O Brilho Que Não se Apaga
Sandrinha esperava Lúcia sentada na cama, com tudo já separado com um cuidado quase cerimonial. O vestido estava pendurado na porta do guarda-roupa, protegido por um pano claro; a sandália repousava ao lado, alinhada como se também aguardasse o momento certo. Sobre a penteadeira, maquiagem na medida, nada exagerado. Sandrinha conhecia Lúcia melhor do que muita gente — sabia que qualquer excesso não combinaria com ela.
Lúcia estava no banho. A água caía quente, escorrendo pelos ombros, levando junto a poeira da lida, o cansaço dos dias e aquela sensação antiga de que certos lugares não eram para ela. Fechou os olhos por um instante, respirou fundo. Não era só um baile. Era um passo fora do mundo onde sempre se sentiu segura. E, pela primeira vez, não estava sozinha para dar esse passo.
— Anda, mulher — gritou Sandrinha do quarto. — Se demorar mais, eu vou entrar aí e te puxar pelo braço.
Lúcia riu do outro lado da porta.
— Já tô indo!
Quando saiu do banheiro, enrolada na toalha, o cabelo ainda úmido caindo pelas costas, Sandrinha se levantou como quem avalia uma obra antes da finalização.
— Muito bem — disse. — Agora senta. Hoje você vai conhecer uma versão sua que nem imagina.
— Sandrinha… — Lúcia começou, desconfiada.
— Nada de “Sandrinha”. Confia.
Ela sentou. Sandrinha começou pelo cabelo, secando com cuidado, modelando sem tirar o movimento natural. Nada de penteados presos ou duros. O cabelo de Lúcia precisava ser livre, como ela. Depois, a maquiagem: pele leve, olhos marcados só o suficiente para destacar o olhar firme, boca em tom suave, elegante.
— Olha pra mim — disse Sandrinha, parando por um segundo. — Você não tá se fantasiando. Só tá deixando aparecer o que já é.
Lúcia engoliu em seco.
— Eu tô nervosa.
— Normal. Mas não esquece quem você é.
Quando chegou a hora do vestido, Sandrinha ajudou com cuidado. O tecido deslizou pelo corpo de Lúcia como se realmente tivesse sido feito para ela. Quando se olhou no espelho, demorou alguns segundos para reconhecer o reflexo.
Não era outra pessoa. Era ela — mas sem as defesas, sem a roupa de trabalho, sem o chapéu, sem a poeira. Uma Lúcia que poucos tinham visto.
— Meu Deus… — murmurou.
Sandrinha sorriu, emocionada.
— Irreconhecível — disse. — E ainda assim, totalmente você.
O som de um carro estacionando do lado de fora fez o coração de Lúcia acelerar.
— É ele — disse, quase num sussurro.
Sandrinha pegou a sandália e se ajoelhou para ajudá-la a calçar.
— Agora vai lá. E lembra: se alguém olhar demais, o problema é deles.
Lúcia respirou fundo e inspirou coragem.
Adrian desceu do carro ajustando o paletó, ensaiando mentalmente um elogio simples, algo que não a deixasse sem jeito. Ele esperava vê-la bonita, claro. Mas nada o preparou para o momento em que ela apareceu na porta.
O tempo parou.
Lúcia desceu os poucos degraus com passos firmes, mas o coração batia acelerado. O vestido acompanhava cada movimento, o cabelo solto emoldurava o rosto, e o olhar… aquele olhar sempre forte, agora misturado com uma doçura que o desmontou.
Adrian simplesmente ficou ali, parado.
— Adrian? — ela chamou, sorrindo de leve.
Ele piscou, como se estivesse acordando.
— Lúcia… — disse, a voz baixa, quase sem ar. — Eu… você tá…
Ele não conseguiu completar a frase.
— Tá feio? — perguntou ela, tentando brincar.
— Tá maravilhosa — respondeu, enfim, dando um passo à frente. — Muito mais do que eu imaginava.
Ela sentiu o rosto esquentar.
— Obrigada.
Adrian ofereceu o braço, ainda tentando processar a imagem. Enquanto caminhavam até o carro, ele percebeu algo que não esperava: um aperto estranho no peito.
Ciúme.
E nem tinham chegado ao baile ainda.
Durante o trajeto, Lúcia olhava pela janela, tentando acalmar os pensamentos. Adrian, por sua vez, observava de canto de olho. Cada movimento dela chamava atenção. E ele sabia exatamente o que estava pensando: hoje ia testar o próprio ciúme.
— Tá tudo bem? — ela perguntou, percebendo o silêncio.
— Tá — respondeu rápido demais. — Só tô… admirando.
Ela riu.
— Para com isso.
— Não consigo.
Quando chegaram ao local do baile, o movimento era grande. Carros caros, pessoas bem vestidas, risos calculados. Assim que Lúcia saiu do carro, alguns olhares se voltaram imediatamente para ela. Adrian sentiu o maxilar endurecer.
— É normal assim? — ela perguntou baixinho.
— É — respondeu. — Mas hoje você vai chamar mais atenção que o normal.
E chamou.
Homens olharam, mulheres avaliaram, cochichos surgiram. Lúcia sentia os olhares, mas manteve a postura. Não abaixou a cabeça, não se encolheu. Caminhou ao lado de Adrian como quem sabe exatamente onde pisa.
— Boa noite, Adrian — disse um conhecido, apertando sua mão. — E essa…?
— Lúcia — respondeu ele, firme. — Minha namorada.
O homem sorriu, olhando um pouco além do necessário.
— Prazer, Lúcia.
— O prazer é meu — respondeu ela, educada, sem se alongar.
Adrian colocou a mão na cintura dela de forma quase instintiva.
Mais tarde, enquanto Lúcia conversava com Sandrinha e Dona Margarete, Adrian se afastou por um momento para falar com alguns conhecidos. Foi o suficiente para perceber o que temia: homens se aproximavam, educados, interessados.
— Você dança? — perguntou um deles.
Lúcia sorriu, educada.
— Um pouco.
Adrian observava de longe, sentindo o estômago revirar. Não era desconfiança. Era a constatação de que aquela mulher, que ele sempre viu forte na lida, agora brilhava em qualquer lugar.
Quando voltou até ela, estendeu a mão.
— Dança comigo?
O olhar dela encontrou o dele, curioso.
— Claro.
Na pista, Adrian a puxou para perto, mais do que o necessário. Lúcia percebeu.
— Tá tudo bem mesmo? — perguntou, em tom baixo.
Ele sorriu, meio sem jeito.
— Acho que hoje eu descobri que sou ciumento.
Ela riu, encostando a testa na dele.
— Fica tranquilo. Eu tô aqui com você.
E naquele instante, entre a música, os olhares e o brilho que não vinha só do vestido, Adrian entendeu: não era o mundo que precisava se adaptar a Lúcia. Era o mundo que precisava aprender a enxergá-la.
E ele, ali, tinha orgulho — e um ciúme novo — de ser o homem ao lado dela.