontâneo, daqueles que não se controla.
Ele olhou o horário em que ela tinha enviado.
— Onze da manhã…
Ficou alguns segundos encarando a tela, pensativo.
— Ela acordou… e pensou em mim.
Aquilo aqueceu o peito de um jeito profundo.
Sentou-se na cama, ainda de pijama, e respondeu na mesma hora.
Boa tarde, princesa.
Dormi demais hoje
Eu que agradeço por confiar em mim.
Sempre que precisar, estarei aí.
Espero que a Diana esteja melhor.
Tenha um dia lindo.
Enviou a mensagem e ficou olhando para o celular como se ele pudesse, de alguma forma, trazer Lúcia mais perto.
Foi então que o pensamento veio, claro como nunca.
— Eu vou comprar um celular pra ela.
Levantou-se de vez, andando pelo quarto enquanto a ideia tomava forma.
— Não é possível… — falava consigo mesmo. — A gente se fala por mensagem curta, sem áudio, sem ouvir a voz… sem vídeo.
Ele imaginou como seria ouvir a risada dela pelo telefone. Ver o sorriso pelo vídeo. Poder ligar no meio do dia só para dizer “tô com saudade”.
— Eu quero ouvir a voz dela — disse em voz alta. — Quero ver o rosto dela quando fala comigo.
Não era sobre tecnologia. Era sobre proximidade.
Ele sabia que Lúcia gostava das coisas simples, do rádio, do olho no olho, do jeito antigo de viver. Mas também sabia que aquilo não significava rejeitar o novo — apenas escolher com cuidado.
— Se ela aceitar… — pensou — vai ser no tempo dela.
Adrian tomou banho, se arrumou e desceu para almoçar com os pais. Dona Margarete percebeu o sorriso diferente no rosto do filho.
— Dormiu bem? — perguntou.
— Dormi — respondeu ele. — E acordei melhor ainda.
— Mensagem da Lúcia? — provocou.
Ele riu.
— Sempre ela.
Enquanto isso, Lúcia estava na varanda quando o celular vibrou. Leu a resposta de Adrian e sorriu de um jeito calmo, sereno. Não era aquele sorriso tímido de antes. Era um sorriso seguro.
— Ele dormiu — murmurou, divertida.
Guardou o celular no bolso e voltou a observar o horizonte. Pensou no futuro, nas mudanças que estavam acontecendo devagar, mas de forma firme.
Pensou também que, talvez, ouvir a voz dele mais vezes não fosse uma ideia tão r**m.
Sem saber, naquele mesmo instante, Adrian já planejava qual modelo de celular seria simples, funcional, sem excessos — do jeito que combinava com ela.
Dois corações, em lugares diferentes, conectados por mensagens curtas, silêncios respeitosos e uma certeza crescente: queriam estar mais perto.
Mesmo que, por enquanto, fosse apenas pela tela de um celular.