Promessas, Silêncios e Cuidado
Lúcia fez exatamente o que Adrian tinha sugerido, ainda que com um sorriso tímido no rosto.
— Eu quero abacate… com chocolate… e morangos — disse, olhando primeiro para o pai, depois para Adrian, como se pedisse permissão para existir naquele desejo estranho.
Por um segundo, o restaurante ficou em silêncio.
Depois, Seu Raul soltou uma gargalhada alta, daquelas que vinham do fundo do peito.
— Olha a cara do rapaz! — disse, batendo a mão na mesa. — Vai lá, Adrian. Vai e traz pra sua mulher.
Adrian piscou duas vezes, surpreso, e depois riu, meio sem saber se aquilo era sério ou brincadeira.
— É… — disse, levantando-se. — Desejo de grávida não se discute, né?
Lúcia mordeu o lábio para segurar o riso enquanto ele se afastava.
O casamento no cartório tinha sido feito poucas horas antes. Simples. Rápido. Assinaturas, testemunhas, um aperto de mão firme do pai dela e o olhar emocionado de Dona Alice. Não houve música, nem vestido branco, nem festa grande. Mas havia algo muito mais pesado no ar: responsabilidade.
Quando Adrian voltou, não trouxe apenas os ingredientes. Foi direto até a cozinha do restaurante, explicou com toda a seriedade do mundo:
— É desejo de grávida.
O cozinheiro sorriu, compreensivo, como se aquilo explicasse tudo.
Adrian voltou e sentou-se ao lado de Lúcia, aproximando a cadeira da dela, o braço quase encostando no seu.
Dona Alice observava tudo com os olhos brilhando de lembranças.
— Quando eu tava grávida dessa menina aí — disse, apontando para Lúcia —, fiz o Raul ir atrás de mel.
Seu Raul arqueou a sobrancelha.
— Não tinha mercado por perto — completou Dona Alice, rindo. — Ele apareceu com o mel… e com as abelhas atrás.
A mesa inteira caiu na risada.
Adrian olhou para Lúcia, imaginando aquela cena, e depois para Seu Raul.
— Acho que eu dei sorte — comentou. — Pelo menos não precisei enfrentar abelha nenhuma.
O prato chegou.
Abacate amassado, chocolate derretido e morangos cortados com cuidado. Uma mistura improvável, mas bonita.
Lúcia experimentou a primeira colherada com atenção, como se estivesse avaliando algo importante.
— Tá delicioso — disse, sincera.
Ela pegou outra colherada e estendeu para Adrian.
— Prova.
Ele hesitou só um segundo antes de aceitar. Provou.
— É… — admitiu, surpreso. — Não é r**m não.
Lúcia sorriu, satisfeita, como se tivesse vencido uma pequena batalha invisível.
Mais tarde, já na sede da fazenda, o silêncio da noite parecia maior do que tudo.
A casa grande estava quieta. Os pais tinham se recolhido cedo, respeitando aquele primeiro momento dos dois, mesmo que tudo ainda fosse tão novo.
Lúcia entrou no quarto devagar.
O coração batia acelerado.
Ela nunca tinha dormido com Adrian. Nunca tinha dividido um quarto, uma noite inteira, um silêncio tão íntimo. Mesmo sabendo que ele nunca a pressionaria, o nervosismo vinha do desconhecido.
Adrian percebeu.
Sem dizer nada, fechou a porta, passou a chave com calma, como quem quer garantir apenas privacidade — não obrigação.
Depois, pegou um travesseiro.
E deitou no tapete.
Lúcia arregalou os olhos.
— Adrian… você pode dormir na cama também.
Ele se apoiou no cotovelo e olhou para ela com um sorriso calmo, daqueles que tranquilizam mais do que palavras.
— Princesa… — disse baixo. — Eu não sou de ferro. Eu te amo, te quero muito. Mas eu prometi.
Ela sentiu o rosto esquentar.
— Nossa primeira vez vai ser depois do seu aniversário — ele continuou. — Não porque alguém mandou. Mas porque eu quero que seja no seu tempo. Do jeito certo.
Lúcia apertou as mãos no lençol.
— E você tá com medo de mim assim… — ele completou, com delicadeza. — Como homem.
Ela respirou fundo.
— É que… eu nunca… — a frase morreu antes de terminar.
— Eu sei — ele respondeu de imediato. — E tá tudo bem.
Adrian ajeitou o travesseiro no chão.
— Agora relaxa. Se alguém perguntar como foi a noite… diz que foi perfeita.
Ela ficou vermelha na hora.
— Eu nem… sei o que responder.
Ele riu baixinho.
— Sem detalhes — disse. — Só isso.
Lúcia deitou-se devagar na cama, ainda sentindo o coração acelerado. Adrian se levantou apenas para apagar a luz, e antes de deitar novamente no tapete, aproximou-se dela.
Ajoelhou ao lado da cama.
— Posso? — perguntou, apontando para a testa dela.
Lúcia assentiu.
Ele depositou um beijo leve, respeitoso, quase solene.
— Dorme bem, minha esposa — disse, em tom brincalhão e carinhoso ao mesmo tempo.
Ela sorriu, envergonhada.
— Boa noite… meu marido.
Adrian se afastou, deitou no tapete e ficou olhando para o teto por alguns segundos.
Lúcia virou de lado, observando-o.
— Adrian…
— Oi.
— Obrigada.
— Pelo quê?
— Por tudo.
Ele sorriu no escuro.
— A gente vai dar um jeito — disse. — Em tudo.
O silêncio voltou a preencher o quarto, mas agora era um silêncio bom. Cheio de promessas, de cuidado e de um amor que crescia não pela pressa, mas pela escolha diária de respeitar.
E naquela noite, mesmo sem dividir a cama, Lúcia dormiu com a certeza de que nunca tinha estado tão segura.