Capítulo 65

870 Words
Promessas, Silêncios e Cuidado Lúcia fez exatamente o que Adrian tinha sugerido, ainda que com um sorriso tímido no rosto. — Eu quero abacate… com chocolate… e morangos — disse, olhando primeiro para o pai, depois para Adrian, como se pedisse permissão para existir naquele desejo estranho. Por um segundo, o restaurante ficou em silêncio. Depois, Seu Raul soltou uma gargalhada alta, daquelas que vinham do fundo do peito. — Olha a cara do rapaz! — disse, batendo a mão na mesa. — Vai lá, Adrian. Vai e traz pra sua mulher. Adrian piscou duas vezes, surpreso, e depois riu, meio sem saber se aquilo era sério ou brincadeira. — É… — disse, levantando-se. — Desejo de grávida não se discute, né? Lúcia mordeu o lábio para segurar o riso enquanto ele se afastava. O casamento no cartório tinha sido feito poucas horas antes. Simples. Rápido. Assinaturas, testemunhas, um aperto de mão firme do pai dela e o olhar emocionado de Dona Alice. Não houve música, nem vestido branco, nem festa grande. Mas havia algo muito mais pesado no ar: responsabilidade. Quando Adrian voltou, não trouxe apenas os ingredientes. Foi direto até a cozinha do restaurante, explicou com toda a seriedade do mundo: — É desejo de grávida. O cozinheiro sorriu, compreensivo, como se aquilo explicasse tudo. Adrian voltou e sentou-se ao lado de Lúcia, aproximando a cadeira da dela, o braço quase encostando no seu. Dona Alice observava tudo com os olhos brilhando de lembranças. — Quando eu tava grávida dessa menina aí — disse, apontando para Lúcia —, fiz o Raul ir atrás de mel. Seu Raul arqueou a sobrancelha. — Não tinha mercado por perto — completou Dona Alice, rindo. — Ele apareceu com o mel… e com as abelhas atrás. A mesa inteira caiu na risada. Adrian olhou para Lúcia, imaginando aquela cena, e depois para Seu Raul. — Acho que eu dei sorte — comentou. — Pelo menos não precisei enfrentar abelha nenhuma. O prato chegou. Abacate amassado, chocolate derretido e morangos cortados com cuidado. Uma mistura improvável, mas bonita. Lúcia experimentou a primeira colherada com atenção, como se estivesse avaliando algo importante. — Tá delicioso — disse, sincera. Ela pegou outra colherada e estendeu para Adrian. — Prova. Ele hesitou só um segundo antes de aceitar. Provou. — É… — admitiu, surpreso. — Não é r**m não. Lúcia sorriu, satisfeita, como se tivesse vencido uma pequena batalha invisível. Mais tarde, já na sede da fazenda, o silêncio da noite parecia maior do que tudo. A casa grande estava quieta. Os pais tinham se recolhido cedo, respeitando aquele primeiro momento dos dois, mesmo que tudo ainda fosse tão novo. Lúcia entrou no quarto devagar. O coração batia acelerado. Ela nunca tinha dormido com Adrian. Nunca tinha dividido um quarto, uma noite inteira, um silêncio tão íntimo. Mesmo sabendo que ele nunca a pressionaria, o nervosismo vinha do desconhecido. Adrian percebeu. Sem dizer nada, fechou a porta, passou a chave com calma, como quem quer garantir apenas privacidade — não obrigação. Depois, pegou um travesseiro. E deitou no tapete. Lúcia arregalou os olhos. — Adrian… você pode dormir na cama também. Ele se apoiou no cotovelo e olhou para ela com um sorriso calmo, daqueles que tranquilizam mais do que palavras. — Princesa… — disse baixo. — Eu não sou de ferro. Eu te amo, te quero muito. Mas eu prometi. Ela sentiu o rosto esquentar. — Nossa primeira vez vai ser depois do seu aniversário — ele continuou. — Não porque alguém mandou. Mas porque eu quero que seja no seu tempo. Do jeito certo. Lúcia apertou as mãos no lençol. — E você tá com medo de mim assim… — ele completou, com delicadeza. — Como homem. Ela respirou fundo. — É que… eu nunca… — a frase morreu antes de terminar. — Eu sei — ele respondeu de imediato. — E tá tudo bem. Adrian ajeitou o travesseiro no chão. — Agora relaxa. Se alguém perguntar como foi a noite… diz que foi perfeita. Ela ficou vermelha na hora. — Eu nem… sei o que responder. Ele riu baixinho. — Sem detalhes — disse. — Só isso. Lúcia deitou-se devagar na cama, ainda sentindo o coração acelerado. Adrian se levantou apenas para apagar a luz, e antes de deitar novamente no tapete, aproximou-se dela. Ajoelhou ao lado da cama. — Posso? — perguntou, apontando para a testa dela. Lúcia assentiu. Ele depositou um beijo leve, respeitoso, quase solene. — Dorme bem, minha esposa — disse, em tom brincalhão e carinhoso ao mesmo tempo. Ela sorriu, envergonhada. — Boa noite… meu marido. Adrian se afastou, deitou no tapete e ficou olhando para o teto por alguns segundos. Lúcia virou de lado, observando-o. — Adrian… — Oi. — Obrigada. — Pelo quê? — Por tudo. Ele sorriu no escuro. — A gente vai dar um jeito — disse. — Em tudo. O silêncio voltou a preencher o quarto, mas agora era um silêncio bom. Cheio de promessas, de cuidado e de um amor que crescia não pela pressa, mas pela escolha diária de respeitar. E naquela noite, mesmo sem dividir a cama, Lúcia dormiu com a certeza de que nunca tinha estado tão segura.
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