Capítulo 55

1150 Words
Dias de Cuidado e Silêncio Bom O susto foi inevitável. Quando Dona Margarete e seu Rodrigues subiram as escadas e deram de cara com Adrian no sofá, a perna imobilizada, muletas encostadas ao lado e o semblante ainda cansado, o coração de mãe quase saiu pela boca. — Meu Deus do céu, Adrian! — Dona Margarete levou a mão ao peito. — O que aconteceu com você, meu filho? Seu Rodrigues ficou parado por um segundo, sério, avaliando a cena como quem tenta entender tudo de uma vez. — Que história é essa de hospital? — perguntou, aproximando-se. Antes que Adrian pudesse responder, Lúcia apareceu da cozinha com um copo d’água na mão. — Calma, Dona Margarete — disse com a voz firme, mas respeitosa. — Já passou. Foi um acidente no campo, mas não quebrou nada. Só uns arranhões e a perna machucada. Dona Margarete olhou para ela, os olhos marejados, e então fez algo inesperado: aproximou-se e a abraçou forte. — Obrigada — disse, com a voz embargada. — Obrigada por cuidar do meu filho. Lúcia ficou um pouco sem jeito, mas retribuiu o abraço. — Eu fiz o que qualquer pessoa faria — respondeu. — Não ia deixar ele sozinho. — Não é qualquer pessoa — disse seu Rodrigues, sério. — É você. Adrian observava a cena em silêncio, o coração aquecido. Ainda parecia surreal tudo o que tinha acontecido naquele dia, e mais surreal ainda era ver aquelas pessoas importantes para ele reunidas ali por causa de um acidente… e por causa de Lúcia. — O médico disse que é repouso — explicou ele, tentando tranquilizar os pais. — Alguns dias de muleta, remédio certinho e nada de exagero. — Nada de exagero? — Dona Margarete ergueu a sobrancelha. — Isso vindo de você? — Mãe… — ele tentou argumentar. Ela suspirou fundo e se virou para Lúcia novamente. — Minha filha, você deve estar cansada também. — Estou bem — respondeu Lúcia. — Ele já tomou o remédio e está mais tranquilo agora. Dona Margarete trocou um olhar rápido com seu Rodrigues. Aquele olhar silencioso de casal que conversa sem palavras. — Eu preciso viajar com Santiago — disse ela, finalmente. — Uma viagem que já estava marcada, coisa de trabalho e família. Eu não queria deixar o Adrian sozinho nesse estado. Lúcia franziu levemente a testa, prestando atenção. — Eu pensei… — continuou Dona Margarete. — Será que você poderia ficar com ele nesses dias? Pelo menos até eu voltar. Antes que Lúcia respondesse, seu Raul, que estava encostado próximo à porta, pigarreou. — Eu conheço minha filha — disse, com aquele tom de pai experiente. — Se ela ficar, fica direito. Mas também sei que ela não faz nada sem juízo. Ele olhou firme para Lúcia. — Juízo, viu? Lúcia sorriu de leve. — Sempre, pai. — Então tá — concluiu ele. — Pode ficar. Mas qualquer coisa, me liga. Dona Margarete soltou um suspiro de alívio. — Obrigada, seu Raul. De verdade. Adrian piscou algumas vezes, tentando processar tudo. — Pera… — disse ele. — Vocês estão falando sério? Lúcia olhou para ele, com aquele sorriso calmo que sempre o desarmava. — Estou indo em casa pegar uma bolsa — disse. — Volto já. — Você vai… ficar aqui? — perguntou ele, incrédulo. — Vou — respondeu, simples. — Alguém tem que cuidar de você. Ele abriu um sorriso que doeu mais que a perna machucada. — Isso é real mesmo? — murmurou, quase para si. Dona Margarete riu. — É real, sim. E trate de obedecer ela, viu? — Vou obedecer tudo — respondeu Adrian. — Prometo. Lúcia saiu e, menos de uma hora depois, voltou com uma bolsa média no ombro. Quando Adrian viu aquela cena — ela entrando, como quem chega para ficar — algo dentro dele se ajeitou. — Você trouxe… tudo isso pra ficar uns dias? — perguntou. — Uns dias — confirmou ela. — Até você melhorar. Ela colocou a bolsa no quarto, organizou algumas coisas com naturalidade, como se já estivesse ali há muito tempo. Adrian acompanhava tudo com os olhos, em silêncio, encantado. — Você percebe o quanto isso é… top demais? — disse ele, rindo. — Top demais? — ela repetiu, divertida. — Você aqui. Comigo. — Ele abriu os braços. — Vou poder ver séries com você, reclamar da dor, ganhar bronca quando tentar levantar sozinho… — Vai ganhar mesmo — respondeu ela, sentando-se ao lado dele no sofá. — E não reclama muito, não. — Já estou reclamando menos só por você estar aqui — confessou. Ela pegou o controle da televisão. — Que série você estava vendo? — Qualquer uma fica melhor com você — respondeu ele, descarado. Ela revirou os olhos, mas sorriu. — Então vou escolher. Enquanto a série começava, Lúcia ajeitou as almofadas, certificou-se de que a perna dele estava bem apoiada e coberta. Adrian observava cada gesto, cada cuidado pequeno. — Você sabe que eu nunca fui bom em ficar parado — disse ele, quebrando o silêncio. — Eu sei — respondeu ela. — Por isso mesmo vou ficar de olho. — Isso soa como ameaça. — É promessa — disse ela, séria… por dois segundos, até rir. Ele segurou a mão dela. — Obrigado — disse de novo. — Por salvar meu dia… e talvez um pouco mais que isso. Ela apertou a mão dele de leve. — Você faria o mesmo por mim. — Sem pensar duas vezes — respondeu. A noite caiu devagar. Dona Margarete e seu Rodrigues se despediram, mais tranquilos agora. Seu Raul também foi, deixando um último olhar sério, mas confiante para a filha. A casa ficou em silêncio, quebrado apenas pelo som da série e, de vez em quando, pela risada baixa de Adrian. — Sabe — disse ele, depois de um tempo —, eu nunca pensei que um acidente fosse me dar algo tão bom. — Não fala assim — respondeu Lúcia. — Ninguém precisa se machucar pra aprender. — Eu aprendi que não preciso ser forte o tempo todo — disse ele. — Às vezes, ser cuidado também é bom. Ela olhou para ele com ternura. — E você aprendeu isso rápido demais. Ele sorriu, cansado, mas feliz. Encostou a cabeça no encosto do sofá, fechou os olhos por um instante. — Se eu dormir, me acorda pra tomar o remédio? — pediu. — Eu acordo — respondeu. — Fica tranquilo. E enquanto ele relaxava, sentindo-se seguro como há muito não se sentia, Lúcia ficou ali, ao lado dele, assistindo à série, mas prestando atenção mesmo era na respiração calma de Adrian. Naqueles dias que viriam, entre remédios, muletas, séries e cuidados silenciosos, os dois entenderiam algo simples e poderoso: amar também é ficar. Mesmo quando o mundo desacelera. Mesmo quando a perna dói. E, para Adrian, ter Lúcia ali era mais que recuperação. Era tudo.
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